Panchira, pantsu e shimapan: significado e história da roupa íntima no Japão

Panchira, pantsu e shimapan: significado e história da roupa íntima no Japão

Do incêndio da Shirokiya ao shimapan do anime: cinco palavras que mostram como a calcinha mudou de status no Japão.

Você já ouviu a palavra pantsu em algum anime? Já esbarrou em panchira? Sabe o que significam shimapan, misepan e panmoro? Esses termos aparecem o tempo todo no mangá e no anime, e cada um tem uma história concreta por trás.

Panchira é a palavra japonesa para o vislumbre de uma calcinha. A peça, em japonês, é pantsu, termo que também serve para cueca. Shimapan, misepan e panmoro são mais específicos: descrevem um tipo de peça ou uma forma de mostrá-la.

O assunto se presta à piada, mas o que interessa aqui é o vocabulário e a história que ele carrega. Tem um incêndio em 1932, uma pesquisa de 1934, uma cena de Marilyn Monroe e gerações de desenhistas que transformaram a calcinha em recurso narrativo.

Sumário 5

O verdadeiro significado de pantsu

A primeira surpresa é que pantsu [パンツ] não nasceu no Japão. A palavra vem do inglês pants. No inglês americano, pants costuma se referir a calças; no japonês, pantsu designa qualquer peça da parte de baixo do corpo, incluindo a roupa íntima.

Para calcinha, o inglês usa panties, palavra parecida com pantsu. Cueca é underpants ou briefs. Em japonês, pantsu também pode nomear calças e outras peças, mas quando aparece sozinha costuma ser entendida como roupa íntima. Para calças, o idioma prefere zubon [ズボン].

Nas palavras compostas, pantsu mantém o sentido de peça: bokuseru pantsu [ボクサーパンツ] são cuecas boxer e hāfu pantsu [ハーフパンツ] são shorts. Dependendo do contexto, a palavra pode se referir a shorts, cuecas, calcinhas ou qualquer peça que fique na parte de baixo. Como o sentido é amplo, vale ler a frase inteira antes de traduzir.

Colagem com tipos de pantsu: bóxer, calcinha, cueca branca e modelos listrados

Calcinhas listradas são chamadas de shimapan [縞パン], e existem muitas outras palavras para especificar o tipo de peça. Pode parecer estranho, mas pantsu funciona como uma categoria geral da parte de baixo, sem marcar gênero. A mesma palavra serve para uma peça masculina e para uma feminina.

A história das calcinhas no Japão

Antes de voltar aos termos, vale olhar a história, porque pantsu e panchira só se entendem com ela. Tradicionalmente, as mulheres japonesas não usavam calcinha; usavam o kimono e, em alguns casos, um zurōsu [ズロース], uma peça parecida com um calção curto. A roupa íntima de estilo ocidental se popularizou depois da Segunda Guerra Mundial, com a influência americana e a difusão de revistas e filmes.

Personagens de anime em cenas que mostram calcinha e cueca

A mudança costuma ser associada a um incêndio, e a história mais famosa sobre ele é uma lenda urbana. Em 16 de dezembro de 1932, a loja de departamentos Shirokiya, em Tóquio, pegou fogo e deixou 14 mortos e 67 feridos. A história que circulou por décadas diz que algumas funcionárias se recusaram a pular para as redes de resgate porque não usavam calcinha e não queriam ser vistas por baixo.

A versão teve tanto eco que alguns a usam como marco da popularização da calcinha no Japão. O pesquisador Shōichi Inoue reviu o episódio e sustentou que a história das mulheres que preferiram morrer a perder o pudor foi inventada, e que a maioria das pessoas presas foi resgatada pelos bombeiros. A lenda continuou em livros de referência, inclusive em publicações do corpo de bombeiros.

Os dados também não sustentam uma transformação imediata. Em 1934, um jornal de Fukuoka fez uma pesquisa com mulheres da região e 90% delas ainda não usavam zurōsu, o calção de estilo ocidental, um ano e meio depois do incêndio. A peça se impôs mais tarde, quando o pós-guerra mudou a roupa, os materiais e os costumes.

Depois da guerra, a televisão e a publicidade mostraram a roupa íntima com menos pudor. Comerciais e programas de variedade usaram saias e pernas como chamariz visual, e esse ambiente ajudou a instalar panchira na fala cotidiana.

O que significa panchira?

Como disse no começo, panchira [パンチラ] se refere ao vislumbre da calcinha de uma mulher. As próprias japonesas usam a palavra para avisar quando a calcinha de uma amiga está aparecendo. Parece-se com o inglês upskirt, mas upskirt descreve o olhar por baixo da saia, com ou sem roupa íntima; panchira supõe que a peça está à vista. A palavra junta pan, de pantsu, e chira, de chirari, o som que em japonês descreve um olhar rápido.

Colagem com cenas de cinema, TV e anime que ilustram o panchira

O fenômeno se popularizou junto com a calcinha. Costuma-se apontar a cena de The Seven Year Itch (O Pecado Mora ao Lado), de 1955, em que o vestido de Marilyn Monroe se levanta sobre uma grade de ventilação. A partir dali, olhar por baixo das saias virou moda: segundo Inoue, as revistas da época traziam reportagens sobre os melhores lugares onde se vendiam calcinhas.

Outra palavra ligada a esse prazer é chirarizumu [チラリズム], que descreve o gosto de captar um vislumbre breve. O termo nasceu no início dos anos 1950, quando a atriz Mitsuyo Asaka mostrou a perna de relance em cena. Em 1969, um comercial da petroleira Maruzen Sekiyu com Rosa Ogawa e uma minissaia levantada pelo vento levou a imagem para a televisão e popularizou a frase "Oh! Mōretsu".

Muita gente explica o interesse pelo panchira pela censura do conteúdo adulto japonês, que cobre os genitais e deixa a calcinha como um dos poucos elementos visíveis. A isso se soma a presença constante dos uniformes escolares no mangá e no anime, onde a saia curta facilita o recurso.

Duas mulheres de uniforme escolar com a saia levantada pelo vento

Shimapan, misepan e panmoro

O termo shimapan [縞パン] é um dos mais reconhecíveis do anime. Significa literalmente calcinha listrada: o kanji 縞 (shima) quer dizer listras, e pan [パン] é a abreviação de pantsu [パンツ]. A versão clássica é branca com listras horizontais azul-claras, uma imagem associada a personagens jovens e ingênuos.

Outro termo próximo é misepan [見せパン], formado por mise, de miru (ver), e pan. Designa a roupa íntima feita para ser vista, com cobertura suficiente para não virar vexame se aparecer. Funciona como solução prática sob saias curtas e também como recurso de moda.

Panmoro [パンモロ] é usado para a visão completa da calcinha. Moro vem da expressão moro ni mieru, "ver por completo", e o termo se aplica quando a peça aparece inteira, não só um pedaço. Fica no extremo oposto do susto breve do panchira.

Por que estou falando de calcinha?

Eu comecei a escrever este artigo falando só de pantsu, mas resolvi incluir panchira porque as duas palavras viralizaram juntas entre os otakus. A aparição constante da calcinha no anime faz parte do mesmo fenômeno, que se intensificou perto dos anos 2000.

O interesse chegou a tal ponto que, no Japão, celulares e câmeras emitem som de obturador ao tirar foto, uma autorregulação do setor pensada para desencorajar registros clandestinos sob as saias. Meu iPad faz barulho mesmo no silencioso.

Quem aí assistiu Chobits e percebeu a Chi andando pela cidade gritando pantsu? Foi uma das cenas em que mais ouvi a palavra num anime. Foi ali que eu e muitos fãs percebemos que pantsu pode se referir tanto a calcinha como a cueca. A cena também rende um panchira.

Talvez você passe por algo parecido no Japão. Numa das minhas viagens, uma passageira sentou na minha frente no trem e, ao se acomodar, deixou a calcinha à mostra. São situações incômodas, e a palavra nomeia justamente esse instante.

Pantsu, panchira, shimapan e suas variantes contam a mesma história: a calcinha passou de raridade a item cotidiano, e o anime a transformou em vocabulário visual. Também são uma lição de tradução, porque pantsu nem sempre é calcinha e panchira descreve algo mais específico que upskirt. Na próxima vez que aparecerem num diálogo ou numa legenda, o contexto dirá o sentido exato.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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