É muito comum notícias sobre caça às baleias no Japão viralizarem na internet. E, nos comentários, muita gente solta ódio a um país inteiro sem sequer entender o que realmente acontece. Por que os japoneses caçam baleias?
Antes de transformar um tema complexo em gritaria genérica, vale separar o que é história, o que é política internacional e o que é só generalização barata — sem transformar um percentual minúsculo de quem trabalha com isso no retrato de 120 milhões de pessoas.
Sumário 10
Hogei — a captura de baleias
Hogei [捕鯨] é a palavra japonesa para a captura de baleias e, em alguns contextos, de golfinhos. Hoje o termo costuma cobrir, na prática, caça comercial, captura com justificativa científica e regimes de cota para povos indígenas em outras partes do mundo (no Japão, o debate público gira sobretudo em torno da caça comercial e da antiga “pesquisa”).
No Japão, a caça à baleia existe desde tempos muito antigos, com técnicas próprias, diferentes das ocidentais. No período Edo, a pesca sistemática era organizada por grupos grandes chamados hogeishūdan [捕鯨集団].
Não é o caso de romantizar o hogei. Se quiser o histórico em japonês, a página da wiki japonesa e as buscas por hogei [捕鯨] ou nihon no hogei [日本の捕鯨] já abrem o mapa do tema.
A história da caça às baleias
Há indícios arqueológicos de uso de baleias no Japão desde o período Jōmon (ossos encontrados em sítios antigos). Em outras regiões do leste asiático também há registros pré-históricos de relação com cetáceos. Na Europa, a pesca basca se tornou notória a partir do século XI; carne e óleo eram os alvos principais, e as armas evoluíram com o tempo.
No Japão, já no período Nara (século VIII) a literatura registra termos ligados à pesca de baleia. No século XVI e, sobretudo, na segunda metade do século XVII, técnicas de captura com rede se consolidaram em comunidades costeiras — as baleias são difíceis de capturar: nadam rápido e muitas vezes afundam ao morrer.
Grupos baleeiros viraram organizações grandes, da captura ao desmanche, do óleo à carne salgada. Nasceu também uma cultura de oração por pesca segura, gratidão e luto pelas baleias em vários pontos da costa, sobretudo entre quem vivia da atividade.
Como a caça às baleias mudou nas últimas décadas?
Na década de 1970 a Comissão Baleeira Internacional (IWC) avançou em regras de gestão. Em 1982, a IWC decidiu pela moratória da caça comercial; o Japão aceitou o quadro que entrou em vigor em meados dos anos 1980 e, na prática, interrompeu o comércio sob as regras da comissão.
A partir do fim dos anos 1980 o Japão manteve capturas sob a exceção de “pesquisa científica” prevista nas regras da IWC — inclusive em águas da Antártida —, o que gerou décadas de crítica internacional. Noruega e Islândia, por caminhos diferentes, também mantiveram caça comercial ou retomaram operações no Atlântico Norte.
Em dezembro de 2018 o Japão anunciou a saída da IWC. A retirada se concretizou em 30 de junho de 2019 e, a partir de julho de 2019, o país retomou a caça comercial restrita às suas águas territoriais e à zona econômica exclusiva (ZEE), deixando de operar o programa de pesquisa na Antártida.
Hogeimondai — o debate também é japonês
Não é só o Ocidente que discute o tema. Em japonês existe a palavra hogeimondai [捕鯨問題], literalmente “problema da captura de baleias”. Há protestos, críticas internas, defesa cultural e também cansaço de quem não quer ser representado por um setor minúsculo.
Por que os japoneses capturam baleias?
Historicamente, como em outras sociedades, a baleia serviu para comida e materiais: óleo (incluindo uso agrícola e iluminação), barbas em artesanato, carne e partes salgadas de longa conservação.
Depois da Segunda Guerra Mundial o consumo de carne de baleia cresceu como proteína barata; nas últimas décadas a demanda despencou. Durante o período sob a IWC, organizações autorizadas caçavam sob a rubrica científica — e a venda da carne resultante sempre foi o ponto mais atacado por ambientalistas, que tratam a “pesquisa” como fachada comercial. Depois de 2019, o enquadramento oficial voltou a ser comercial, com cotas e limite geográfico à ZEE japonesa.
O Japão é o único país que caça baleias?
Não. A baleação tem história longa em vários continentes. Brasil, Portugal e muitos outros caçaram até proibições locais e o regime da IWC na década de 1980.
Hoje, além do Japão, Noruega e Islândia seguem com caça comercial em seus marcos próprios. Povos indígenas no Ártico (Estados Unidos, Rússia, Dinamarca/Groenlândia, entre outros) mantêm cotas de subsistência. Em outros países da Ásia há controvérsias sobre capturas “acidentais” e mercados de carne. Várias espécies de golfinhos e cetáceos menores ficam fora do foco principal da IWC e dependem de leis nacionais.
Entre 1986 e o fim dos anos 2000, dezenas de milhares de baleias ainda foram abatidas no mundo sob diferentes regimes. Acusar só o Japão como vilão exclusivo costuma ser preguiça factual — o que não transforma a caça em prática “inofensiva”.
Os japoneses comem carne de baleia?
A moratória da caça comercial pela IWC (decisão de 1982, com efeito prático em meados da década) encerrou o modelo comercial sob a comissão. Enquanto o Japão permaneceu na IWC, a narrativa oficial era de captura para estudo; a carne, ainda assim, entrava no mercado e gerava acusações de comercialização disfarçada.
O consumo interno de carne de baleia é residual em comparação com as décadas de 1950–60. Não é prato do cotidiano da maioria das famílias. Parte do que sobra ou é ofertada chega a turistas curiosos e a nichos de mercado; preços altos e baixa demanda mantêm o produto longe do dia a dia. Generalizar “os japoneses comem baleia” é o mesmo tipo de caricatura que o texto combate na conclusão.
As baleias estão em extinção?
Depende da espécie. Populações de baleia-minke (anã) em certas áreas são tratadas como relativamente abundantes em avaliações de estoque usadas no debate sobre cotas. Já baleias-comuns e outras espécies sofreram colapso no século XX e ainda carregam status de ameaça em várias listas.
O ponto biológico sensível é o ritmo de reprodução: muitas baleias demoram anos para se recuperar. Existem dezenas de espécies e estoques regionais diferentes — misturar tudo num “baleias em extinção, ponto final” serve mais ao slogan do que à biologia.

Os japoneses voltaram a caçar baleias comercialmente?
Sim. Com a saída da IWC em 2019, o Japão retomou a caça comercial em águas territoriais e na zona econômica exclusiva. Em troca, encerrou o programa de captura de pesquisa na Antártida — um ponto que ambientalistas saudaram parcialmente, mesmo criticando o retorno comercial.
Há cotas anuais e espécies-alvo definidas pelo governo japonês. O volume é limitado se comparado à era industrial do século XX, e o argumento oficial é de sustentabilidade de estoques específicos. Isso não apaga o sofrimento do animal nem o desconforto ético de muita gente — inclusive de japoneses.
Comparar com a indústria da carne de animais terrestres não “absolve” a caça; só impede o teatro de pureza de quem come bife e trata só a baleia como tabu absoluto.
Não seja um idiota hipócrita
Eu, como muita gente, fico triste ao saber que baleias são mortas — seja sob rótulo científico, seja no retorno comercial. Isso justifica discurso de ódio contra “os japoneses” na internet? Não.
Achar que alguns caçadores e burocratas representam o gosto de uma nação inteira é preguiça. Comer carne de baleia no Japão de hoje é ordens de magnitude mais raro do que muita gente imagina — bem menos comum, na prática cotidiana, do que várias carnes “exóticas” que passam batido no Brasil.
É um número pequeno de pessoas e de interesses que sustentam a atividade. O Japão tem mais de 120 milhões de habitantes; muitos detestam a prática e protestam. Como em qualquer país, a política pública e a lei não são a vontade unânime de cada cidadão.
Você vai julgar uma nação inteira por causa de um setor, de lobbies e de um debate legislativo? O que mais de cem milhões de japoneses têm a ver com isso? Por que o microfone do ódio aponta quase só para o Japão e raramente para outros países que também caçam ou consomem?
Notícias sensacionalistas, sem nuance, feitas para cliques, alimentam esse ódio. A mesma lógica distorce conversas sobre suicídios e sobre o preconceito no Japão: um recorte vira carimbo de um povo inteiro.
Lembre-se do ditado: tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão. Antes de xingar um país inteiro por destruição da natureza, pergunte: o meu não faz o mesmo — ou pior — em outros frentes? Quem sou eu para transformar algumas pessoas e uma política em retrato de todos?
Depois a mesma gente reclama quando o próprio país ganha fama ruim por causa de “alguns”. Você não está fazendo a mesma coisa? Vivemos rodeados de ignorância, desinformação e hipocrisia; não ajude a espalhar. Somos contra a caça às baleias — e também contra o ódio preguiçoso e a polêmica fabricada.
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