Palavrões e gírias nos animes: kuso, baka e kisama

Palavrões e gírias nos animes: kuso, baka e kisama

O peso de cada xingamento muda com o tom, o pronome e a cena.

Assistindo animes, palavrão e insulto aparecem o tempo todo: na raiva, no constrangimento, no golpe que não acerta. A dublagem e a legenda às vezes empacotam tudo no mesmo tom, como se baka e kisama pesassem igual.

No japonês o peso muda com a palavra, o pronome e o jeito de gritar. Vale ouvir com contexto — e não copiar na conversa o que o vilão solta no terceiro round. Para o vocabulário ofensivo fora da tela, o recorte é outro: insultos e palavrões em japonês.

Sumário 14

Kuso - 糞 - Merda

Kuso significa porcaria ou merda. É um dos mais versáteis da língua e entra em várias situações. A palavra é informal; às vezes insulta alguém, às vezes só explode a frustração — quando você bate o dedo mindinho na quina do sofá ou derruba suco na camisa nova, por exemplo.

O ideograma [糞] aponta para fezes, excremento, esterco. Daí o salto para “droga”, “porcaria” e o xingamento solto. Há variações que mudam um pouco o tom, e é um dos gritos mais ouvidos nos animes.

Bota pisando em chiclete no asfalto

Uzai - ウザイ - Irritante

Uzai significa irritante, chato, insuportável. Eu vejo bastante esta palavra quando as personagens estão de saco cheio de alguém e fazem birra. É comum, mas não é o único jeito de usar.

Não é o mesmo que urusai. Uzai vem de uzattai, gíria que nasceu como dialeto da região de Tama, em Tóquio, no sentido de incômodo, desagradável. Urusai (うるさい) é outra palavra: barulhento, exigente e, no grito, o clássico “cala a boca” das séries. As duas se encostam no “que saco”, mas não compartilham a mesma raiz.

Damare (黙れ) — outra forma de mandar calar a boca, mais ordem do que adjetivo. Agressiva por natureza, embora o peso ainda dependa da cena.

Cena de anime com personagem usando máscara de cavalo em um quarto

Chikushou - 畜生 - Droga, animal

Chikushou, no dia a dia da tela, explode como interjeição: “droga!”, “porcaria!”. Quando aponta para alguém, pesa mais: pessoa desprezível, bruto, “animal”.

Os ideogramas [畜] (gado, animal doméstico) e [生] (vida) formam a ideia de uma vida de bicho — e, no vocabulário budista, o reino dos animais. O insulto é bestializar a pessoa, não um atalho para qualquer ofensa sexual que a tradução invente. Como xingamento dirigido, é pesado; como grito de raiva sozinho, anda perto do kuso.

Baka - バカ - Idiota, burro

Baka é uma palavra japonesa bastante comum. Se você usa contra alguém, está chamando de estúpido, tolo ou idiota. Creio que é a mais conhecida: ainda não assisti a um anime em que ela não apareça pelo menos cinco vezes.

Depois de tanto ouvir este insulto, eu até uso no cotidiano e só noto depois. É simples, rápido e utilitário — como não utilizar?

No registro em kanji, 馬鹿 junta cavalo (馬) e veado (鹿). Não é aula de zoológico: é o desenho da palavra que o fã encontra o tempo todo, da bronca leve até o desprezo.

Bakayarou — na superfície parece o mesmo baka, mas o recorte é outro. Bakayarou não é só “idiota”: é um idiota completo, um degrau acima. As coisas fáceis são as mais difíceis de explicar, e esta entra nessa conta.

Veado e cavalo lado a lado em um campo, os dois animais dos kanji de baka

Aho - 阿呆 - Idiota

O japonês tem muitas maneiras de chamar alguém de estúpido. Aho significa idiota, simplório, lerdo. Parece o baka, mas usa outros ideogramas. A diferença que mais importa na prática: aho costuma circular em Kansai (Osaka, Kyoto), enquanto baka pega o resto — inclusive Tóquio.

Não é das formas mais fofas de ser insultado. Ninguém gosta de ser chamado de burro; divergência acontece, e o tom da região muda o gosto da palavra.

Yatsu - 奴 - Cara

O idioma japonês esconde ofensa em coisa sutil. Yatsu significa “cara”, “aquele sujeito”, e também serve para coisa. O ar negativo entra no jeito de apontar: você não precisa xingar em alto-falante para colocar o outro um degrau abaixo.

Para explicar melhor, a analogia mais próxima no Brasil é “muleque”: no dicionário é menino; na boca, pode rebaixar. Por isso a tradução automática de yatsu dá merda — e o fã que só lê a legenda leva o tom embora errado.

Fuzakeru na - ふざけるな - Não brinque!

Fuzakeru significa brincar; a partícula na nega. Ou seja: não brinque comigo. Quando sai agressivo, alerta, intimida, ameaça.

Pode não ser um insulto explícito, mas a referência fica no tom. Como não classificar de agressiva uma frase que te empurra para trás?

A forma [巫山戯る] aponta para brincar no sentido de enganar, tirar sarro, rir de algo. Os ideogramas [巫] (feiticeiro), [山] (montanha) e [戯] (brincar, jogar) montam essa brincadeira que, no grito, já não tem graça nenhuma.

Figura encapuzada com mãos esqueléticas ao lado de um cavalo negro sob a lua

Shinee - 死ねえ - Morra!

Literalmente: morra. Não precisa de muita explicação. Eu costumo ver logo depois do clichê do protagonista esbarrar na calcinha das garotas ou entrar no quarto quando elas estão nuas. Mas não só nisso — em luta, o grito pesa de outro jeito.

A forma curta é 死ね (shine); 死ねえ estica o som, típico de fala exaltada. Mais pesado ainda é kutabare (くたばれ), no sentido de “cai morto” / “vai se ferrar”. Na ficção isso atravessa a tela com facilidade; na conversa real, é linha que quase ninguém cruza de brincadeira.

Debu - デブ - Gordo

Essa palavra significa gordo ou gordinho, e pode ser descrição ou insulto. Outras maneiras de falar de corpo grosso em japonês: futoi [太い]; marumaru [丸々], que dá ideia de círculo, rechonchudo; e chuubutori [中太り], acima do peso.

Encaixa perfeitamente no protagonista de Accel World, o debu mais conhecido dos animes — e o mais sortudo, porque conseguiu o que muita gente só sonhou. Fica a dica: vale a pena assistir, e ler a light novel também, já que a segunda temporada de TV não veio.

Colagem com fala 変態 em mangá, action figures e cena de maiô de anime

Hentai - 変態 - Pervertido

Clássico da tela: sexualmente pervertido, tarado. É comum — e a dica é não misturar com o gênero adulto que o ocidente batizou com a mesma palavra. O contexto da frase decide se é xingamento de cena ou rótulo de prateleira. Para aprofundar:

Nanda - なんだ - Que diabos?

Nanda não é palavrão. É “o quê?”, “que é isso?”. O que agride é o tom — e o resto da frase. Eu classificaria como pergunta agressiva quando sai no grito, e nos animes ela aparece mais do que as formas educadas.

Um exemplo: “Nanda yo omae-wa?” vira “quem diabos você pensa que é?” sem que nanda, sozinho, seja xingamento. Ela também se junta a outras peças para dar ênfase ou montar outra pergunta.

Três cenas de anime: guerreiro apontando, personagem surpreso com a legenda What? e uma explosão

Temee - てめえ - Você!

Outra palavra para tomar cuidado na tradução. Literalmente pode parecer só “você”; na prática, o tom já chegou no insulto. Não me ocorre uma analogia limpa em português que cubra o mesmo gosto.

A forma falada é てめえ. O registro em [手前] (mão + frente) aponta para quem está diante de mim. Uso sobretudo masculino, vulgar, de briga. Se a dublagem ameniza para “você”, o fã perde o recado.

Kisama - 貴様 - Você (hostil)

Kisama é o “você” que o anime de luta ama e a conversa real quase não toca. Os kanji juntam ideia de nobre e de presença; em algum momento a forma foi respeitosa. Hoje, na tela, é hostil: o rival, o traidor, o inimigo no meio da porrada.

Não é sinônimo automático de “desgraçado”, mas a tradução empurra para esse lado porque o tom já chegou lá. Fora da ficção, soltar kisama para um desconhecido é pedir briga — ou um silêncio bem constrangido. Temee e kisama andam no mesmo corredor; omae (お前) é mais comum e, dependendo da relação, pode ser só informal.

FormaO que costuma fazer na fala
omae (お前)Informal ou rude; nem sempre é xingamento
temee (てめえ)Vulgar, de briga, sobretudo masculino
kisama (貴様)Hostil; quase só ficção de confronto

Outras gírias e palavrões nos animes?

Não cabe tudo numa lista. Existem vários outros insultos e palavras agressivas além destas. Tentei ficar nos mais ouvidos — a seleção veio da memória de quem passa tempo demais com anime no ouvido.

O tema tem suas arestas, mas nem tudo na vida são flores: toda língua tem palavra ruim, como um jardim tem erva daninha. Se tiver sugestão, dúvida ou crítica, deixa o comentário. Obrigado por ler até aqui. Te vejo no próximo.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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