Dar e receber: Ageru, Kureru e Morau

Dar e receber: Ageru, Kureru e Morau

Direção da ação, ponto de vista do falante e o padrão ~te que separa os três verbos de dar e receber.

No japonês, “dar” e “receber” não cabem em um único verbo. A escolha entre あげる (ageru), くれる (kureru) e もらう (morau) depende da direção da ação e de quem está no centro da frase — e é aí que o português engole a diferença.

Se você já travou entre “eu dou” e “alguém me dá”, o problema raramente é só vocabulário: é ângulo. A direção da “transação” muda o verbo, as partículas e até o tom de gratidão embutido na fala.

Sumário 5

Ageru e Kureru: duas formas de “dar”

A maneira mais comum de dizer “dar” é あげる (ageru) e くれる (kureru). Ambos podem ser traduzidos como “dar”, mas a escolha depende de quem fica “perto” do falante na situação.

  • あげる — usado quando a doação se afasta do círculo do falante: eu dou a você, eu dou a outra pessoa, você dá a um terceiro, ou alguém dá a alguém de fora do meu grupo.
  • くれる — usado quando a doação “entra” em direção ao falante ou a alguém que ele considera próximo: alguém me dá, você me dá, ou alguém dá a alguém do meu círculo.

O doador é o sujeito da frase e vem com a partícula は ou が. O destinatário é marcado por .

  • (Doador) は/が (destinatário) (objeto) ageru/kureru

Frases de exemplo:

ねえ、朝ご飯作ってくれる?
Nee, asagohan tsukutte kureru?

Ei, você pode fazer o café da manhã?

昨日作ってあげたから今日は君の番だよ!
Kinou tsukutte ageta kara kyou wa kimi no ban dayo!

Eu já fiz ontem, então hoje é a sua vez!

Como qualquer verbo, os três conjugam conforme tempo e formalidade. A forma formal de あげる é 差し上げる (sashiageru); a de くれる é 下さる (kudasaru) — ligada também a kudasai em pedidos educados.

Direção da doação: uchi e soto

O que confunde falantes de português é o par uchi (内, “dentro”) e soto (外, “fora”). Não é mapa geográfico: é o círculo social relativo — família, time, ou quem você trata como “do seu lado” versus quem fica de fora naquele momento.

  • Ageru tende a descrever o fluxo de uchi para soto (a doação “sai”).
  • Kureru descreve o fluxo de soto para uchi (a doação “entra” no lado do falante).

Por isso “um amigo deu um presente ao meu irmão” costuma usar くれる: o irmão entra no seu uchi, então a ação “entra no círculo”. Já “meu irmão deu um presente ao amigo” tende a usar あげる: a doação sai do uchi. A fronteira muda conforme a situação; o que importa é de onde você olha a conversa.

Resumo prático: não decore só “ageru = eu dou” e “kureru = alguém me dá”. Pergunte: o objeto ou o favor se afasta do meu círculo, ou se aproxima dele?

Morau: receber pelo ponto de vista do receptor

もらう (morau) entra quando você (ou alguém do uchi) recebe algo de alguém — o foco está no receptor, não no doador como sujeito “que teve a gentileza de dar”.

Compare no português os dois ângulos da mesma cena:

  • Lucas me deu um livro;
  • Eu recebi um livro do Lucas.

Com ageru/kureru, a estrutura é “o doador dá ao receptor”. Com morau, a ideia se inverte: “o receptor recebe do doador”.

  • (Receptor) は/が (doador)
  • (Receptor) は/が (doador) から (kara) + (objeto) morau

e から marcam a origem. Nuance aproximada: soa mais direto (contato com a pessoa); から marca a “fonte” — costuma soar mais natural com instituição, loja ou organização.

Frases de exemplo:

私はケビンにお菓子をもらった。
Watashi wa Kevin ni okashi o moratta.

Eu recebi doces do Kevin.

この花は誰からもらったの?
Kono hana wa dare kara moratta no?

De quem você recebeu essas flores?

No primeiro exemplo de くれる, o verbo também pode aparecer quando se pede algo (“pode fazer…?”). Já もらう costuma afirmar que a recepção aconteceu ou que você aceitou a ação. A forma formal/humilde de もらう é 頂く / いただく (itadaku) — a mesma raiz de itadakimasu.

~てあげる, ~てくれる e ~てもらう

Além de objetos, os três verbos se colam à forma-te de outro verbo para dizer que alguém realiza uma ação como favor ou ajuda.

  • ~てくれる — alguém faz algo por você (ou pelo uchi); o acento cai na gentileza de quem ajuda.
  • ~てあげる — você (ou o uchi) faz algo por outra pessoa; cuidado: na frente do beneficiário pode soar presunçoso, como “estou te fazendo um favor”.
  • ~てもらう — você recebe a ajuda pelo ângulo do receptor; costuma soar “pedi / aceitei o favor de alguém”.

Frases de exemplo:

鈴木さんがおごってくれた。
Suzuki-san ga ogotte kureta.

O Suzuki me pagou (me convidou / me tratou).

鈴木さんにおごってもらった。
Suzuki-san ni ogotte moratta.

Eu fui tratado pelo Suzuki. (foco: eu que recebi o favor)

ケビンにおごってあげた。
Kevin ni ogotte ageta.

Eu paguei pelo Kevin.

As três frases podem descrever cenas relacionadas, mas a “câmera” muda: quem fica “gentil”, quem “recebe o favor” e de que lado o falante se coloca.

Como treinar sem travar

Na dúvida, faça três perguntas rápidas:

  1. O que se move é um objeto ou uma ação (forma-te)?
  2. Quem é o sujeito que “dá de forma ativa”, e o receptor está no uchi ou no soto?
  3. Você quer destacar o doador (ageru/kureru) ou o receptor (morau)?

Treine com diálogos curtos do dia a dia: emprestar caderno, pagar um café, corrigir um kanji, ou pedir para um amigo explicar verbos compostos. Quanto mais você “mapear” a direção das pessoas, mais natural fica a escolha do verbo — sem precisar decorar tabela rígida a cada frase.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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