Neste artigo, vamos ver as atrocidades cometidas pelos militares japoneses antes e durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1937 e 1945. Algumas coisas são tão brutais que é quase impossível compreendê-las.
Dentro do próprio Japão, a população viveu séculos de guerras internas. O país é famoso pela longa história de conflitos dos samurais, mas pouco se fala dos acontecimentos internacionais entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, que fazem parte do histórico de guerras do Japão.
Apesar das atrocidades cometidas por alguns militares, não encare os casos deste artigo com ódio racial. Atualmente o Japão é uma das nações mais pacíficas do mundo. Por mais que o Japão e muitos queiram esquecer ou ignorar, é importante lembrar desses crimes para garantir que nunca mais aconteçam.
Sumário 15
O Massacre de Nanquim
O massacre de Nanquim foi um episódio de assassinato e estupro em massa cometido por tropas japonesas contra os moradores de Nanquim, capital da China durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa. A estimativa oficial chinesa aponta mais de 300.000 mortos; o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente estimou mais de 200.000, e historiadores discutem números que vão de 40.000 a 300.000.
Durante a tomada da cidade, alguns soldados competiram para ver quem matava mais pessoas, uma disputa que ficou registrada na imprensa japonesa da época. Muitas mulheres chinesas foram raptadas e usadas como escravas sexuais. O tribunal registrou cerca de 20.000 estupros só no primeiro mês da ocupação, e algumas estimativas chegam a 80.000.
Ao serem estupradas, muitas mulheres eram mortas em seguida, com frequência por meio de mutilações explícitas. Crianças pequenas também eram capturadas e estupradas.
As atrocidades duraram cerca de seis semanas, a partir de dezembro de 1937. Depois da guerra, o general Iwane Matsui e outros comandantes responsáveis pelo ataque foram julgados e condenados à morte por tribunais aliados; o príncipe Yasuhiko Asaka, que autorizou a morte dos prisioneiros, tinha imunidade como membro da família imperial e nunca foi julgado.
Mulheres de conforto
Além do que aconteceu em Nanquim, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico os japoneses forçaram dezenas de milhares de mulheres à escravidão sexual. A maioria dos historiadores estima que entre 20.000 e 200.000 mulheres foram usadas nos bordéis militares, a maior parte delas coreanas.
Elas eram enviadas por todo o leste da Ásia para trabalhar em bordéis que atendiam às forças armadas japonesas. Os bordéis operavam longas horas e as mulheres raramente recebiam folga, mantendo relações forçadas repetidamente todos os dias por anos.
Em dezembro de 2015, o Japão e a Coreia do Sul firmaram um acordo: o primeiro-ministro Shinzo Abe pediu desculpas oficiais e o Japão contribuiu com 1 bilhão de ienes, cerca de 9 milhões de dólares, para um fundo sul-coreano. Das 47 mulheres ainda vivas na época, 36 pediram a indenização e 34 chegaram a receber cerca de 10 milhões de ienes cada uma. O acordo foi abandonado na prática em 2019, quando o governo sul-coreano dissolveu a fundação.
Unidade 731
A Unidade 731 (Nana-san-ichi Butai) era a unidade onde se situava o Departamento de Prevenção de Epidemias e Purificação de Água do Exército de Kwantung localizada no distrito de Pingfang, no antigo estado marionete de Manchukuo, nordeste da China.
O local era uma fachada para esconder experimentos humanos em civis e prisioneiros de guerra chineses, russos, mongóis, coreanos e até mesmo aliados. Criminosos comuns, inimigos capturados e partidários anti-japoneses também foram usados como cobaias.
Dentre os experimentos da Unidade 731, prisioneiros eram infectados com doenças venéreas para estudo no corpo humano. Alguns eram submetidos a vivissecção sem anestesia para estudar o efeito de doenças nos órgãos. Outros eram estuprados por guardas.
Alguns prisioneiros eram submetidos a testes de temperatura fria para estudar os efeitos do frio congelante. Outros eram alvos de testes com granadas, lança-chamas e armas biológicas. Muitos eram deixados sem água e comida. Nenhum prisioneiro do programa é conhecido por ter sobrevivido, e o assunto é detalhado no artigo sobre a Unidade 731.
A Ferrovia da Birmânia
Durante a ocupação dos territórios do sudeste asiático, os japoneses decidiram construir uma ferrovia que ligava a Tailândia e a Birmânia. A ferrovia atravessaria uma selva incrivelmente densa e seria construída em grande parte à mão.
Os japoneses reuniram cerca de 60.000 prisioneiros de guerra e mais de 200.000 trabalhadores locais recrutados à força e os forçaram a trabalhar dia e noite em meio a monções e calor sufocante. Os trabalhadores recebiam apenas arroz para comer.
Os feridos e doentes foram deixados para morrer. Os perigos incluíam dengue, cólera, úlceras tropicais e uma deficiência extrema de vitamina B que levou muitos à paralisia. Cerca de 90.000 trabalhadores locais e entre 12.000 e 16.000 prisioneiros aliados morreram durante a construção.
A Marcha da Morte de Bataan
As atrocidades em Bataan, Filipinas, começaram em abril de 1942, quando a região foi rendida ao Japão. Os japoneses, despreparados para o grande número de prisioneiros de guerra, ordenaram que os cerca de 75.000 marchassem pela selva até o campo de O'Donnell.
Essa marcha ficou conhecida como Marcha da Morte de Bataan. Os soldados japoneses, que viam a rendição como um sinal de fraqueza, espancavam os cativos incessantemente. Alguns ficaram para trás devido à falta de água, ao calor da selva ou à exaustão.
Os retardatários foram decapitados ou simplesmente deixados para perecer. As estimativas de mortes durante a marcha variam de 5.000 a 18.000 filipinos e de 500 a 650 americanos. No campo de O'Donnell, milhares continuaram morrendo de doença e fome nos dias e semanas seguintes.
O Massacre da Ilha Bangka
Enquanto as forças aliadas abandonavam Singapura depois que os japoneses assumiram o controle, aviões japoneses bombardearam o mar em um esforço para afundar o maior número possível de navios de transporte em fuga.
Um desses navios, o Vyner Brooke, levava 65 enfermeiras australianas, 53 das quais conseguiram nadar até a pequena ilha de Bangka, controlada pelos japoneses, após o afundamento do transporte.
Os soldados japoneses reuniram o maior número possível de pessoas, incluindo militares feridos, soldados aliados e algumas das enfermeiras. Os japoneses então montaram uma metralhadora na praia, ordenaram que todos entrassem nas águas rasas e os derrubaram. Apenas uma enfermeira, Vivian Bullwinkel, sobreviveu ao fuzilamento; ferida, ela passou três anos em cativeiro e testemunhou no tribunal de Tóquio depois da guerra.
A Marcha da Morte de Sandakan
Considerada a pior atrocidade militar da história da Austrália, a Marcha da Morte de Sandakan é pouco conhecida fora desse país. O incidente ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial, quando os japoneses estavam fugindo.
Eles abandonaram o campo de prisioneiros de guerra de Sandakan, em Bornéu, forçando os soldados ali internados a marchar até Ranau pela selva com eles até que perecessem de fome ou doença. Cerca de 2.400 prisioneiros aliados morreram nas marchas e nos campos de Sandakan e Ranau, quase todos australianos. Seis australianos sobreviveram, e todos eles haviam escapado.
A falta de comida afetou até mesmo os japoneses, alguns se matavam e recorriam ao canibalismo, e casos assim aconteceram em vários locais durante a guerra. Depoimentos colhidos depois da guerra descrevem prisioneiros que tiveram carne cortada ainda vivos.
O Ataque a Pearl Harbor
Em 7 de dezembro de 1941, no início da manhã, os japoneses bombardearam a base norte-americana de Pearl Harbor no Havaí, antes de qualquer declaração de guerra. O ataque matou 2.403 americanos, feriu 1.178 e afundou ou danificou 18 navios.
Muitos dos mortos eram jovens de 17 e 18 anos; entre as vítimas havia bombeiros e familiares. O ataque aconteceu depois que os Estados Unidos congelaram os bens japoneses no país e cortaram o fornecimento de petróleo, uma medida que ameaçava paralisar a Marinha Imperial e os planos de expansão pelo sudeste asiático.
O ataque a Pearl Harbor provocou revolta nos Estados Unidos e, quase quatro anos depois, aviões americanos destruíram Hiroshima e Nagasaki com bombas atômicas, matando bem mais de 100.000 pessoas.
Ataques ao território americano: submarinos japoneses bombardearam um campo de petróleo perto de Santa Bárbara, na Califórnia, e um forte costeiro no Oregon, e um hidroavião lançou bombas incendiárias sobre uma floresta do Oregon. Balões-bomba lançados pelo Japão atravessaram o Pacífico e mataram seis civis no Oregon em maio de 1945, as únicas mortes causadas por ação inimiga no território continental americano. O alarme conhecido como Batalha de Los Angeles, em fevereiro de 1942, foi um falso pânico.
O Massacre do Submarino I-8
A tripulação do submarino japonês I-8 cometeu duas atrocidades durante a Segunda Guerra Mundial. Primeiro, afundaram o cargueiro holandês Tjisalak e fizeram a tripulação refém.
Os homens foram espancados com martelos e chaves inglesas, cortados com espadas e jogados ao mar, e os oficiais foram mortos no interior do submarino. Cinco ou seis das cerca de 100 pessoas a bordo sobreviveram.
A mesma tripulação afundou o cargueiro americano Jean Nicolet, novamente levando mais de 100 prisioneiros, e os atacou com porretes e lâminas. O submarino mergulhou de repente com cerca de 30 homens amarrados no convés; cerca de 23 foram resgatados.
A Batalha de Manila
Em 1945, em Manila, Filipinas, o general Tomoyuki Yamashita ordenou a retirada das tropas japonesas. Ignorando a ordem, as tropas navais sob o comando do almirante Sanji Iwabuchi permaneceram na cidade e a defenderam rua por rua.
Eles estupraram, fuzilaram, mutilaram e decapitaram filipinos até que os Aliados matassem quase todos os mais de 16.000 soldados japoneses da cidade, como resultado da recusa em se render. Pelo menos 100.000 filipinos morreram.
Relembrada hoje como tragédia nacional, a Batalha de Manila custou aos filipinos, além das milhares de vidas humanas, a destruição de incontáveis e irreparáveis tesouros históricos, colégios, igrejas, conventos, universidades e mosteiros históricos.
Operação Sook Ching
Após assumir o controle de Cingapura em fevereiro de 1942, os japoneses decidiram erradicar qualquer chinês na cidade que pudesse se opor ao domínio japonês, incluindo militares, esquerdistas, comunistas e aqueles com armas.
Assim começou a Operação Sook Ching, conhecida em japonês como Dai Kenshō, ou "grande inspeção". A operação resultou em vários massacres, tipicamente por metralhadora, de grupos de homens etnicamente chineses.
Os números japoneses para a operação iam de cerca de 6.000 a 25.000 mortes, mas estimativas posteriores são bem mais altas: a maioria dos historiadores aponta entre 40.000 e 50.000 vítimas, e alguns relatos de Singapura falam em até 100.000.
A Ocupação de Nauru
Os japoneses ocuparam Nauru, uma pequena ilha equatorial a leste de Papua-Nova Guiné, de 1942 até o final da Segunda Guerra Mundial. Durante esse período, cometeram uma série de atrocidades, incluindo a execução dos cinco australianos que permaneceram na ilha, entre eles o administrador, após um bombardeio americano em março de 1943.
Na época, Nauru abrigava uma colônia de hansenianos. Em julho de 1943, os japoneses colocaram 39 pacientes em um barco de pesca, rebocaram a embarcação para longe da costa e atiraram até afundá-la, matando todos a bordo. Eles também deportaram cerca de 1.200 nauruenses para as ilhas Truk.
A mortalidade entre os deportados foi altíssima: menos de 800 voltaram para casa depois da guerra. O fuzilamento dos pacientes da colônia é considerado o pior crime da ocupação.
O Massacre de Palawan
O campo de prisioneiros de guerra de Palawan, nas Filipinas, era um lugar infernal. Segundo relatos de sobreviventes, dois soldados americanos tiveram seus braços esquerdos quebrados com um cano apenas por comer um mamão para não morrer de fome.
Em 14 de dezembro de 1944, os japoneses forçaram os 150 americanos do campo a entrar nas trincheiras antiaéreas que os próprios prisioneiros haviam cavado. Os soldados jogaram gasolina nas entradas e atearam fogo, e atiraram em quem tentava sair.
Alguns tentaram escapar nadando em uma baía próxima e foram baleados. Outros tentaram se esconder entre as rochas perto da baía, mas eram encontrados e mortos. No final, 139 homens morreram e somente 11 americanos sobreviveram naquela noite, alcançando a resistência filipina.
Outros ataques e crimes de guerra dos japoneses
A invasão de Hong Kong: em dezembro de 1941, durante a Guerra do Pacífico, o Japão invadiu Hong Kong com ordem de não fazer prisioneiros. Qualquer pessoa encontrada defendendo a ilha, incluindo médicos britânicos, era morta a baioneta. No dia de Natal, soldados entraram no St. Stephen's College, que funcionava como hospital, mataram cerca de 100 feridos e funcionários e mutilaram os corpos de dois médicos.
Massacres nas ilhas Andamão: os japoneses cometeram inúmeras atrocidades na região. Em Port Blair, torturaram líderes e suspeitos indianos. Em janeiro de 1944, fuzilaram 44 civis em Homfreyganj sob a acusação de espionagem.
O massacre da cesta de porcos: quando Java Oriental se rendeu aos japoneses, alguns soldados fugiram para as colinas. Os capturados foram forçados a entrar em caixas de bambu usadas para transportar porcos e levados em caminhões abertos, sob o calor do sol tropical, antes de serem jogados em águas infestadas de tubarões.
O Massacre do Hospital Alexandra: soldados japoneses entraram no Hospital Alexandra, administrado por britânicos, e foram de sala em sala batendo indiscriminadamente em pacientes, médicos e enfermeiras. Até 50 pacientes e funcionários foram mortos, incluindo homens que estavam na mesa de operação. No dia seguinte, cerca de 200 homens, entre feridos e funcionários, foram amarrados e trancados durante a noite em salas pequenas e sem ar; o restante foi morto a baioneta pela manhã.
Massacre do aeroporto de Laha: os japoneses executaram mais de 300 holandeses e australianos próximos ao aeródromo de Laha, na ilha de Ambon. A maioria foi morta a baioneta, a golpes ou decapitada e enterrada em valas comuns.
A execução de aviadores capturados: centenas de aviadores aliados foram executados depois de capturados, muitas vezes após julgamentos simulados. Em Fukuoka, 33 aviadores americanos foram mortos, 15 deles decapitados depois de o Japão anunciar a intenção de se render, em 15 de agosto de 1945.
Ataques a cidades chinesas: além de Nanquim, aviões japoneses bombardearam a capital de guerra, Chongqing, em 268 ataques que mataram mais de 10.000 civis. Outras cidades, como Wuhan e Xangai, também foram atacadas.
Tratamento de minorias: o Japão deslocou os ainus, povo indígena de Hokkaido, de suas terras e proibiu sua língua e seus costumes por meio de políticas de assimilação. Coreanos foram recrutados à força para o trabalho e para o serviço militar, e as mulheres coreanas formaram grande parte das mulheres de conforto.
Qual a punição do Japão por esses crimes?
Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão foi submetido a um processo de julgamento pelos crimes cometidos durante a guerra pelo Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (IMTFE, na sigla em inglês). Esse tribunal foi criado pelos Aliados para julgar os líderes militares e políticos japoneses pelos crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Entre 1946 e 1948, ouviu provas contra 28 réus.
Como resultado do julgamento, muitos líderes militares e políticos japoneses foram condenados à morte ou a longas penas de prisão. Sete réus foram enforcados em dezembro de 1948, entre eles o ex-primeiro-ministro Hideki Tojo, e dezesseis receberam prisão perpétua. O general Tomoyuki Yamashita foi julgado separadamente por uma comissão militar americana em Manila e enforcado em fevereiro de 1946 pelos crimes cometidos por suas tropas nas Filipinas.
Além do julgamento, o Japão foi obrigado a pagar indenizações pelos danos causados durante a guerra. Pelo Tratado de Paz de São Francisco, de 1951, e pelos acordos bilaterais que se seguiram, houve compensações a vários países que o Japão havia ocupado, entre eles Filipinas, Birmânia, Indonésia e Coreia do Sul. O país também foi obrigado a se desarmar e a renunciar às conquistas territoriais.
Nem todos enfrentaram a justiça: os Estados Unidos concederam imunidade a Shirō Ishii e a outros pesquisadores da Unidade 731 em troca dos dados das pesquisas, e muitos dos responsáveis pelos experimentos nunca foram julgados. A Constituição de 1947 renunciou à guerra como direito soberano e limitou o país às Forças de Autodefesa, o que explica a dúvida comum sobre se o Japão tem ou não um exército.
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