História do Japão Imperial - Segunda Guerra Mundial e Queda

Como uma monarquia constitucional saiu do crack de 1929 direto para uma guerra de quinze anos que não podia vencer.

Como um país industrialmente moderno como o Japão pôde ruir, em apenas dezesseis anos, da quebra da bolsa de Nova York em 1929 até a rendição incondicional de 1945? A resposta passa pela Grande Depressão, pela ocupação da Manchúria, pela Segunda Guerra Sino-Japonesa, pelo Pacto Tripartite e pelo ataque a Pearl Harbor, até as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Neste artigo, nós vamos percorrer essa cadeia de causa e efeito, passo a passo. Se você ainda não leu o capítulo anterior, vale começar pelo nosso texto sobre a história do Japão Imperial desde a Restauração Meiji.

O Império do Japão (大日本帝國, Dai-Nippon Teikoku) era, no início dos anos 1930, uma monarquia constitucional no papel, mas, na prática, um país em que o Exército Imperial passava a concentrar cada vez mais o poder real. A era Shōwa (昭和), batizada a partir do imperador Hirohito, começou em 1926 e só terminou com uma derrota completa. No meio do caminho, o Japão deixou de resolver crises pela via democrática e passou a resolvê-las com tanques, couraçados e aviões.

Aqui, nós seguimos o caminho que o Japão percorreu entre 1929 e 1945. Mais do que listar o que aconteceu, o que nos interessa são os momentos em que outra direção ainda era possível. Em pontos como o Incidente de Mukden, em 1931, a Ponte de Marco Polo, em 1937, ou a véspera de Pearl Harbor, as alternativas continuavam na mesa, e quem estava no poder escolheu conscientemente ignorá-las.

Fotografia em preto e branco de soldados japoneses marchando durante os primeiros combates na Manchúria nos anos 1930
Sumário 10

A Grande Depressão e o caminho da expansão

Quando a bolsa de Nova York desaba em 24 de outubro de 1929, a onda de choque chega à Ásia quase de imediato. O Japão, que dependia muito das exportações de seda e tecidos para os Estados Unidos, viu suas receitas em moeda estrangeira despencarem em poucos meses. A crise atingiu primeiro o campo e, em seguida, as grandes cidades industriais como Osaka e Nagoya, onde milhares de operários perderam o emprego. Para tentar conter o mal-estar social, o gabinete do primeiro-ministro Hamaguchi Osachi apostou no ajuste fiscal, mas a austeridade acabou alimentando a radicalização política e preparando o terreno para soluções militares.

O problema maior é que faltava ao Japão quase tudo o que uma indústria moderna precisa para girar: ferro, borracha, petróleo e carvão coqueificável. O país importava a parte essencial dessas matérias-primas dos Estados Unidos, das Índias Orientais Holandesas e da Malásia britânica. Quando os preços caíram, comprar ficou, em teoria, mais fácil, mas faltava moeda para pagar, e a dependência estratégica virou um ponto fraco evidente. Para os oficiais do Exército Imperial do Japão (大日本帝國陸軍), a resposta era quase óbvia: era preciso buscar esses recursos no continente asiático, onde eles estavam.

A Manchúria, o Manchukuo e a saída da Liga das Nações

Em 18 de setembro de 1931, um atentado à ferrovia perto de Mukden, no nordeste da China, serviu de pretexto para uma grande ofensiva japonesa. O incidente foi orquestrado por oficiais da Guandong Army, e não tinha sido planejado pelo governo de Tóquio, que, depois, simplesmente aceitou o fato consumado. Em poucos meses, o Exército japonês controlava toda a Manchúria, rica em carvão, ferro e terras agricultáveis.

Em 1932, Tóquio instalou um Estado-fantoche liderado pelo último imperador da dinastia Qing, Puyi: o Manchukuo (滿洲國). Oficialmente independente, o regime era, na prática, dirigido por Tóquio; as decisões econômicas e militares passavam pelo Exército japonês de ocupação. A Liga das Nações enviou uma comissão de inquérito liderada por Lord Lytton, que, em 1933, publicou um relatório concluindo que o Japão era o agressor. Tóquio optou, então, por deixar a organização em março de 1933, primeiro grande passo diplomático em direção ao isolamento e à escalada.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Ponte de Marco Polo

Em 7 de julho de 1937, um incidente entre soldados japoneses e chineses perto da Ponte de Marco Polo, a poucos quilômetros de Pequim, deflagrou uma guerra aberta. O conflito se generalizou rapidamente: Xangai caiu após três meses de combates intensos e, em dezembro, Nanquim, a capital nacionalista de Chiang Kai-shek, foi tomada.

Durante a tomada de Nanquim, ocorreu um dos capítulos mais sombrios dessa guerra: o Massacre de Nanquim (南京大虐殺). Por cerca de seis semanas, a partir de 13 de dezembro de 1937, tropas do Exército Imperial japonês se entregaram a execuções em massa de soldados desarmados e civis, a estupros e a saques em larga escala. Estimativas históricas costumam falar de dezenas de milhares, chegando a ultrapassar 200 mil mortos chineses, civis e militares somados. O reconhecimento desse episódio segue, até hoje, como tema diplomaticamente sensível entre Pequim e Tóquio, e ponto de atrito recorrente com Seul.

A guerra sino-japonesa entrou, então, numa lógica de atrito que não se resolvia. A China era vasta, com comunicações difíceis, e o Exército nacionalista, apesar de suas fragilidades, se recusava a capitular. Para Tóquio, era uma armadilha: o Exército estava preso a um conflito que não terminava depressa e que consumia cada vez mais recursos a cada ano.

Visão geral em preto e branco de tropas posicionadas durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, com bandeiras e silhuetas militares em cena

O Pacto Tripartite e o isolamento crescente

Em 27 de setembro de 1940, o Japão assinou em Berlim o Pacto Tripartite com a Alemanha nazista e a Itália fascista. Oficialmente, tratava-se de um pacto de assistência mútua: cada signatário se comprometia a acudir outro, caso fosse atacado por uma potência ainda não envolvida na guerra na Europa ou no conflito sino-japonês. Na prática, o tratado selou a entrada formal do Japão na órbita do Eixo e acelerou o choque com os Estados Unidos.

No verão de 1941, depois da invasão alemã da URSS em junho, Tóquio aproveitou a ocasião para ocupar o sul da Indochina francesa (Vietnã). Washington respondeu com um embargo total ao petróleo em julho de 1941, seguido do congelamento dos bens japoneses. Sem hidrocarbonetos importados, a Marinha Imperial e a aviação tinham combustível para poucos meses antes de parar. Para a Marinha japonesa, a conclusão era clara: se não dava mais para comprar petróleo, era preciso ir buscá-lo, e, para isso, era necessário atacar antes que a Marinha americana estivesse pronta.

Pearl Harbor e a entrada na Guerra do Pacífico

Na manhã de 7 de dezembro de 1941 (horário do Havaí), um ataque aeronaval japonês atingiu a base americana de Pearl Harbor (真珠湾), no arquipélago do Havaí. Em poucas horas, os japoneses afundaram ou danificaram grande parte da frota americana do Pacífico, incluindo vários couraçados, e destruíram centenas de aviões em terra. Mais de 2.400 militares americanos morreram naquele dia. No dia seguinte, os Estados Unidos declararam guerra ao Japão; em 11 de dezembro, Alemanha e Itália também declararam guerra aos Estados Unidos.

O efeito estratégico de Pearl Harbor segue em debate. No curto prazo, foi um sucesso operacional estrondoso. No médio prazo, foi um erro estratégico grave: o ataque despertou uma potência industrial que, em poucos anos, esmagaria o Japão apenas pela sua capacidade produtiva. Os porta-aviões americanos, que naquele dia não estavam no porto, viraram a espinha dorsal de uma resposta que não tardou a chegar.

De Midway aos kamikazes: a virada do Pacífico

Durante os primeiros seis meses de 1942, o Império do Japão emendou uma série de vitórias: Filipinas, Malásia, Cingapura, Indonésia, Birmânia. A palavra de ordem oficial passou a ser a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental (大東亞共榮圈, Dai-tōa Kyōeiken), uma fórmula que prometia emancipação dos povos asiáticos sob direção japonesa. Na prática, a ocupação se apoiava em exploração econômica e em administração militar direta.

A virada veio entre maio e junho de 1942, com a Batalha de Midway. Em quatro dias, a Marinha Imperial perdeu quatro porta-aviões e boa parte de seus pilotos mais experientes. Pela primeira vez desde o início do conflito, a iniciativa estratégica passou para os Estados Unidos. Os desembarques em Guadalcanal, no verão de 1942, consolidaram esse novo quadro.

À medida que a Marinha japonesa recuava, a aviação passou a organizar, a partir de 1944-1945, as missões suicidas dos kamikazes (神風, formalmente organizados como Tokkōtai 特攻隊). Pilotos, em geral muito jovens, lançavam seus aviões carregados de explosivos contra navios americanos. A eficácia tática dessas missões segue debatida; o custo humano, em compensação, foi enorme e deixou uma marca duradoura na memória japonesa.

Representação simbólica da bandeira japonesa da era imperial, com o sol nascente irradiando sobre fundo branco, usada como emblema oficial pelo Exército e pela Marinha durante a Guerra do Pacífico

Iwo Jima, Okinawa e o fogo sobre as cidades japonesas

No início de 1945, as forças americanas entraram na fase final do Pacífico. Em 19 de fevereiro de 1945, o desembarque em Iwo Jima desencadeou uma das batalhas mais violentas do conflito: cerca de 6.800 fuzileiros navais americanos e quase 18 mil soldados japoneses morreram na ilha. A foto dos marines hasteando a bandeira no topo do monte Suribachi virou uma das imagens mais reproduzidas da guerra.

Em 1º de abril de 1945, foi a vez de Okinawa. A resistência japonesa, sob o comando do general Ushijima, foi obstinada; a batalha se estendeu até junho, deixando cerca de 12.500 mortos do lado americano e mais de 100 mil do lado japonês, além de um número enorme de vítimas civis. A queda de Okinawa colocou o Japão metropolitano ao alcance direto dos bombardeiros americanos.

A partir de março de 1945, os ataques de bombardeio incendiário conduzidos pelo general Curtis LeMay devastaram as grandes cidades japonesas. Tóquio foi atingida de forma especial na noite entre 9 e 10 de março de 1945: as estimativas falam em mais de 100 mil mortos e centenas de milhares de feridos apenas naquela noite. O objetivo declarado era quebrar o moral da população e paralisar a indústria, mas o custo humano foi imenso.

Hiroshima e Nagasaki

Em 6 de agosto de 1945, às 8h15 da manhã, o bombardeiro americano Enola Gay lançou uma bomba de urânio, a Little Boy, sobre Hiroshima (広島). A cidade foi em grande parte arrasada em poucos segundos; estima-se que cerca de 70 mil a 80 mil pessoas tenham morrido na hora, e que o total, somando os mortos dos meses seguintes por radiação, ultrapasse 200 mil.

Três dias depois, em 9 de agosto, uma segunda bomba, dessa vez de plutônio, a Fat Man, caiu sobre Nagasaki (長崎). O número de vítimas foi menor do que em Hiroshima, mas a mensagem estratégica já tinha sido transmitida. No mesmo dia, a União Soviética declarou guerra ao Japão e invadiu a Manchúria, fechando de vez qualquer saída diplomática para Tóquio.

A rendição e a ocupação

Em 15 de agosto de 1945, o imperador Hirohito se dirigiu à nação pelo rádio no que ficou conhecido como o Gyokuon-hōsō (玉音放送), a “difusão da voz preciosa”. Foi a primeira vez que a voz do imperador foi ouvida pela população japonesa. Ele anunciou a rendição (降伏) do Japão, sem usar diretamente a palavra capitulação, e pediu ao povo que “suportasse o insuportável”.

A rendição oficial foi assinada em 2 de setembro de 1945 a bordo do couraçado USS Missouri, na baía de Tóquio, com a presença do general Douglas MacArthur e de representantes japoneses. O Japão aceitou os termos da Declaração de Potsdam: desmobilização completa, ocupação aliada, julgamento dos criminosos de guerra e renúncia a qualquer expansão territorial.

A ocupação, sob a autoridade de MacArthur, durou de 1945 a 1952. Veio acompanhada de reformas profundas: direito de voto às mulheres, sindicalização, dissolução dos grandes conglomerados (zaibatsu 財閥) e, sobretudo, a promulgação, em 3 de maio de 1947, de uma nova Constituição pacifista, cujo artigo 9 renuncia à guerra como instrumento de solução de controvérsias internacionais e proíbe o Japão de manter forças armadas ofensivas. É essa Constituição que, em suas linhas gerais, segue regendo o Japão até hoje.

O que essa sequência nos deixa?

Quando a gente coloca esses eventos em ordem, o que impressiona menos é a brutalidade de cada episódio isolado e mais o encadeamento das decisões. Em vários momentos — depois do Incidente de Mukden em 1931, depois do Relatório Lytton em 1933, depois da Ponte de Marco Polo em 1937, depois do embargo ao petróleo no verão de 1941 — um caminho menos militar continuava, em tese, em aberto. A cada bifurcação, a direção do Japão escolheu a escalada, apostando que o passo seguinte resolveria o anterior.

O paradoxo é que um país que tinha se industrializado no ritmo forçado da Restauração Meiji acabou sendo superado por uma industrialização ainda mais potente. A Guerra do Pacífico não foi perdida só nos campos de batalha: foi perdida nos estaleiros, nas fábricas de aviões e nos laboratórios. Se você quiser recuar ainda mais, o nosso artigo sobre a Restauração Meiji e o nascimento do Japão Imperial mostra como tudo isso começou.

E você, qual episódio desse período te parece o menos conhecido ou o mais mal entendido no Brasil? Conta para a gente nos comentários: é das suas perguntas que costumam sair os ângulos que nós só passamos raspando.

Fontes e Links Úteis
Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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