Furoshiki - O charmoso embrulho japonês

Furoshiki - O charmoso embrulho japonês

O pano que nasceu no banho e hoje carrega presente, marmita e até duas garrafas.

O nome furoshiki [風呂敷] já conta metade da história: furo (banho) e shiki (estender). Era o pano que se abria no chão da casa de banho — e, no caminho de volta, virava embrulho das roupas.

Com o tempo, o mesmo quadrado passou a carregar presente, livro, marmita e até duas garrafas juntas. Não existe um tamanho único: há panos de mão e panos de quase dois metros. A dobra que funciona num lenço de seda também funciona num pedaço de chita.

Sumário 6

Piquenique entre as flores

Seguindo a trilha das cerejeiras, no mês de abril, em um vilarejo chamado Shirakawago, encontrei pela primeira vez o simpático furoshiki. Trata-se de um quadrado de pano no qual as pessoas embrulham tudo: presentes, caixas, garrafas, livros, obentôs (marmitas) e o resto do piquenique.

Além de todo detalhe artístico que faz diferença no embrulho, ele pode ser transformado em um cantil, uma bolsa de mão ou a tiracolo. Um furoshiki pequeno, bem enroladinho, pode imitar uma flor, enfeitando um mimo (presente pequeno).

Vários tecidos furoshiki estampados, dobrados em quadrados coloridos

Os presentes são embrulhados em lindos tecidos florais, de preferência em seda. Para uso familiar, um tecido mais simples serve. Ao embrulhar um presente com furoshiki, você está dando dois presentes ao mesmo tempo — o objeto e o pano, que a pessoa pode reutilizar. Na etiqueta mais antiga de presentear no Japão, o tecido às vezes voltava com quem entregou; hoje, na maior parte das vezes, ele fica.

Os japoneses capricham em tecidos elaborados com padrões adequados para cada estação do ano. Na primavera, por exemplo, flores e filhotes de animais são os preferidos. As cores remetem ao feriado ou aos eventos da época.

Que tamanho de furoshiki usar

O pano é quase quadrado — um lado costuma ser um pouco maior, para o nó assentar. Os tamanhos mais comuns no comércio giram em torno de 45 cm e 70 cm; há ainda panos de 90 a 105 cm e peças grandes que passam de dois metros. Uma regra prática: o objeto cabe bem se ocupar cerca de um terço do tecido.

TamanhoUso mais comum
cerca de 45 cmobjetos pequenos, caixas miúdas, mimos
50 a 70 cmlivros, presentes do dia a dia e obentô; o de 70 cm é o mais versátil
90 a 105 cmbolsa, compras, uma ou duas garrafas
180 cm ou maisvolumes grandes — existem panos de 205 e 238 cm

O material tradicional é seda ou algodão; hoje também aparece raiom, náilon e poliéster. Algodão segura nó no dia a dia. Seda entra em ocasião mais formal. Não confunda com o tenugui: aquele é retangular, mais fino, sem bainha, feito para enxugar e enfeitar. O furoshiki é o quadrado de carregar e embrulhar.

Coisas para fazer com os lenços furoshiki

A arte de embrulhar com panos japoneses abre um monte de saídas. O furoshiki costuma vir com desenhos tradicionais ou com shibori, a técnica de tingimento por amarras.

Com um único quadrado dá para fazer bolsa de argola, suporte para garrafas, saco de livros, cesta de frutas, embrulho de presente com laço, bolsa de verão, porta-vaso e lancheira. O mesmo pano muda de ofício conforme o nó.

Veja abaixo diversas técnicas sendo aplicadas em um furoshiki:

Furoshiki amarrado em vários formatos, inclusive bolsa e embrulho

Três nós que resolvem o dia a dia

Não é preciso decorar dezenas de dobras para começar. Três já cobrem presente, garrafa e objeto redondo.

  • Otsukai tsutsumi (お使い包み) — o embrulho básico de recado. O objeto vai no centro, dois cantos opostos se encontram por cima e o nó fica aparente, como um laço.
  • Bin tsutsumi (瓶包み) — feito para uma ou duas garrafas. O tecido sobe pelo gargalo e os cantos viram alça, então dá para levar saquê ou vinho sem caixa.
  • Suika tsutsumi (西瓜包み) — o “embrulho de melancia”: quatro cantos sobem em objeto redondo ou oval e o nó segura o volume sem achatar.

O Ministério do Meio Ambiente do Japão chegou a publicar um folheto com 14 dobras. A lógica é a mesma: o pano não tem forma fixa; quem dá a forma é o nó.

A história e a origem do furoshiki

O ancestral do furoshiki aparece no período Nara (710 a 794) como tsutsumi, pano para proteger objetos preciosos de templo. No período Heian (794 a 1185), a nobreza usou o tecido — às vezes chamado hiratsutsumi — para acondicionar roupas. O nome furoshiki pegou no período Muromachi: nas casas de banho, cada um espalhava o pano no chão, identificava os pertences e depois embrulhava tudo de volta. Nos onsen, essa ainda é a imagem mais fácil de entender o nome.

No período Edo o pano virou coisa de comerciante e de gente comum: mercado, ferramenta, presente, marmita. No século 20, papel e plástico baratos empurraram o furoshiki para o fundo do armário. Em 2006, a então ministra do Meio Ambiente, Yuriko Koike, apresentou o Mottainai Furoshiki — um pano feito com fibra de garrafa PET reciclada — para lembrar que desperdiçar embalagem é mottainai, uma pena.

Qualquer toalha de mesa, guardanapo ou pedaço estampado de chita, até uma canga de praia, pode virar bolsa ou embrulho se o tecido aguentar o nó. Não precisa comprar o pano “certo” para experimentar a dobra.

Fica o convite para conhecer as formas, da mais simples até a mais elegante, de amarrar o furoshiki. É um jeito artístico, elegante e simpático de carregar e guardar as coisas — e de presentear sem jogar papel fora no dia seguinte.

Vídeos e tutoriais sobre furoshiki

Um bom ponto de partida é o tutorial da Japan House São Paulo, que mostra o quadrado virando embrulho e bolsa na prática:

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

Comunidade

Comentários

0 comentários

Ainda não há comentários publicados neste idioma.

Enviar um comentário

Comente este artigo

Verificação anti-spam

Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.