No papel, a Unidade 731 (731部隊, Nana-san-ichi Butai) era um departamento de saúde do Exército de Kwantung: prevenção de epidemias e purificação de água. O endereço já denunciava outra coisa. O complexo ficava em Pingfang, no estado-fantoche de Manchukuo — hoje Harbin, no nordeste da China —, longe o bastante de Tóquio para o laboratório funcionar como se fosse um mundo à parte.
Quem tocava o projeto era o cirurgião-general Shirō Ishii (石井四郎). A fachada sanitária durou até 1945. Por baixo dela, prisioneiros deixaram de ter nome: a equipe chamava as vítimas de maruta (丸太), “toras”. Como se o pátio fosse uma serraria, e não um centro de guerra biológica.

Sumário 4
O que era a Unidade 731
O nome oficial — Departamento de Prevenção Epidêmica e Purificação de Água do Exército de Kwantung (関東軍防疫給水部本部, Kantōgun Bōeki Kyūsuibu Honbu) — servia para despistar. A instalação de Pingfang foi erguida na segunda metade dos anos 1930 e passou a ser chamada Unidade 731 por volta de 1941. Não era um posto isolado: fazia parte de uma rede com filiais na China ocupada e, mais tarde, no Sudeste Asiático.
A maioria das vítimas era chinesa: civis, prisioneiros e guerrilheiros antijaponeses. Havia também russos, mongóis, coreanos e um número menor de prisioneiros aliados. A polícia militar Kempeitai alimentava o fluxo com o que internamente se chamava transferência especial (特別移送): gente retirada do sistema comum e entregue ao complexo sem registro que a protegesse.
Para o período de 1940 a 1945, sem contar as filiais, os materiais dos julgamentos posteriores falam em mais de três mil pessoas mortas no próprio pátio. Sobrevivente documentado do complexo, até hoje, não há. O número sobe — e diverge entre historiadores — quando se inclui a peste, o cólera e o tifo espalhados em cidades chinesas.
Dentro da Unidade 731
Entre as atividades monstruosas praticadas pela Unidade 731, estavam:
- Infecção deliberada de prisioneiros com doenças venéreas para estudar os efeitos no corpo humano;
- Vivissecção de prisioneiros sem anestesia para observar o impacto das doenças nos órgãos;
- Estupros praticados pelos próprios guardas da unidade;
- Exposição a temperaturas congelantes para estudar os efeitos do frio extremo;
- Testes com granadas, lança-chamas e armas biológicas usando prisioneiros como alvos humanos;
- Privação total de água e comida para medir quanto tempo as vítimas levavam até morrer.
A lista não é catálogo de curiosidade. Cada item tinha função militar: tratar congelamento de soldados no inverno da Manchúria, medir o raio letal de uma granada, ver o avanço da peste no órgão ainda quente. A vivissecção sem anestesia, segundo relatos de ex-integrantes, era o jeito de “não estragar” o tecido com a decomposição. O eufemismo maruta fazia o resto: se a pessoa é tora, não há crime, há extração de dados.
Guerra biológica nas cidades chinesas
O laboratório não ficou em Pingfang. A partir de 1940, a Unidade 731 e unidades irmãs testaram no campo o que tinham cultivado: pulgas infectadas com peste bubônica lançadas sobre Ningbo e Changde; água e alimentos contaminados com tifo e paratifo; bombas de cerâmica pensadas para espalhar patógenos. Dezenas de milhares de civis chineses morreram nesses ataques; algumas contas chegam a 200 mil ou 300 mil quando se soma o efeito epidêmico. O intervalo é largo porque o Japão queimou arquivos em 1945 e porque, por décadas, o Ocidente tratou o tema como propaganda.
A ilha de Ōkunoshima, hoje famosa pelos coelhos, guarda outra ponta da mesma política de armas: ali o Exército produziu gás venenoso. Não é a Unidade 731, mas é o mesmo Império tratando química e biologia como ferramenta de ocupação. O mapa mais amplo dos crimes de guerra japoneses ajuda a encaixar Pingfang nesse tabuleiro, e não como um “laboratório maluco” solto na história.
Unidade 731 depois da guerra
Com a rendição, o complexo foi demolido e as provas, incineradas. Ishii e a maior parte da cúpula não sentaram no Tribunal de Tóquio. Os Estados Unidos concederam imunidade secreta em troca dos dados de experimentação humana. Em dezembro de 1949, a União Soviética julgou doze integrantes em Khabarovsk. Houve condenações a penas de prisão; não houve o equivalente a Nuremberg para o programa biológico japonês.
Há quem date o “aparecimento” público da Unidade 731 aos ossos achados em Shinjuku, em 1989, no terreno da antiga Escola de Medicina do Exército. A cronologia é outra. No Japão, o livro Akuma no Hōshoku (“A glutonaria do diabo”), de Seiichi Morimura, já tinha colocado o tema no debate em 1981. Os restos de Shinjuku reacenderam a discussão; o governo investigou, mas não concluiu de forma inequívoca que aqueles ossos pertenciam à 731.
Em 28 de agosto de 2002, o Tribunal Distrital de Tóquio reconheceu, num julgamento civil, que o Exército Imperial usou armas bacteriológicas na China — inclusive a Unidade 731 — e que civis morreram em Quzhou, Ningbo e Changde. O mesmo acórdão recusou indenização, com o argumento de que as reparações teriam sido fechadas em tratados entre Estados. O fato entrou no papel; a reparação às famílias, não.
Por isso China e Coreia ainda leem o Japão da guerra com outra memória. Não é só rancor de vizinho, como às vezes se resume nos debates sobre se japoneses e chineses “se odeiam”. É o rastro de um laboratório que teve nome de departamento de água, de médicos que seguiram carreira no pós-guerra, e de um crime que o Japão imperial tentou apagar junto com os pavilhões de Pingfang. Quem quiser o recorte mais largo dessa sombra encontra eco no lado negro do Japão contemporâneo — pressão, silêncio e o que o país prefere não colocar no folheto.
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