As primeiras imagens do Japão ainda mandam a gente para Tóquio e Osaka. Fora do concreto, o arquipélago é ilha, pântano, rio gelado e bicho que não existe em mais nenhum mapa — vários deles já foram dados como perdidos.
O grou que vira papel no senbazuru saiu da lista de ameaçados do Ministério do Meio Ambiente em 2026. O gato selvagem de Iriomote, no extremo sul de Okinawa, segue numa conta de cerca de cem indivíduos. Entre milagre e fio da navalha, a fauna japonesa nunca foi o cartão-postal de floresta intocada que a gente imagina da janela do shinkansen.
O arquipélago ainda reúne cerca de 130 mamíferos terrestres, mais de 600 espécies de aves, cerca de 73 de répteis e mais de três mil tipos de peixes. Na lista vermelha nacional, o número de espécies ameaçadas passa de 3.700.
Sumário 5
Albatroz-de-cauda-curta, o ahōdori
Os albatrozes da família Diomedeidae passam a vida em alto-mar e só voltam à terra na época de acasalamento. São monogâmicos, formam colônias e cruzam milhares de quilômetros com pouco bater de asa. Nos pés, os dedos virados para a frente e unidos por membrana ajudam a nadar, pousar e decolar na água. Têm ainda uma glândula de sal que tira o excesso de cloreto de sódio do sangue — o corpo de quem bebe oceano.
No Japão, o nome que importa é ahōdori (アホウドリ): o albatroz-de-cauda-curta, Phoebastria albatrus. Existem outros, como o de patas-negras e o de Laysan, mas é o ahōdori que o Japão passou o século tentando trazer de volta. A caça pelas penas, no fim do século XIX e começo do XX, esvaziou as colônias. Em 1949 a espécie chegou a ser dada como extinta. Em 1951, dezenas de aves reapareceram na ilha vulcânica de Torishima, no arquipélago de Izu, a uns 600 km ao sul de Tóquio.

O Instituto Yamashina de Ornitologia estima que, na temporada de reprodução 2025–26, Torishima tinha 11.067 ahōdori e 1.591 filhotes. Em 1990 a conta andava perto de 1.200 aves; em 2010, cerca de 2.570. A recuperação veio de décadas de manejo na ilha — inclusive bonecos para atrair casais para terreno mais seguro — e de tentativas de abrir outra colônia em Mukojima, nas Ogasawara, porque Torishima continua sendo um vulcão.
Mesmo com o número alto, a espécie segue vulnerável na lista vermelha japonesa. Para sair de vez da zona de perigo, o Japão precisa de colônias estáveis fora de Torishima. O apelido ahōdori, “pássaro tolo”, veio da fama de deixar o homem chegar perto. Tolo foi quem caçou; o que sobrou é o trabalho longo de quem resolveu não deixar a espécie sumir de novo.
Baleia-azul
A baleia-azul é o maior animal do planeta. Uma fêmea grande passa de 25 metros e pode chegar a cerca de 180 toneladas. Como tudo nela é grande, a fome também é: um adulto consome toneladas de krill por dia. O canto, que a gente não ouve, é um dos sons mais altos de um animal; em água boa, o gemido de baixa frequência atravessa centenas de quilômetros.
Ela não é um bicho “do Japão” no sentido do gato-de-iriomote. É oceano. Entra nesta lista porque a história da quase extinção passa pelos portos e pelos arpões do Pacífico, e porque o Japão foi — e ainda é — um dos países onde a caça à baleia não saiu do debate. A queda começou a sério em 1864, quando o norueguês Svend Foyn armou o navio com o arpão explosivo feito para pegar baleia grande.

Na década de 1920, Estados Unidos, Reino Unido e Japão se juntaram à Noruega na matança industrial. Em poucos anos, dezenas de milhares de baleias-azuis caíram. Depois da Segunda Guerra, o estoque já estava no osso; a Comissão Baleeira Internacional nasceu em 1946, e a proteção de verdade da azul só se consolidou nos anos 1960. A UICN ainda classifica a espécie como ameaçada, com uns 5 mil a 15 mil adultos no mundo e tendência de alta — longe dos números de antes da caça, mas também longe da conta antiga de “três ou quatro mil” que ainda aparece em muita página.
O Japão caçou baleia-azul na costa até essa virada. O que o país caça hoje, com cota e polêmica, são outras espécies. A azul ficou como cicatriz: o maior animal da Terra quase virou estatística de porto.
Grou japonês, o tanchō
O grou-da-coroa-vermelha — tanchō (丹頂), Grus japonensis — é a ave que o Japão desenha em kimono e dobra em papel. Vive no leste da Ásia; no arquipélago, o núcleo está nos pântanos do leste de Hokkaido. Pode passar de 1,4 metro de altura, com envergadura perto de 2,4 metros, e o casal costuma ficar junto a vida toda.
A população japonesa não é o grou migratório da Sibéria que some no inverno. Em Hokkaido ela é, em boa parte, residente: no verão se espalha pelos pântanos para nidificar; no inverno se concentra perto das vilas, onde a alimentação suplementar ajudou a espécie a não morrer de fome. A fêmea põe em geral dois ovos; na prática, um filhote é o que costuma chegar à idade adulta.

Em 1952 restavam 33 aves no inverno de Kushiro. Caça e o fim dos pântanos tinham empurrado o tanchō para o quase nada. Com proteção, alimentação de inverno e o status de tesouro nacional especial, a conta subiu. Uma pesquisa de inverno no fim de janeiro de 2025 encontrou 1.927 grous; o Ministério do Meio Ambiente, ao rever a lista em março de 2026, falou em cerca de 1.200 adultos selvagens e tirou a espécie da categoria de ameaçada, passando-a a quase ameaçada. O risco de extinção, no papel, ficou baixo. O risco de atropelamento, choque com fio e briga por espaço com o arrozal, não.
Por isso o tanchō continua nesta página. Não é mais o cartaz de espécie à beira do fim. É o caso em que a proteção funcionou — e em que o bicho agora precisa conviver com gente em Hokkaido, lado a lado com outros animais nativos da ilha. No papel, o grou segue sendo o tsuru das lendas e do origami. No pântano, ele já não cabe no cartaz de “à beira do fim”.
Gato-de-iriomote
Dois números que não cabem na mesma história: cerca de 1.200 grous adultos em Hokkaido depois de décadas de proteção, e cerca de 100 gatos-de-iriomote na única ilha onde o felino existe.
O gato-de-iriomote — Iriomote-yamaneko (西表山猫) — vive só na ilha de Iriomote, no extremo sul do arquipélago de Ryukyu, Okinawa. É o menor habitat de um felino selvagem no planeta. Ficou conhecido em 1965 e foi descrito em 1967; desde então já nasceu ameaçado. Hoje se trata como subespécie do gato-leopardo, Prionailurus bengalensis iriomotensis, o que não muda o fato de que, na prática, aquele gato só existe ali.
São bichos noturnos, sobem em árvore e nadam. Comem o que a ilha dá: mamífero, ave, réptil, sapo, até peixe. A população, nas contagens oficiais que o Japão ainda cita, gira em torno de 100 a 109 animais. Tesouro nacional especial, espécie nacional ameaçada, lista vermelha no grau mais grave. O que mais mata é estrada. Em 2018, nove gatos morreram atropelados — quase um décimo da espécie num ano. Em 2023 e 2024, com limite de velocidade, passagens e fiscalização, a ilha registrou zero morte no asfalto. Um alívio frágil. Turismo cresce, gato doméstico compete, e a mata baixa da costa é exatamente o pedaço que o yamaneko usa para caçar.

O Japão tem outro felino no mesmo aperto, o gato de Tsushima. Os dois são o que restou de gato selvagem no país. Iriomote virou patrimônio da UNESCO junto com outras ilhas de Ryukyu; o parque ajuda, mas o gato ainda atravessa a única estrada grande da ilha. Aqui a extinção não é memória. É a próxima curva mal iluminada.
Salamandra-gigante do Japão
A salamandra-gigante-do-Japão — ōsanshōuo (オオサンショウウオ), Andrias japonicus — não se parece com o lagartinho de jardim. É o segundo maior anfíbio do planeta, atrás da prima chinesa, e pode chegar a cerca de 1,5 metro. Vive em rios frios do oeste do Japão, em Honshu, Shikoku e parte de Kyushu. Sai de noite. O nome japonês, diz uma teoria, vem do cheiro do muco, parecido com o da pimenta sanshō.
Foi tesouro nacional especial em 1952, depois de ter ido para a panela. A UICN a trata como vulnerável: rio canalizado, barragem, água suja e, agora, hibridização com salamandras-gigantes chinesas soltas no Japão. Não há um censo redondo de quantas restam. O que há é um animal que muda pouco há dezenas de milhões de anos e que, mesmo assim, depende de um rio que o homem insiste em concretar.
Parte desses rios corre dentro ou na beira de parques nacionais. A proteção no papel existe. O ōsanshōuo continua no recado mais literal da fauna japonesa: a cidade já chegou no leito do rio.
Os cinco casos não contam a mesma história. O ahōdori passou de “extinto” para mais de dez mil aves numa ilha. O tanchō saiu da lista. A baleia-azul sobe devagar num oceano que já não é o do arpão de 1864. O gato-de-iriomote e a salamandra mostram o outro lado: cem felinos, um rio quebrado, um atropelamento. A fauna japonesa ameaçada não é mascote de folclore. É ilha, asfalto e a decisão de reduzir a velocidade na curva.
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