Por que os japoneses obedecem às leis? Não é só punição

Por que os japoneses obedecem às leis? Não é só punição

A lanterna da lei aponta o caminho. O princípio acende o resto.

Leis são importantes para manter as coisas em ordem. Infelizmente, nem todos as seguem à risca. Alguns fazem vista grossa ou acham que certas coisas são desnecessárias e não prejudicam ninguém. Os brasileiros ficaram famosos por quebrar regras e leis; os japoneses, por obedecer muitas delas à risca e por um estilo de vida educado, honesto e humilde. Infelizmente nem todas as pessoas são iguais: sempre vai existir quem não se importe com leis e regras. Ainda assim, para muita gente é impressionante o japonês não jogar lixo nas ruas, não furar fila nem quebrar pequenas regras de trânsito. Muitos pensam que isso é resultado de boa administração e punição severa para quem desobedece. Será mesmo? Rua japonesa limpa, com calçada organizada e pouco movimento Leis rígidas ajudam, mas não são o principal responsável pela organização e pela harmonia no Japão. Muitos países desenvolvidos também têm leis severas, mas um alto índice de problemas, fatalidades e bagunça porque a população quebra regra o tempo todo. Isso sem falar que muita coisa que os japoneses fazem pelos outros não está escrita em lei nenhuma. Eles simplesmente são puxados a agir assim. Depois de pesquisar, eu cheguei à conclusão de que o eixo é princípio, não só lei. Caminho estreito entre bambus altos no Japão
Sumário 4

O que é um princípio?

Os japoneses conseguem ser obedientes, educados, honestos e humildes por causa da cultura e da pressão social para fazer o que é certo. Mesmo com toda essa influência, eles só seguem regra e lei à risca quando têm princípios — uma bússola que segura o caminho antes do policial aparecer. Princípio pode ser definido como “regras ou código de boa conduta pelos quais alguém se esforça em viver”. Ele pesa nas decisões e no rumo da vida. É o antecessor da lei: começo, base, causa, raiz e razão. Trem japonês parado na plataforma, com passageiros em fila

Quais as vantagens de ter princípios?

Quem tem princípios se esforça para não fazer o que considera errado. Quem não tem, mesmo usando a consciência ou achando que “não prejudica ninguém”, dá o primeiro passo que leva ao erro. Com princípio, a pessoa pensa no próximo; sem princípio, pensa só nela. Lei é como pegar uma lanterna e apontar para um pedaço escuro, só para saber o que fazer naquele instante. Princípio é acender a luz do caminho inteiro. Andar só com lanterna é bem mais perigoso do que ter o trecho iluminado. Vista urbana do bairro de Minato, em Tóquio, com prédios e ruas organizadas Com princípios, não precisa de alguém dizendo o tempo todo se aquilo é certo ou errado. Não precisa de pai, policial, governante ou líder religioso lembrando que jogar lixo na rua prejudica a sociedade hoje e amanhã. Nem placa em cada esquina. Eles sabem que isso faz mal para eles mesmos e para os outros. Por isso as lixeiras também não estão em cada canto, como muita gente imagina. Um dos grandes culpados da desobediência é a cultura do “primeiro eu”. Egoísmo e pressa: quebra-se a lei pela vantagem própria. No Japão, esse pensamento não é visto com bons olhos. Rua residencial silenciosa no Japão, com casas baixas e pouca gente

Qual o princípio mais importante?

Um dos princípios mais importantes do mundo ainda é o amor ao próximo. Se o outro vem na frente, fica mais difícil roubar, matar, mentir, enganar ou esconder. É um princípio básico da Bíblia que muita gente religiosa, infelizmente, não segue. Como os japoneses, que em grande parte não são cristãos, conseguem pensar no próximo até nas coisas pequenas? É óbvio que, na maioria das vezes, eles não fazem o bem só por amor. Fazem para manter as aparências ou para não sair do padrão cultural. Não importa a crença: se a pessoa só cumpre lei na base da obrigação, ela vai errar na primeira brecha. Por isso o Japão está bem longe de ser perfeito! Guia turístico com bandeira no Japão, em meio a visitantes Quando aparece oportunidade, vantagem, benefício próprio, até gente boa pode quebrar a lei. O que dizer do Brasil de hoje, onde o errado parece certo e quem faz o certo costuma levar zoação? Talvez se quem se diz religioso se preocupasse mais com princípio do que com regra na boca, obedeceria às leis que tanto cita. Tratar o outro como gostaria de ser tratado é o básico que, se pegasse de verdade, traria paz e ordem. Não precisa de religião para ver que esse pensamento é o mais lógico.

Quais os princípios japoneses?

No Brasil, muita gente é criada no “primeiro eu”. Os japoneses costumam crescer com princípios tirados de provérbio, arte, escola, budismo e xintoísmo. Não é lista aleatória de “coisas bonitas do Japão”: é o que segura a lei quando ninguém está olhando. Grupo de pessoas caminhando em uma rua movimentada no Japão
  • 出る杭は打たれる (deru kui wa utareru): o prego que se destaca é martelado. Quem sobe sozinho, contra o grupo, leva pressão para voltar ao nível do resto.
  • 和 (wa): harmonia. O coletivo pesa mais do que o capricho individual.
  • 迷惑 (meiwaku): causar incômodo. Falar alto no trem, furar fila, deixar lixo fora de hora — a vergonha de atrapalhar o outro já funciona como regra.
  • Simplicidade e menos desordem no espaço comum.
  • Disciplina e ética — as artes marciais japonesas repetem isso até virar hábito, não cartaz.
  • Wabi-sabi: a imperfeição é normal, erro acontece. Organização não é o mesmo que perfeição.
Quem quiser o lado estético, não só o social, encontra os nove ideais da arte e da cultura japonesa. A fama de honestidade dos japoneses e os valores culturais e morais do Japão andam no mesmo trilho: o que a pessoa carrega na cabeça, não só o que está no código. Ao longo da vida, um japonês aprende a viver em sociedade sem passar a vida tentando subir derrubando o outro. Às vezes se limitar faz mal, mas não tem nada de errado em ser ensinado a considerar a opinião dos outros antes da própria. Tem gente que torce o nariz quando alguém diz que amizade, filme, jogo e o jeito de viver influenciam a pessoa. Basta olhar o estilo de vida de cada país: a cultura deixa marca no povo.
Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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