Se você estuda o idioma japonês, já sabe que uma coisa só cabe em várias palavras. Grande parte dessas variações tem a ver com cultura, hierarquia, cortesia e o quão formal está a conversa. A linguagem de gênero entra nesse pacote: a frase pode ser a mesma, mas o jeito de terminar — わ, ぞ, かしら — muda o clima inteiro.
Se você estudar os pronomes japoneses, vai perceber que existem diferentes maneiras de falar eu e você separadas por gênero. Existem também palavras, construções e terminações consideradas mais masculinas ou mais femininas. É perceptível que, no Japão, mulheres e homens costumam soar diferente — sobretudo na conversa solta, não no e-mail da empresa.
As palavras femininas são chamadas de onna kotoba (女言葉); os hábitos de conversa associados às mulheres, joseigo (女性語). Do lado masculino, otoko kotoba (男言葉) e danseigo (男性語). Também aparece 女らしい / 男らしい para o comportamento que a sociedade espera de cada lado. Linguistas preferem descrever isso como um eixo áspero–suave, não como dois idiomas separados.
Sumário 3
A diferença entre homens e mulheres
As palavras e terminações japonesas que costumam ser populares entre cada gênero não são tão importantes a ponto de você ficar com vergonha de estar falando como uma garota (ou o contrário). Existem coisas além de palavras que separam a fala feminina da masculina. Às vezes essas partículas só empurram o tom para um lado.
O estereótipo é conhecido: a fala associada às mulheres soa mais suave e polida; a associada aos homens, mais direta e curta. Por isso uma mulher pode preferir formas macias e um homem, vocabulário mais seco. Nada disso é lei de gramática. É hábito de conversa casual. Na escrita formal e no keigo de loja, escritório ou notícia, a diferença de gênero quase some — o japonês escrito, fora de diálogo citado, não marca homem e mulher do jeito que o português marca gato e gata.
As mulheres tendem a usar formas polidas com mais frequência, e prefixos de embelezamento como お水 e お弁当 aparecem mais nesse registro. Apesar de muitos animes usarem a linguagem de gênero no volume máximo, cada vez mais jovens falam um japonês bem mais neutro, sem わよ e かしら a cada frase. O desenho congela um papel; a rua, não.
Você não precisa se preocupar tanto com a linguagem de gênero ao estudar japonês. Assim como o keigo e a linguagem formal, isso pode ficar para depois. No começo você está aprendendo a maneira neutra de conversar. Principalmente porque esse recorte está sempre mudando.
Terminações e seus gêneros
Existem terminações mais associadas a um gênero do que a outro. Se examinarmos a história da fala no Japão, as formas marcadas como femininas ganharam cara própria — o chamado てよだわ言葉 das estudantes da era Meiji — enquanto boa parte da fala “masculina” continua encostada no padrão neutro casual.
As terminações japonesas costumam dar ênfase ou alguma força especial à palavra ou ao verbo no final das sentenças. As associadas à fala feminina incluem:
- わ - wa
- わよ - wa yo
- わね - wa ne
- わよね - wa yo ne
- のね - no ne
- のよ - no yo
- の - no
- だこと - da koto
- なの - na no
- のねぇ - no nee
- だわ - da wa
- てよ - te yo
- かしら - kashira
Já as associadas à fala masculina:
- や - ya
- ぜぇ - zee
- ぜ - ze
- だぞ - da zo
- だな - da na
- だ - da
- だね - da ne
- な - na
- さ - sa
- ぞ - zo
- かい - kai
- かな - kana
Quase todos os exemplos acima já foram usados por ambos os sexos. Alguns ainda são meio neutros e dependem da ocasião, da voz, da região e da palavra que fecha a frase. Grande parte dessas terminações ganhou cara de gênero depois da era Meiji.
Um caso que o livro didático simplifica demais: わ. Com entonação crescente, soa feminino clássico. Com entonação decrescente, é ênfase comum no Kansai — e homens usam. わよ e わね, por outro lado, puxam para o feminino independentemente do tom. かしら (“será que…?”) é o outro marcador que o anime adora e a rua jovem quase largou. や, na lista masculina, também puxa mais para o oeste do Japão do que para “fala de homem” em Tóquio.
As garotas costumam fazer mais perguntas sem utilizar o ka (か), ou usam expressões como の e なの. Já os rapazes usam o か nas perguntas com mais frequência e também かい e だい.
Outros pontos da linguagem de gênero
Vamos ver alguns exemplos de palavras, expressões e perguntas no neutro, masculino e feminino. Vale ter ao menos o básico do japonês, porque usamos hiragana e alguns kanji do N5.
| Neutro | Masculino | Feminino |
| 行く | 行くよ | 行くわよ |
| 日本人 | 日本人だ | 日本人だわ |
| 高いのか? | 高いのかい? | 高いの? |
| 何? | 何だい? | 何なの? |
| 私 | 僕/俺 | あたし |
Os pronomes japoneses separam bem o recorte de gênero, mas os substantivos em si quase nunca têm. Não existe gato e gata: só 猫 (neko). Em alguns casos, honoríficos japoneses como さん, くん e ちゃん empurram um nome neutro para um lado. O vocabulário também vaza tom: 食べる contra 食う, おいしい contra うまい — o segundo de cada par soa mais áspero, não “errado”.
Se você está ouvindo anime para treinar o ouvido, cruze com fala real: personagem de shoujo pode viver de わよ; uma universitária em Tóquio, não. As partículas finais do japonês continuam o atalho mais honesto para perceber o tom — desde que você não trate cada ぞ como identidade permanente de quem fala.
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