Japonês Vago - Isso quer dizer sim ou não?

O japonês não é vago: depende, isso sim, muito mais do contexto do que estamos habituados a esperar.

Quem convive durante algum tempo com a língua japonesa acaba por se deparar com afirmações do tipo "o japonês é vago" ou "os japoneses nunca dizem não de forma directa". Aparecem em guias de viagem, podcasts sobre línguas e fóruns de estudantes, e trazem um fundo de verdade, mas falham o ponto central. Aquilo que à superfície parece imprecisão resulta, na maior parte das vezes, de um conjunto pequeno de características bem identificáveis: um inventário de sílabas muito reduzido, uma quantidade notável de homófonos, um sistema de escrita em que o mesmo carácter pode ler-se de várias maneiras e uma preferência cultural marcada pela comunicação indirecta, densa em contexto. Quando se separam estes quatro factores, a imagem muda: o japonês não é vago, é apenas uma língua que depende muito mais do contexto do que nós, falantes de português, estamos habituados a esperar.

Este artigo percorre a questão passo a passo. Porque é que tantas palavras japonesas soam parecidas? Que papel desempenham as cinco vogais e as cerca de 46 sílabas de base? Em que diferem o acento tonal de Tóquio e o de Osaka? Porque existem tantas palavras com a mesma pronúncia e significados completamente diferentes? E porque é que respostas como 大丈夫, いい, かも ou どっちでも parecem tão difíceis de ler, mesmo quando para os falantes nativos são perfeitamente claras?

Japonês vago: um pote de gorjetas no Japão que ilustra a ambiguidade das expressões de cortesia

Porque é que o japonês soa a vago

A primeira diferença que salta à vista para um falante de português é o número de sílabas. O japonês constrói todas as palavras a partir de um conjunto muito reduzido de sons de base: cinco vogais puras (a, i, u, e, o) combinadas com cerca de nove séries de consoantes dão aproximadamente 46 sílabas de base, a que se junta a n silábica (ん). O português, em comparação, move-se entre milhares de combinações possíveis; o japonês vive com uma paleta incrivelmente mais pequena e, por isso, reutiliza-a vezes sem conta. Isto não é um defeito: é a forma mais eficiente de fazer funcionar uma língua inteira com um teclado fonético tão curto. Mas significa que muitas palavras acabam por partilhar a mesma pronúncia, e é aí que começa a sensação de ambiguidade.

Com esta paleta tão pequena, o japonês consegue construir sem problemas todas as palavras do dia a dia. O custo, porém, é que o ouvinte pode hesitar um instante: "será esta pronúncia aquela palavra ou outra?" Dentro de uma única língua, é comum encontrar palavras com a mesma pronúncia e significados muito diferentes lado a lado. Mesmo em português já temos casos com são (são, do verbo ser, e são, saúde), cela (cela de prisão e cela de avião), conserto (reparação e concerto musical) ou estrope (verbo e nome, com grafias diferentes). O japonês simplesmente transformou este fenómeno em traço central do sistema.

Será que esta ambiguidade é um problema só de quem aprende japonês? Na verdade, também em português usamos pequenas expressões ambíguas no quotidiano. Quando alguém nos oferece algo e respondemos "está bem, obrigado", a outra pessoa pode ficar na dúvida se aceitámos ou se estamos a recusar delicadamente. O japonês faz exactamente o mesmo movimento, mas leva-o mais longe: a própria língua e a cultura à volta dela estão construídas para preferir esta zona cinzenta em vez do sim ou do não directos.

O contexto é a chave

A razão mais clara pela qual um falante de japonês depende muito mais do contexto do que nós está na quantidade de informação que a frase traz dentro de si. O sujeito aparece muitas vezes omitido, os pronomes pessoais quase não surgem, o tempo verbal vem indicado por partículas no fim da frase em vez de pela conjugação do verbo, e vários elementos que em português damos por garantidos são sugeridos em vez de afirmados. Quando tudo isto se soma, cada frase torna-se menos auto-suficiente e mais dependente do que veio antes, do que se está a viver naquele momento e do que ambas as pessoas já sabem uma da outra.

Isto não é mistério nem preguiça: é uma escolha coerente. A língua economiza energia ao não repetir o que o contexto já torna evidente, e em troca obriga o ouvinte a entrar dentro da situação. Para um falante nativo, este jogo é tão natural como respirar; para quem está a aprender, cada frase exige um exercício de leitura da atmosfera à volta das palavras, mais do que das palavras em si.

O sistema de partículas japonesas (os pequenos sufixos que marcam a função de cada elemento na frase, como wa para o tema, ga para o sujeito, wo para o objecto, ni para o destino ou direcção, de para o instrumento ou lugar) é, na verdade, bastante rigoroso. Quando o estudante percebe que a função de cada pedaço da frase está gramaticalmente marcada, a sensação de vagueza começa a diminuir. O que parece ambiguidade é, com frequência, rigor gramatical combinado com economia de palavras.

A armadilha do acento tonal

Um dos factores que mais contribui para a sensação de vagueza do japonês é o acento tonal, e quase nunca se fala dele nos primeiros meses de estudo. Tóquio, por exemplo, distingue palavras pelo local onde a voz desce dentro da sílaba: hashi (箸, pauzinhos) e hashi (橋, ponte) partilham as mesmas duas sílabas, mas a primeira desce na primeira sílaba e a segunda na segunda. Em Osaka, o padrão é diferente e muitas palavras que em Tóquio soam iguais passam a distinguir-se com facilidade. Quando o estudante, sobretudo no início, ainda não interiorizou este sistema, é natural que duas pronúncias pareçam exactamente a mesma palavra.

Isto não significa que cada sílaba tenha um tom fixo como no mandarim ou no cantonês. O japonês funciona mais por um contorno de altura dentro da palavra: onde a voz sobe, onde desce e onde se mantém. Para um ouvido europeu habituado ao acento de intensidade, é fácil não reparar neste contraste e juntar tudo num mesmo saco. É mais uma razão pela qual "parece tudo igual" quando, na verdade, está tudo a ser cuidadosamente separado, só que por uma pista que ainda não estamos a treinar.

Homófonos e leituras múltiplas

Outra fonte clássica de confusão são os homófonos. O japonês tem milhares de pares (e até trios) de palavras que se escrevem de maneira diferente mas se pronunciam de forma idêntica. A solução para os desfazer costuma estar, em parte, no sistema de escrita: cada uma destas palavras está geralmente escrita com um kanji diferente, e é o carácter que desambigua. Foi por isso que o artigo sobre palavras iguais com significados completamente diferentes continua a ser leitura recomendada: mostra como a escrita compensa, com caracteres diferentes, aquilo que a pronúncia funde.

Para complicar ainda mais, cada kanji tem, em geral, mais do que uma leitura: a on'yomi (leitura sino-japonesa, usada em palavras compostas) e a kun'yomi (leitura japonesa, usada em palavras isoladas ou em conjunto com okurigana). O mesmo carácter pode ler-se de maneira diferente consoante a palavra onde entra. A um estrangeiro isto parece arbitrário; para um falante nativo, é apenas mais uma camada de informação que entra automaticamente em jogo e ajuda a fixar o sentido.

O keigo é o contrário do vago

Se o japonês fosse de facto vago por natureza, o seu sistema de cortesia verbal, o keigo (敬語), não faria sentido nenhum. Pelo contrário: é uma das construções linguísticas mais precisas que existem para marcar posição social, distância, respeito e intenção. O sonkeigo (尊敬語) eleva o interlocutor, o kenjougo (謙譲語) humbleza quem fala, e o teineigo (丁寧語) marca a polidez geral através das formas finais dos verbos e adjectivos. A mesma acção, "dar", pode ser expressa de formas muito diferentes consoante esteja a ser feita por alguém de posição inferior para superior, entre colegas, ou de superior para inferior.

Isto quer dizer que, por trás da aparente flexibilidade, o japonês carrega uma engrenagem gramatical extremamente rigorosa para tratar a relação entre as pessoas. A "vagueza" de que tanto se fala é, em larga medida, a ponta visível de uma preferência cultural por respostas suaves; a engrenagem por baixo é precisa, e exige que se saiba quem é quem dentro de cada conversa.

Sim e não na prática

Passemos à parte mais útil para o dia a dia: o conjunto de respostas que mais confusão criam. Em vez de um sim ou não claro, o japonês oferece uma série de marcadores indirectos que só fazem sentido dentro do contexto. Vale a pena conhecê-los um a um:

  1. 大丈夫 (daijoubu) significa literalmente "estou bem". É a resposta típica a um oferecimento, mas pode ser tanto "sim, aceito, obrigado" como "não, obrigado, não precisa". Em situações formais, o tom e o contexto decidem; em conversa rápida, o gesto ou o ritmo da voz costumam resolver a dúvida.
  2. いい (ii) é uma palavra traiçoeira porque pode ser abreviação de duas muito diferentes. Yoi (良い) significa "bom" e funciona como aceitação ("está bem, vamos"); iie (いいえ) significa "não" e funciona como recusa. O mesmo som, consoante a sílaba tónica e a situação, abre portas ou fecha conversas. Imagine convidar alguém para sair e ouvir apenas ii: até saber o tom, é impossível ter a certeza.
  3. それ好きかも (sore suki kamo) parece um carinho declarado, mas termina com o kamo, que em japonês indica hipótese, possibilidade, talvez. Traduzido à letra, é algo como "talvez eu goste disso". Em conversa romântica, é lido muitas vezes como "estou a gostar de si, mas não quero ser demasiado directa"; noutros contextos, pode ser só um elogio reticente a um café, um disco ou um filme.
  4. どっちでも (docchi demo) quer dizer "qualquer um serve" ou "tanto faz". Pode indicar genuína indiferença, mas também pode ser uma forma educada de recusar escolher e empurrar a decisão para o outro. No Japão, esta resposta aparece com frequência em situações em que escolher "errado" seria pior do que não escolher nada.
  5. ちょっと (chotto), "um pouco" ou "só um instante", é o marcador indirecto por excelência. Chotto muzukashii ("é um pouco difícil") é, com frequência, um não educado a um pedido; chotto matte ("espera um instante") é, quase sempre, apenas isso. Ler bem o chotto é, muitas vezes, a diferença entre levar um não a sério e insistir em algo que a outra pessoa não quer fazer.
  6. 検討します (kentou shimasu), "vou analisar / vou pensar no assunto", soa, em português, como uma resposta produtiva. Em contexto profissional japonês, na maior parte das vezes, é um não polido. Continuar a insistir depois de ouvir esta expressão costuma ser contraproducente, porque ela foi escolhida precisamente para encerrar a conversa sem magoar ninguém.
Japonês vago: imagem do anime Charlotte que acompanha a lista de respostas ambíguas em japonês

De onde vem o estereótipo do japonês vago

Se o sistema é tão rigoroso, porque é que tanta gente conclui que o japonês é vago? A resposta está menos na língua e mais na cultura de comunicação. Existe em japonês um par de conceitos muito útil para perceber este fenómeno: o honne (本音), a opinião ou sentimento verdadeiro, e o tatemae (建前), a posição pública, ajustada ao grupo, ao contexto e à hierarquia. Em muitas situações, o que se diz em público é o tatemae, e não o honne. Quem está de fora ouve o tatemae e tem tendência a interpretá-lo como ambiguidade, quando se trata antes de uma escolha consciente de proteção da face do grupo e da relação.

Isto não quer dizer que todos os japoneses sejam necessariamente tímidos ou que nunca dêem respostas directas. Generalizar um povo inteiro é sempre injusto. O que existe é uma forte preferência cultural pela comunicação indirecta, motivada por valores como a harmonia do grupo, a preservação da face e o cuidado em não magoar o outro. Frases como chotto ou kentou shimasu são instrumentos precisos desta preferência, não sinais de confusão mental. Outras expressões, como yabai, mostram também como uma única palavra pode oscilar entre o muito positivo e o muito negativo consoante o tom, o contexto e a geração; a gíria mais recente ukero (ウケる), que originalmente significava "receber", passou entre os mais novos a significar "hilariante" ou "engraçado", mais um caso de sentido que se afasta do original consoante o uso popular.

Mesmo assim, vale a pena aprender

Conhecer este lado indirecto do japonês não torna a língua mais confusa; torna-a mais legível. Quando se percebe que daijoubu tanto pode ser sim como não, que ii tanto pode ser aceite como recusa, e que chotto é um marcador muito mais subtil do que o seu equivalente em português, começa a ficar mais fácil evitar mal-entendidos. O segredo é o mesmo que rege qualquer língua: prestar atenção ao contexto, ao tom de voz, à relação entre as pessoas e à situação em que a conversa acontece.

Se está a começar a aprender japonês, não leve estes exemplos como motivo para desistir. Leve-os como aviso prático: cada vez que ouvir uma destas palavras, vale a pena parar um instante e observar o que se passa à volta. É esse treino de leitura que faz a diferença entre passar dois anos a sentir-se perdido e chegar ao ponto em que o japonês começa, de facto, a fazer sentido.

Este artigo nasceu a partir do episódio 9 do dorama Nihonjin no Shiranai Nihongo (日本人が知らない日本語), uma comédia sobre uma professora brasileira a ensinar japonês no Japão, e que mostra muito bem, com humor, estes choques de leitura. Se está a aprender e ainda não viu, é excelente companhia para o que leu aqui.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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