Bottakuri no Japão: o golpe em bares e clubes noturnos

Bottakuri no Japão: o golpe em bares e clubes noturnos

Quando o convite da rua vira uma conta que não fecha

No Japão quase ninguém te aplica um golpe na padaria da esquina. Na vida noturna o recorte muda: um convite educado, um “lugar especial” e, no caixa, uma conta que não tem nada a ver com o que você ouviu na rua. O nome disso é bottakuri [ぼったくり].

A palavra vem de boru [ぼる], “tirar lucro abusivo”, ligado a bōri [暴利], e da ideia de puxar o dinheiro para si — por isso também aparece escrito ぼっ手繰り. Em inglês cai como clip joint ou rip-off: você sentou, bebeu, e o preço só ficou claro quando já era tarde demais.

Rua noturna de Akihabara, em Tóquio, com letreiros iluminados e movimento de pedestres
Sumário 6

O que é bottakuri?

Em bairros com muita gente de fora — Kabukicho, em Shinjuku; Roppongi; Shinsaibashi, em Osaka —, bares e clubes oferecem promoção chamativa para estrangeiro. O inglês está “ok”, o drink parece barato, e a conta só explode quando você já está sentado. Esse puxador de rua se chama kyakuhiki [客引き]. Em vários distritos de diversão a prática é irregular por portaria local; o ponto prático é simples: quem precisa te caçar na calçada raramente tem preço honesto dentro do local.

Se recusar a cobrança indevida, a conversa pode virar intimidação, ameaça e, em casos relatados, violência. Parte desses estabelecimentos circula na zona cinzenta da vida noturna — inclusive no circuito associado à yakuza — mas o risco do turista não depende de saber quem é o dono. Depende de não entrar.

O convite na rua varia. Às vezes é um intermediário estrangeiro, padrão bem visível em Roppongi; às vezes é japonês insistente, “mamasan” ou “papasan”. O discurso é o mesmo: bebida, companhia, massagem, e em alguns casos até droga. Há também o convite “só para comer barato”. A regra que segura: não dê ouvidos a quem te aborda no meio da rua para te levar a um lugar que você não escolheu.

O bottakuri não precisa de chamariz. Restaurante de sushi que esconde o preço ou vive de “preço de mercado” sem deixar claro o valor também entra no mesmo saco.

Dá para considerar bottakuri, entre outras coisas:

  • bebida cara cobrada sem o cliente ter visto o valor;
  • taxa extra estranha depois do serviço;
  • pagamento adiantado e expulsão sem o que foi prometido;
  • máquina de pachinko ou aposta que “come” o dinheiro sem qualquer equilíbrio;
  • no uso irônico, pagar por uma companhia e receber outra bem diferente da combinada.
Mulher japonesa em ambiente de trabalho noturno, como cabaré ou clube de hostess

Você paga as bebidas das acompanhantes

Essa tradição não é um golpe feito sob medida para estrangeiro. Nos bares com acompanhantes, o japonês também paga a bebida da moça. O problema é que muita gente de fora não espera por isso — e o estabelecimento conta com essa surpresa.

Parte do esquema é fazer a acompanhante pedir o que há de mais caro no cardápio. Não são só estrangeiros: japoneses também se enrolam e, em casos extremos, quebram financeiramente nesse tipo de casa. Tudo tem preço: hora, menina, toque, extensão. Fique atento ao que está escrito — e ao que ninguém escreveu. O recorte completo está em acompanhantes no Japão.

A nuance que muita gente mistura: um hostess club caro, com taxa visível, não é o mesmo que bottakuri. No primeiro, você sabe que vai gastar. No segundo, o preço só aparece depois, inflado, com pressão para pagar.

Salão de hostess club no Japão, com mesas baixas e iluminação quente de bar

Como evitar o bottakuri

A primeira coisa, ao receber o convite, é ignorá-lo, agradecer e seguir. Se o chamariz tentar convencer ou até insultar, ignore e saia. Não discuta o preço na calçada: o jogo dele começa quando você para.

Antes de sentar, procure cardápio com preço à vista. Taxa de mesa (chāji / チャージ) e o otōshi [お通し] — aquele petisco que chega sem você pedir — são comuns em bar japonês quando o valor está escrito. O golpe mora no “depois a gente vê” e no cardápio que some quando você entra.

Prefira lugar no térreo, com gente visível e saída clara. Porão sem placa, “all you can drink” sem número, ou “English OK” gritado na porta de um beco são sinais ruins. Se já estiver dentro e a conta vier absurda, grave a conversa no celular: em muitos casos a polícia trata bottakuri sem ameaça como disputa civil, e sem prova a mediação emperra. O melhor, ainda assim, é não entrar.

Ilustração de abordagem agressiva de vendedor, no espírito do bottakuri

Bottakuri não é só bar e restaurante

Em todo país o nativo sabe o preço e o visitante, não. Você pode levar bottakuri em loja de varejo e em transporte pensado para turista, não só em bar.

Algumas lojas em ponto turístico não colocam preço para cobrar mais de quem não lê japonês. Em geral, bairros turísticos não são o melhor lugar para comprar souvenir. Em outros, o preço em japonês e o preço em inglês não batem — ou o restaurante entrega dois cardápios diferentes para enganar o estrangeiro.

Café de empregadas também cobra serviço, taxa e comida bem acima do izakaya da esquina, mas isso não é bottakuri: o preço costuma estar no quadro da porta. Elas chamam na rua, sim; a diferença é que você consegue ver o valor antes de entrar.

Nem tudo é bottakuri

Em certa situação em Ginza, uma senhora pedia dinheiro para ajudar no terremoto de Hokkaido. Infelizmente não tenho como comprovar se esse dinheiro iria para esse fim.

Ao conversar um pouco, ela me convidou para um bar com apresentação musical tradicional japonesa, taxa de 1500 ienes. Eu nem sequer lembrei dos golpes de bottakuri e aceitei.

Para minha sorte, era um barzinho amigável. A senhora ainda pagou um lanche, e os preços não foram exorbitantes. Foi arriscado: tenho certeza de que ela ganhou alguma coisa por me levar e pela taxa de 1500 ienes. Mesmo assim gostei da experiência — e ela serve de lembrete de que convite na rua não é, sozinho, prova de golpe. O que decide é preço à vista, recusa fácil e a sensação de que você pode sair quando quiser.

Izakaya Bottakuri

Existe um mangá e um dorama chamados Izakaya Bottakuri que contam a história de um pequeno bar no centro pouco movimentado de Tóquio. Lá as irmãs Mine e Kaoru servem comida farta e saquê.

As duas e os clientes regulares resolvem problemas miúdos e trocam conversa enquanto comem e bebem. Por que a série usa no título uma palavra que significa enrolar o cliente?

Apesar do nome, a casa não engana ninguém. O izakaya se chama Bottakuri justamente porque serve comida comum de casa japonesa — o “golpe”, no humor da obra, é cobrar por um prato que você poderia fazer na sua cozinha.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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