Como é a xenofobia, racismo e preconceito no Japão?

Atrás da superfície educada: o quanto o Japão é realmente aberto?

Preconceito, xenofobia e racismo existem em qualquer lugar do mundo. Não importa a nacionalidade, a religião, a cor, a cultura, as tradições nem o estilo de vida: em algum momento, as pessoas vão se deparar com situações frustrantes. Como elas se manifestam no Japão?

O tema é delicado, porque os japoneses têm fama de educados, hospitaleiros e tradicionais. Neste artigo, eu quero abordar vários pontos sobre preconceito e racismo no Japão, sem cair em generalizações, mas também sem fingir que os problemas não existem.

Se você preferir ver em vez de ler, gravamos um vídeo sobre racismo e preconceito no Japão. Aproveite para seguir o canal:

Xenofobia, racismo e preconceito no Japão – vídeo explicativo do Suki Desu
Sumário 8

O que é xenofobia, racismo e preconceito?

Antes de entrar no tema, vale explicar o significado e a diferença entre xenofobia, racismo e preconceito. As três palavras se misturam na conversa do dia a dia; a diferença é sutil, mas merece ser entendida:

  • Preconceito é um sentimento hostil que nasce de uma generalização apressada de uma experiência pessoal, ou que o ambiente em volta impõe. É, em essência, intolerância: uma visão crítica ou discriminatória em relação a pessoas, culturas, lugares ou tradições.
  • Racismo é uma crença construída em cima de uma hierarquia de raças e etnias, na qual determinados grupos se veem como superiores ou mais puros.
  • Xenofobia é a desconfiança, o medo ou a antipatia por tudo o que é estranho ou vem de fora do país.

Infelizmente, muita gente confunde um comportamento cultural dos japoneses com preconceito, e acaba generalizando casos isolados para dizer que os japoneses são preconceituosos.

Os japoneses acabaram ganhando essa fama, mas eles próprios são, em boa parte, vítimas de preconceito e piadinhas aqui no Brasil. Preconceito existe em qualquer lugar. Dizer que um povo inteiro é preconceituoso é, no fundo, assumir a mesma postura que se condena.

Casal formado por um japonês e uma ocidental em um casamento no Japão, ilustrando o tema do matrimônio interracial
Casais interraciais aparecem com frequência no Japão, mas ainda estão longe de ser um cenário natural e sem olhares.

Os japoneses são preconceituosos?

Existem japoneses preconceituosos, do mesmo jeito que existem brasileiros preconceituosos. Mesmo que você cruze com uma pessoa preconceituosa ou racista, vai acabar virando uma atração só por ser diferente.

Quem realmente conhece o Japão sabe que o país é famoso pela hospitalidade, pela educação e pelo respeito com o próximo. Ser estrangeiro no Japão pode ser uma experiência bastante positiva.

O detalhe é que os japoneses, em geral, são tímidos. Muitos vão te encarar por um tempo, e talvez você precise tomar a iniciativa para puxar conversa, principalmente se souber um pouco de japonês. Quando isso acontece, dá para descobrir como eles podem ser grandes amigos.

O Japão é um país obcecado por novidades e pelo diferente, mas, ao mesmo tempo, uma boa parte dos japoneses é tradicional e gosta do padrão. Quando algo foge do que esperam, algumas pessoas evitam ou até excluem.

Isso não significa que eles não gostam de estrangeiros. Esse tipo de preconceito acontece também dentro da própria sociedade japonesa. Japoneses conservadores demais e de mentalidade fechada tratam de forma diferente pessoas que não fizeram faculdade, desempregados, otakus assumidos, pessoas com tatuagens, entre outros.

Isso aparece de forma clara no ijime (いじめ, bullying) que existe nas escolas japonesas. Às vezes, uma única escolha malfeita pode acompanhar alguém pelo resto da vida profissional. Algumas empresas e algumas pessoas levam muito a sério o passado e o estilo de vida alheios.

Por outro lado, a maioria dos japoneses não está nem aí para isso, e é justamente por isso que o Japão é um país cheio de esquisitices e coisas estranhas: a maior parte não se importa com seu estilo de vida, não se mete na vida dos outros e também não gosta que se metam na dela.

Cena de pátio escolar no Japão, usada para ilustrar o ijime entre estudantes
O ijime faz parte da rotina de muitas crianças japonesas, mas raramente é discutido em público.

Confusões sobre preconceito no Japão

A maioria desses casos, no fundo, não passa de inveja. Até garotas com seios maiores ouvem comentários maldosos de outras que são mais magras. Não existe um padrão único pelo qual a sociedade vá te aceitar.

O melhor a fazer é ignorar esse tipo de pessoa. Se os próprios japoneses passam por situações assim, é natural esperar que aconteça com a gente também. Vale lembrar que, às vezes, o que parece uma ofensa nem sempre é intencional.

Da mesma forma que fazemos piadas sem graça com outros brasileiros e ninguém leva a sério, um japonês pode levar aquela mesma piada a sério e ficar magoado. O contrário também acontece: dá para ouvir alguma coisa ou ser tratado de um jeito que magoa, mesmo sem essa ser a intenção.

Cena cotidiana no Japão, mostrando o encontro entre japoneses e estrangeiros no dia a dia
O encontro cotidiano entre locais e estrangeiros já faz parte da rotina em muitas cidades japonesas.

Outra coisa que faz as pessoas acharem que os japoneses são racistas é o fato de o Japão ser bastante rígido na entrada de estrangeiros para morar. O Japão rejeitou pedidos de refúgio por anos. Há um desconforto histórico em relação ao que vem de fora, alimentado por episódios da própria história do país.

Em trens, alguns japoneses evitam sentar perto de estrangeiros. Às vezes é por receio de não conseguir se comunicar. Em outros casos, os japoneses conversam entre si e você acaba ouvindo a palavra gaijin (外人, “estrangeiro”) no meio da conversa.

Pessoalmente, acho natural. Quando vejo um estrangeiro onde eu estiver, penso “aquela pessoa é estrangeira”, sem medo nem vergonha. No Japão isso é mais raro, mas dá para encontrar pessoas que têm aversão a ocidentais por motivos que vão além do cultural: feridas históricas, a memória da guerra e das bombas atômicas, entre outras coisas.

Ao mesmo tempo, o Japão também absorveu muitas influências ocidentais. O país ainda está no meio de um longo processo de ocidentalização. Um detalhe que chama atenção é que estrangeiros sem ascendência japonesa costumam enfrentar menos preconceito do que descendentes, um ponto que aparece com frequência nas discussões sobre a identidade hafu (ハーフ, “meio”, como são chamados os japoneses de origem mista).

Ultrapassando os limites do preconceito

Outro ponto que costuma aparecer nas conversas sobre xenofobia é o fato de alguns lugares no Japão separarem ou proibirem a entrada de estrangeiros, e de alguns estrangeiros não conseguirem acesso a certos serviços e atividades.

Exclusividade existe em qualquer país; o melhor caminho é dar a volta por cima. Muitos brasileiros fizeram exatamente isso e engrenaram no Japão. Uma boa parte largou o trabalho em fábrica e abriu o próprio negócio.

Outros tantos aprendem a cultura e o idioma e conquistam um emprego e um estilo de vida que muitos japoneses nem conseguiram. Ricardo Cruz é um exemplo: ele se tornou cantor de uma banda japonesa, mostrando que não existe teto de vidro quando se vai atrás.

Por isso, persiga seus sonhos e vá em busca do que quer. Não fique preso ao preconceito de uma minoria invejosa. Geralmente, quem mais reclama dos japoneses não é exatamente referência de comportamento.

Casal formado por um japonês e uma estrangeira em uma cerimônia de kekkon, o casamento civil no Japão
A cerimônia de kekkon (けっこん) impõe obstáculos próprios para casais interraciais no Japão.

Brasileiros e o preconceito contra asiáticos

Os brasileiros costumam reclamar de preconceito, às vezes de forma exagerada. Há quem diga, inclusive, que sofre mais preconceito de outros brasileiros que moram no Japão do que dos próprios japoneses.

Infelizmente, isso é compreensível: quando um brasileiro comete um delito ou um crime, o caso aparece na TV e mancha o nome de todos.

Isso acabou gerando uma fama ruim para a comunidade brasileira. Em algumas lojas, o atendente japonês já fica em alerta quando vê um estrangeiro entrar, principalmente brasileiro, por causa de furtos cometidos por uma minoria.

É compreensível que parte dos japoneses sinta desconfiança, medo ou antipatia por estrangeiros que não compartilham os mesmos valores de educação e moral.

Antes de brasileiros falarem em preconceito ou xenofobia, faz sentido pensar se eles não tratam de forma diferente os asiáticos que vivem no Brasil. O vídeo abaixo ilustra bem esse ponto. Boa parte das vezes não é intencional, mas acontece.

Um vídeo sobre o preconceito que asiáticos enfrentam no Brasil.

O Brasil tem mais de 500 anos de história, é multicultural e reúne gente dos mais variados tipos, e mesmo assim não conseguiu resolver seus próprios problemas de preconceito religioso, racial ou social. Por que, então, cobrar de um país que se abriu ao mundo há menos de 200 anos e passou por enormes dificuldades?

Negros no Japão sofrem racismo?

Em geral, a cor da pele não muda o tratamento hospitaleiro e educado que os japoneses costumam ter com o próximo. Muitos já afirmaram que o Japão acolhe bem pessoas negras, que nunca foram tão bem tratados e que nunca tiveram problemas de discriminação por lá.

Paulo, um brasileiro, contou que ao caminhar pelas ruas do Japão as pessoas olhavam para ele não com desprezo, mas com admiração: sorriam e cumprimentavam. Paulo chegou a dizer que o Brasil ainda tem muito a aprender e a crescer nesse ponto.

Outro exemplo é o brasileiro Roberto Casa Nova. Em 2010, ele foi eleito o melhor cantor de karaokê de todo o Japão, entre cerca de 85.000 candidatos.

Alguns negros que moram no Japão já disseram que têm medo de voltar ao país de origem por causa do racismo e que se sentem mais confortáveis e seguros no Japão.

Existe um caso que costuma ser lembrado para falar de racismo contra negros no Japão. Há alguns anos, circulou a imagem de um pudim de chocolate que, segundo a história, se chamaria “Nigga”, uma gíria ofensiva em inglês. Tudo não passava de uma montagem: o nome verdadeiro do produto era giga. Se até esse caso foi inventado, dá para imaginar quantos outros “escândalos” foram fabricados e espalhados por aí.

Retrato de uma jovem japonesa, usado para representar identidade e diversidade no Japão
Identidade no Japão – a imagem representa a diversidade que vai além dos estereótipos mais comuns.

O Japão é mais preconceituoso que outros países?

O Japão está longe de ser o país mais preconceituoso e racista do mundo. Países como Estados Unidos, Reino Unido, Rússia e Austrália, entre outros, costumam aparecer no topo de levantamentos internacionais sobre o tema.

Pessoas ruins existem em qualquer lugar. Definir uma nação inteira como racista e preconceituosa é, sinceramente, uma bobagem. Trata-se apenas de uma generalização: um grupo pequeno age mal, e o restante paga o pato.

Veja o caso da fama de alta taxa de suicídio no Japão. Por causa disso, parte dos brasileiros tende a afirmar que os japoneses são infelizes. Isso é justo quando cerca de 16 pessoas a cada 100.000 habitantes tiram a própria vida? E as outras 99.984?

Eu passei a vida inteira no Brasil lidando com preconceito e sendo tratado de forma diferente por causa do meu estilo de vida, aparência, religião e gostos. O pior é que também sou tratado de forma diferente por não gostar ou não fazer coisas que considero erradas.

Sinceramente, sempre que vejo um brasileiro dizer que japonês é xenofóbico, preconceituoso ou racista, essa pessoa está falando de si mesma. Rotular uma nação inteira de pessoas únicas é, em si, o que racismo, preconceito e xenofobia parecem.

Preconceito, racismo e xenofobia na mídia japonesa: anime e dorama

Preconceito, racismo e xenofobia aparecem na mídia japonesa de forma direta e indireta. Filmes, doramas e, principalmente, animes e mangás abordam o tema. Na maior parte das vezes, ele é tratado de modo metafórico, com robôs ou raças alienígenas no lugar de estrangeiros, porque falar dele de frente ainda é delicado.

Muitos animes também tratam o tema de forma direta por meio do bullying nas escolas. Veja uma lista de obras que discutem preconceito, xenofobia e racismo:

  • Aldnoah.Zero – mostra o ódio e a divisão entre humanos e os “Vers” (alienígenas com aparência humana).
  • Ghost in the Shell – aborda uma crise de refugiados no Japão.
  • Code Geass – mostra o preconceito e o racismo que os próprios japoneses enfrentam.
  • Nagi no Asukara – trata o tema do racismo de forma sensível.
  • Yamada Taro Monogatari – dorama que discute a diferença de classe social.

A lista é bem maior. Vale lembrar que animes e doramas também mostram que o preconceito pode ser quebrado, ao apresentar personagens com personalidades incomuns, homens com trejeitos mais delicados, mulheres fortes e tantos outros perfis.

Estrangeiros também aparecem nessas obras, ainda que às vezes com sotaque caricato. Os animes mostram uma espécie de neutralidade por meio da enorme variedade de cores de cabelo, tons de pele, estilos de roupa e tipos físicos. Muitos animes e filmes também retratam histórias que se passam fora do Japão e trazem elementos culturais de outros países.

Se você quiser se aprofundar, vale a leitura do nosso artigo sobre o preconceito contra animes e mangás e também do texto sobre o lado negro do Japão.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

Comunidade

Comentários

2 comentários

  1. Alice Shintani

    Oi amigo, eu não sei em qual comunidade Nikkei você foi criado aqui no Brasil, mas posso te afirmar que cresci em um ambiente extremamente racista em que nihondin se considerava uma raça superior a “gaijins” (brancos) e “kurombos” (negros). E não era só família, era no kaikan, no undokan, etc. Lembro que ouvia barbaridades naquelas rodas de anciões jogando shogui ou bebendo à mesa. Existem documentos históricos comprovando que o Japão sempre teve essa postura de “filhos do sol” e que se consideravam “os brancos do oriente” para subjugar os outros povos da região, sobretudo chineses e coreanos. Escrevo aqui de Kyoto e acabei de visitar um mausoléu, onde mais de 30 mil narizes (sim, narizes) foram arrancados de chineses coreanos e trazidos ao Japão como prova do exército de ter realmente eliminado essas pessoas em batalha. É uma coisa complicada e grave afirmar que o Japão não foi e não é racista. A história e os estudos estão aí.

    Responder

    Responder a Alice Shintani

    Verificação anti-spam

    Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.

    1. skdesu.com

      Sim, antes da Segunda Guerra o Japão era ainda mais Homogêneo e Nacionalista, e cometeu atrocidades nas Guerras, mas isso não era exclusivo contra estrangeiros, o Japão passou milênios em Guerras Civis, o fato é que o ser humano em Geral é altamente influenciável, e não é difícil colocar um contra o outro, por isso Hitler conseguiu dominar a Alemanha e chegar aonde chegou, por isso estamos vivendo um momento muito polarizado no Brasil, colocando uns contra os outros. Isso sem mencionar que os japoneses sofreram muito no Brasil por causa dessa Guerra, eu vejo os descendentes de japoneses do Brasil muito mais ranzinzas que os japoneses nativos que não foram influenciados de alguma forma pela Guerra. O fato do Japão ser Homogêneo ainda ocasiona muitos problemas, mas eu posso afirmar que o preconceito e xenofobia não pode ser atrelado a uma nação, seria injusto com eles ao todo, eu mesmo por experiência sinto o preconceito muito maior no Brasil do que no Japão, mesmo eu não tendo nenhuma descendência japonesa. As pessoas tendem a pre-jugar o desconhecido, e eu observo isso em todos os aspectos da vida.

      Responder

      Responder a skdesu.com

      Verificação anti-spam

      Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.

Enviar um comentário

Comente este artigo

Verificação anti-spam

Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.