Quando os primeiros portugueses chegaram ao Japão, no século XVI, o mapa de poder lhes pareceu tão invertido que compararam o imperador ao papa e o xogum ao rei de verdade. Um ocupava o trono; o outro mandava no país.
Esse governo militar durou cerca de sete séculos. Em japonês chama-se bakufu (幕府), literalmente “governo da tenda”: o quartel de um general que, com o tempo, virou Estado. O detalhe que ainda confunde — e que segura toda a história — é este: o título vinha do imperador, mas a decisão vinha do xogum.

Sumário 6
O que foi o xogunato
Xogunato é o nome em português para o bakufu. A palavra remete à tenda (maku) de onde o comandante dirigia a campanha. O chefe desse governo levava o título de xogum (shōgun), abreviação de seii taishōgun (征夷大将軍), “grande general apaziguador dos bárbaros”.
Até 1192, o cargo era temporário: o imperador nomeava um general para campanhas contra os emishi no norte e, acabada a guerra, o título se dissolvia. A partir de Minamoto no Yoritomo, o mesmo nome passou a designar o governante militar de facto do Japão — e o bakufu, o aparelho que o sustentava.
Não houve um xogunato só. Houve três, com capitais e clãs diferentes:
| Xogunato | Capital | Fundador | Período |
|---|---|---|---|
| Kamakura | Kamakura | Minamoto no Yoritomo | 1192–1333 |
| Ashikaga (Muromachi) | Quioto | Ashikaga Takauji | 1336–1573 |
| Tokugawa (Edo) | Edo | Tokugawa Ieyasu | 1603–1868 |
Entre o segundo e o terceiro, Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi reunificaram o país sem fundar um bakufu. Hideyoshi governou como kanpaku (regente imperial), nunca como xogum: o título militar tradicional ficava associado a linhagens guerreiras de origem Minamoto, e Hideyoshi vinha de origem humilde.
Xogum e imperador
Antes da Restauração Meiji, o Japão era um governo militar feudal dirigido pelo xogum, que controlava o país e atuava como governador de facto, enquanto o imperador permanecia o governante de jure. O trono legitimava; o bakufu decidia.
O xogum devia obediência formal ao imperador. Os vassalos, porém, deviam obediência ao xogum. Foi esse duplo palco — corte em Quioto, quartel em Kamakura, Muromachi ou Edo — que manteve o arranjo de pé por quase sete séculos, mesmo quando o xogum da vez era figura de papel e quem mandava era um regente ou um daimiô.
Xogunato Kamakura
O primeiro bakufu não nasceu de um “clã Kamakura”. Nasceu de Minamoto no Yoritomo (1147–1199), vencedor da Guerra Genpei, que instalou o governo militar em Kamakura, longe da aristocracia de Quioto. O poder das armas já estava com ele desde 1185; o título de seii taishōgun veio em 1192.
Yoritomo não era “xogum regente”. Os regentes (shikken) foram os Hōjō, a partir de 1203, depois da morte dele: o xogum continuava no papel, mas quem mandava no bakufu era o shikken. Os samurais, que antes ocupavam posição baixa na hierarquia da corte, subiram e passaram a servir esse governo militar — o período Kamakura é, em boa parte, essa inversão.
O xogunato Kamakura caiu em 1333. O Imperador Go-Daigo (1288–1339) conseguiu, por um intervalo curto, restaurar o governo imperial: a Restauração Kemmu (1333–1336). Não foi só um golpe frustrado. Deu certo o bastante para acabar com Kamakura e falhou o bastante para Ashikaga Takauji fundar o segundo bakufu.

Xogunato Ashikaga
O Xogunato Ashikaga, também chamado Muromachi, foi fundado em 1336 por Ashikaga Takauji, que afastou Go-Daigo e instalou o bakufu no bairro de Muromachi, em Quioto. Os primeiros decênios foram a era das duas cortes, Nanboku-chō (1336–1392): uma no norte, apoiada pelos Ashikaga, outra no sul, fiel a Go-Daigo.
Não foi “quase um século de guerra civil” desde o primeiro dia. O bakufu Ashikaga até teve fases de prestígio — sobretudo com Ashikaga Yoshimitsu. O tombo longo veio depois: a Guerra de Ōnin (1467–1477) destruiu boa parte de Quioto e abriu o período Sengoku, a era dos Estados em guerra, que se estende até o século XVI.
Mesmo com o caos, o período Ashikaga deixou uma marca cultural difícil de apagar: a cerimônia do chá, o ikebana, o teatro Noh e a arquitetura do Kinkaku-ji (Pavilhão Dourado) em Quioto. Com o tempo o xogunato perdeu força nas mãos dos daimiôs e foi derrubado em 1573 por Oda Nobunaga.
Xogunato Tokugawa
O Xogunato Tokugawa, ou Xogunato Edo, nasceu em 1603, quando Tokugawa Ieyasu foi nomeado xogum depois da vitória em Sekigahara (1600). Foi o mais longo e o mais estável dos três: quase 265 anos. A capital do bakufu passou a ser Edo, a atual Tóquio — o recorte que o site desenvolve no artigo sobre o período Edo.
O regime Tokugawa fechou uma hierarquia social estrita, com os samurais no topo, seguidos por camponeses, artesãos e comerciantes — o shinōkōshō. O país ficou praticamente isolado do mundo exterior pela política do sakoku, o que sustentou uma paz relativa e um florescimento cultural próprio, sobretudo no ukiyo-e, no teatro Kabuki e na literatura urbana.

No fim da era Tokugawa, o bakufu enfrentou pressões que não cabiam mais no isolamento: potências como os Estados Unidos exigiam a abertura dos portos, e as tensões internas empurraram o país para o Bakumatsu (幕末), os anos finais do bakufu. A derrota na Guerra Boshin (1868–1869) abriu caminho para a Restauração Meiji e para o retorno do poder ao trono — o mesmo recorte que o artigo sobre o governo militar dos samurais acompanha no detalhe da queda.
O fim do xogunato
O ciclo não se encerrou só no campo de batalha de 1868. Em 1867, Tokugawa Yoshinobu devolveu a autoridade ao imperador na Taisei Hōkan (大政奉還), a restituição do governo. A Restauração Meiji consolidou o gesto e encerrou mais de 670 anos de bakufu.
A classe samurai perdeu os privilégios de estamento. O direito de portar espada foi abolido em 1876 pelo Haitōrei (廃刀令). Isso não significa que os samurais tenham sido perseguidos até a extinção: muitos viraram oficiais, burocratas, professores ou empresários no Japão que se industrializava. O que acabou foi o monopólio militar da espada, não o povo que a carregava.

A era do xogunato não foi só um período sombrio marcado por guerras. Ao longo desses sete séculos o Japão produziu algumas de suas maiores conquistas culturais: do código de honra do samurai ao budismo Zen, dos grandes castelos de Honshu às xilogravuras de Hokusai. O bakufu caiu. O que ele moldou — a cidade que foi Edo, a espada que virou símbolo, a corte que nunca deixou de existir — continua no Japão que veio depois.
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