Como o Japão encara a homossexualidade?

Religião, sociedade, direito e mídia: qual é hoje a posição do Japão diante da homossexualidade?

O tema da homossexualidade é, há tempos, alvo de longas discussões na internet e na mídia. Nos últimos anos, pessoas homossexuais conseguiram ocupar seu espaço na sociedade e reivindicar o direito de ser tratadas com igualdade e sem preconceitos. Mas como os gays são tratados no Japão? Há preconceito dos japoneses em relação aos homossexuais? O que a mídia ou as pessoas mais tradicionais pensam sobre isso?

Por ser um assunto bastante delicado, em versões anteriores eu infelizmente usei termos e expressões que desagradaram alguns leitores. Aqui apresento uma pesquisa ampla sobre a situação no Japão. Espero que seja útil. Sou contra qualquer tipo de preconceito e acredito que cada pessoa deve poder viver a vida como quiser, e que é nosso dever respeitar isso. Infelizmente, em alguns lugares o respeito se perdeu.

Uma pessoa jovem com uma fantasia de cosplay que remete à subcultura otokonoko

Vejo muitas discussões desnecessárias entre pessoas gays e religiosas. A Bíblia é clara quanto à homossexualidade, mas também fala de livre arbítrio, de amor e de respeito – coisas que muitos religiosos andam esquecendo. Há até uma certa hipocrisia nisso, porque o mesmo texto bíblico que condena a homossexualidade também condena o sexo antes do casamento e o adultério, práticas muito comuns na população em geral, e não vejo o mesmo nível de preconceito religioso contra elas. Mas esse não é o tema deste artigo. [Voltando ao tema] O que o budismo e o xintoísmo pensam a respeito? O que pensam as religiões predominantes no Japão, e mesmo os cristãos japoneses? São algumas das questões que vamos abordar neste longo texto.

Sumário 4

O que as religiões no Japão pensam?

Não existem proibições religiosas explícitas contra a homossexualidade nas religiões tradicionais japonesas. A religião mais antiga do Japão, o xintoísmo, não possui registros que aprovem ou condenem essa prática. Na verdade, o xintoísmo é bem aberto e não dita como deve ser o comportamento nem a vida sexual. No xintoísmo, o sexo precede o nascimento de uma nação e de seu povo; a própria origem do Japão, segundo o xintoísmo, vem de uma relação sexual.

No budismo, o sexo está ligado ao desejo. No passado, nenhum praticante budista – em especial monges e sacerdotes – podia se envolver em qualquer conduta que envolvesse sexo, heterossexual ou homossexual. Durante muito tempo, o budismo considerava a atividade heterossexual ainda mais ofensiva, pois as mulheres eram tidas como impuras por natureza. Na verdade, há muitos relatos históricos de homossexualidade dentro do budismo. O isolamento dos mosteiros provavelmente favoreceu o crescimento de uma cultura homossexual entre monges e sacerdotes budistas.

Dois samurais em armadura tradicional posando para uma reconstituição histórica

Havia uma tradição chamada wakashudō, na qual os samurais faziam votos de compromisso e criavam um vínculo profundo com seus aprendizes. Embora não fosse centrada no sexo, registros históricos mostram com clareza relações homossexuais entre samurais, monges e homens da alta sociedade. Dentro do wakashudō, o pacto fraternal permitia certos «serviços» como parte do ensino do bushidō. Acreditava-se que a mulher roubava a energia do guerreiro e desviava seu foco.

O lesbianismo é pouquíssimo mencionado na literatura, mas há registros do período Edo. Embora o budismo tenha influenciado bastante a cultura homossexual no Japão, a influência ocidental acabou por ocultar, em parte, a aceitação que o Japão tinha no passado.

Como o Japão encara a homossexualidade?

Embora a aceitação atual seja maior do que em muitos outros países, a ocidentalização também trouxe alguns preconceitos para uma parte da sociedade japonesa. O Japão é muito mais aberto ao comportamento do que à prática. Isso fica visível em subculturas como a dos crossdressers e no comportamento geral de muitos japoneses, seja na moda ou no estilo pessoal. No Japão não existe um conceito forte de machismo; é perfeitamente normal que homens heterossexuais tenham hábitos e comportamentos que em alguns países ocidentais seriam considerados femininos ou homossexuais.

O casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda não é legal em todo o Japão. Por enquanto, foi implementado apenas no distrito de Shibuya, em Tóquio (2017). No entanto, o Japão reconhece casamentos entre pessoas do mesmo sexo realizados no exterior. A orientação sexual não é protegida explicitamente pelas leis nacionais de direitos civis, o que significa que as pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) no Japão têm muito pouco recurso legal quando enfrentam discriminação em áreas como emprego, educação, moradia, saúde ou serviços bancários.

Uma jovem japonesa com penteado e roupa modernos olhando para a câmera

Os japoneses não têm um problema específico com a homossexualidade, em parte porque nem mesmo os casais heterossexuais demonstram muito afeto em público. A reserva faz parte da cultura japonesa. Enquanto no Ocidente muitas pessoas homossexuais se assumem abertamente, no Japão costuma-se ser reservado; a maioria das pessoas não sabe a orientação sexual dos outros, e o comportamento por si só não define ninguém.

No Japão, quem se diferencia das normas sociais está sujeito a críticas, exclusão social e discriminação. Não por ser homossexual, mas simplesmente por ser «diferente». Isso é de certa forma paradoxal, pois o Japão é justamente conhecido por acolher pessoas muito diversas e únicas no mundo – em personalidade, moda, costumes. Alguns são críticos da diferença, enquanto outros não se metem na vida alheia e até a acham interessante. É possível traçar paralelos entre alguns aspectos da homofobia e o preconceito contra estrangeiros no Japão.

Um ator de Kabuki em um papel feminino (onnagata) no palco

A homossexualidade na mídia japonesa

Historicamente, os japoneses demonstraram não se importar muito com a orientação sexual ou a vida privada alheia. Isso se reflete não só nos registros sobre monges e samurais, mas também nas artes: o teatro Kabuki, por exemplo, é famoso pelos atores masculinos que interpretam papéis femininos com dança, música e uma encenação bastante elaborada.

Em animes e mangás, ainda é frequente encontrarmos personagens que parecem homossexuais. Muitas vezes isso não é explicitado, porque os relacionamentos nos animes costumam se desenvolver de forma lenta. Existem ainda muitas obras de mangá, light novels e animes com temática homossexual que fazem sucesso tanto no Japão quanto no exterior, como os gêneros yaoi e yuri.

É também relativamente comum personagens de anime aparecerem vestidos com roupas femininas, seja para um efeito cômico ou para retratar uma subcultura de pessoas que gostam de se vestir de forma feminina, sem que isso implique automaticamente atração pelo mesmo sexo. Esses personagens são frequentemente chamados de trap ou femboy.

Alguns cargos em empresas japonesas são preferencialmente destinados a pessoas casadas, razão pela qual muitos japoneses tentam se casar antes dos 30 anos. Essa é uma barreira adicional que pessoas gays podem enfrentar ao tentar subir na carreira.

O Japão pode ser uma boa opção para quem quer viver abertamente ou tem medo de discriminação, pois não existe uma ideia rígida de como cada pessoa deve se comportar. Qual é a sua opinião sobre esse assunto?

Existe homofobia no Japão?

O corpo deste artigo já responde a essa pergunta em detalhe ao analisar como o Japão vê a homossexualidade. Para um ponto de vista complementar, um amigo tem um vídeo sobre o tema que amplia este panorama.

Fontes e Links Úteis
Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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