Esta é uma lembrança pessoal da minha primeira viagem ao Japão, feita quando eu ainda era jovem. Passei cerca de 30 dias entre Tóquio, Gunma, Yokohama, Osaka, Kyoto, Shiga e Hamamatsu. Parte importante dessa viagem foi conhecer Testemunhas de Jeová que falavam português e japonês. O texto não pretende definir como são todos os membros, nem comparar países como se cada pessoa coubesse em um estereótipo; é o que vivi nas casas, nas reuniões e nos passeios para os quais fui convidado.
Antes de viajar, eu já ouvia muitas opiniões prontas sobre religião, animes, trabalho e comportamento no Japão. A viagem me ensinou algo mais útil: pessoas de uma mesma crença podem ter experiências, limites e jeitos de conversar muito diferentes. Em vez de responder por todo um grupo, prefiro contar situações concretas que me marcaram.
Os números de congregações e de evangelizadores mudam com o tempo. Para dados atualizados sobre a presença das Testemunhas de Jeová no Japão, vale consultar a página de estatísticas publicada pela própria organização. Aqui, o foco é a viagem e as pessoas que conheci.
Sumário 7
O que eu esperava antes de chegar
Eu fui sozinho e com poucos planos realmente confirmados. Tinha conversado pelas redes sociais com alguns irmãos no Japão e conseguido o contato de um ancião em Osaka. Minha mensagem era simples: eu pretendia passar alguns dias na região e queria conhecer uma congregação de língua portuguesa. Ele se dispôs a procurar quem pudesse me orientar.
Mesmo assim, eu imaginava que ficaria solitário. Havia perguntas de amigos no Brasil sobre japoneses serem frios ou ocupados demais para receber uma visita. Não encontrei uma resposta geral para isso; encontrei pessoas específicas que abriram espaço na rotina para conversar, mostrar a cidade e explicar o que eu não entendia.

Chegada a Tóquio e visita a Betel
Comecei a viagem em Tóquio e fiquei cerca de 14 dias em um hostel na região de Akihabara. Na segunda semana, visitei Betel em Ebina, Kanagawa. Um dia antes, recebi a notícia de que haveria guia em português. Foi uma surpresa boa, porque eu ainda não conseguia me virar tão bem em japonês.
De fora, o lugar pareceu menor do que eu imaginava. Durante a visita, porém, percebi o tamanho do prédio e do terreno. Também havia um salão de assembleias na área. Cheguei cedo e caminhei bastante pelo bairro de Ebina antes do horário marcado. Na recepção, assistimos a um vídeo sobre a visita e conheci pessoas de Yokohama e visitantes estrangeiras.
Depois, os irmãos de Yokohama me convidaram para assistir à reunião deles. Esse convite mudou o restante do meu roteiro. Eu tinha esquecido a bateria da câmera no hotel, então as fotos daquele dia foram poucas e feitas pelo celular, mas saí de lá com contatos e planos para os dias seguintes.

Uma visita a Gunma e outra a Yokohama
Na segunda semana em Tóquio, fui recebido por uma família em Gunma depois de conversar pelas redes sociais. Desci na estação de Isesaki, onde uma irmã me buscou de carro com outras irmãs. Almoçamos, passamos em um mercado e depois seguimos para uma reunião em português em outra cidade.
O caminho de carro demorou mais do que eu esperava. No fim, a parte mais marcante não foi a distância, mas a naturalidade da conversa. Eu tinha chegado ao Japão com muitas dúvidas e pouca segurança no idioma; naquela casa, fui tratado como visita de verdade, com comida, conversa e atenção.
No dia seguinte, voltei a Tóquio porque tinha prometido visitar a congregação de Yokohama. A estação ficava longe do salão e chovia, então comprei um guarda-chuva transparente e subi muitas escadas antes de chegar. Quando entrei, os irmãos que eu havia conhecido em Betel ficaram surpresos de me ver.
Uma irmã em cadeira de rodas vinha até meu lugar para mostrar textos bíblicos em português. Depois da reunião, tiramos fotos e alguns irmãos me levaram para almoçar no Saizeriya. Meu japonês era limitado, mas papel, gestos e paciência resolveram mais do que eu esperava. Mais tarde, um irmão me mostrou um ponto alto de Yokohama e uma praça que eu reconheci por causa do anime Oreimo.

Congregação de língua portuguesa em Osaka
Em Osaka, encontrei em Kyoto o irmão com quem eu conversava antes da viagem. Ele era japonês, participava de uma congregação de língua portuguesa e tinha um jeito muito divertido de falar. Passei uma noite em um apartamento e, no dia seguinte, fui à reunião antes de seguir para a casa de outra família.
O que me chamou atenção foi ouvir português com sotaques diferentes e ver japoneses nativos se esforçando para usar o idioma. Alguns ainda estavam aprendendo, mas não deixavam a conversa parar. O Salão do Reino reunia congregações de vários idiomas, o que dava ao prédio um movimento diferente do que eu conhecia no Brasil.
Fui hospedado por um casal jovem para participar de uma saída especial voltada a estrangeiros. Passamos o dia percorrendo bairros, procurando nomes estrangeiros nas caixas de correio e tentando iniciar conversas. Em um shopping, almoçamos em um restaurante de sushi de esteira; em outro momento, saí com irmãos da congregação chinesa. Essa mistura de idiomas foi uma das cenas mais curiosas da viagem.

À noite, conheci Namba e Dōtonbori. Era um lugar cheio, luminoso e barulhento, mas a conversa com turistas acontecia sem pressa. Vestíamos roupas comuns, caminhávamos, tirávamos fotos e tentávamos falar o idioma de quem encontrávamos. Às vezes, só no final da conversa alguém oferecia um folheto. Para mim, aquilo pareceu bem diferente de uma abordagem mecânica.
Também tivemos tempo para passear, visitar pontos históricos e comer soba. No domingo, fomos a um prédio onde morava um brasileiro que já tinha estudado a Bíblia. Ficamos horas conversando; depois, conhecemos uma tumba famosa na região. Esses momentos pequenos são os que ficaram mais vivos na memória.

Hospedagem, presentes e outros passeios
Depois, fui para a casa de outra família em Osaka. Antes de chegar, procurei um presente para levar. Acabei comprando um brinquedo de pelúcia que as crianças podiam usar enquanto brincavam no chão. Era um presente simples, mas a preocupação de não chegar de mãos vazias veio do desejo de agradecer pela hospedagem.
A família tinha duas crianças e a dona da casa costumava ficar na porta dando tchau até eu sumir de vista. Em outro dia, visitei Hamamatsu com um brasileiro que eu havia conhecido em Osaka. Passeamos por uma base aérea, comemos yakiniku e fomos a um onsen. Mais detalhes desse dia estão no relato sobre Hamamatsu, aviões, yakiniku e onsen.
No sábado, seguimos para Shiga, onde o irmão que conheci antes da viagem faria um discurso. Fiquei na casa de um casal brasileiro mais velho. A irmã trabalhava com quiropraxia e cuidou das minhas costas; a casa tinha gatos enormes e muito bonitos. Na manhã seguinte, experimentei um café da manhã com arroz e peixe.

Em cada casa onde fiquei, o café da manhã tinha algo diferente: atum, sopa de missô, suco, iogurte, linguiça, presunto e mussarela apareciam em combinações que eu não esperava. Talvez parte daquele capricho fosse por eu ser visita, mas era impossível não perceber a generosidade com que fui recebido.
O que levei dessa experiência
Não quero transformar uma viagem em regra sobre um país, uma religião ou uma cultura inteira. Conheci pessoas acolhedoras, pacientes e brincalhonas, e essa foi a minha experiência. Também conheci irmãos que assistiam anime, compravam mangás usados e falavam sem tensão sobre coisas que antes pareciam assunto proibido para mim.
Em Kyoto, por exemplo, conversamos sobre visitar o Kinkaku-ji, o Pavilhão Dourado. Em Osaka e Yokohama, anime surgiu na conversa com a mesma espontaneidade que comida, trabalho ou paisagens. Aquilo me ajudou a perceber que uma pessoa pode ter fé, gostos próprios e senso de humor sem caber em uma imagem pronta.
Uma parte importante dessa viagem foi aprender a ouvir melhor. Em vez de repetir frases vagas como “minha religião não permite”, vale explicar a própria escolha com respeito e aceitar que o outro pode fazer diferente. Essa mudança não depende de país; depende de como cada pessoa decide conversar.

Escrevi este relato sem identificar pessoas que me receberam, porque hospitalidade não é convite para expor a vida alheia. O que posso dizer é que voltei com gratidão por cada refeição, conversa confusa em japonês, passeio improvisado e porta aberta. Ainda tenho vontade de retornar ao Japão com mais tempo para rever lugares e amigos.
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