Dia dos pais no Japão - Chichi no Hi

Como e por que o terceiro domingo de junho virou um dia familiar discreto no Japão.

O Dia dos Pais no Japão é celebrado no terceiro domingo de junho, em um tom bem mais discreto do que em outros países. O nome em japonês é chichi no hi (父の日), e a data costuma ser vivida de forma muito mais reservada do que, por exemplo, nos Estados Unidos: nada de grandes churrascos, nada de desfiles públicos, é mais um momento familiar tranquilo com um cartão, um presentinho ou uma refeição compartilhada com o pai.

A tradição se consolidou por volta de 1950. As famílias geralmente homenageiam o pai e o sogro com presentes modestos, como gravatas, uma garrafa de uísque ou saquê, o aperitivo preferido dele ou simplesmente algo que o pai goste. Algumas crianças dão um desenho ou um origami, outras levam um buquê pequeno. Quando a família quer sair, jantar em um restaurante de yakiniku ou em um lugar que sirva carne wagyu continua sendo uma escolha comum, e um copo de saquê compartilhado costuma fechar o dia.

Pai e filha vestidos com roupas tradicionais japonesas em comemoração de família

Contexto histórico: da YMCA de Tóquio a um hábito nacional

O Dia dos Pais no Japão é uma tradição relativamente recente. A raiz está nos Estados Unidos, onde Sonora Smart Dodd promoveu o primeiro Father's Day em Spokane, em 1910. No Japão, um grupo de estudantes da YMCA de Tóquio pegou a ideia; a maioria das fontes situa o começo em 1949 ou 1950. O modelo era o haha no hi (母の日, Dia das Mães), introduzido em 1931. No início dos anos 1960, o chichi no hi já tinha se espalhado por todo o país, e continua sendo celebrado até hoje de modo claramente mais discreto do que em muitas outras culturas.

Em comparação com o Dia das Mães, o Dia dos Pais sempre foi o mais calmo dos dois. O Dia das Mães é um grande mercado no Japão, com vendas de cravos que disparam no começo de maio e campanhas de marketing pesadas em torno da data. O Dia dos Pais nunca chegou a esse nível, mas isso não significa que as famílias esqueçam: muita gente prepara um presentinho com antecedência e marca uma refeição em família para celebrar.

A tentativa da YMCA de Tóquio nos anos 1940: criar um lugar para o pai ao lado do Dia das Mães

O período em que o grupo de estudantes da YMCA de Tóquio tentou introduzir o Dia dos Pais no Japão, entre 1949 e 1950, está ligado ao clima social do pós-guerra. A YMCA já era a organização que tinha apresentado o Dia das Mães, haha no hi, à sociedade japonesa, e usou esse modelo para argumentar que também fazia falta um dia separado para homenagear o pai. O nome proposto desde o início foi chichi no hi, e a escolha do terceiro domingo de junho foi pensada para ficar perto do Dia das Mães, porém com cerca de um mês de distância, equilibrando a homenagem ao casal.

A YMCA não copiou simplesmente o caso americano. Naquela época, o pai japonês dos anos 1940 era visto como alguém que trabalhava longas horas para alimentar a família durante a reconstrução do pós-guerra, e os jovens da YMCA entenderam que faltava um dia para dar visibilidade a essa figura. A ideia pegou devagar: só no início dos anos 1960 o chichi no hi virou mesmo um hábito nacional.

O papel dos pais no Japão

Os pais no Japão são como os de qualquer outro país: alguns são brincalhões, outros são quietos, sérios ou bravos. Como qualquer pai, eles querem ver os filhos crescerem bem e se sentir orgulhosos do que eles se tornam. É comum que o pai japonês trabalhe longas horas e, por isso, nem sempre consiga estar presente em todos os momentos da rotina da casa. Alguns japoneses já me contaram que veem o pai apenas três vezes por semana — uma média que, claro, não dá para generalizar. Na casa em que me hospedei no Japão, vi um pai que tirava bastante tempo para cuidar e brincar das filhas, uma cena linda que eu raramente presenciei na rotina daqui.

Outros pais acabam ficando mais ausentes, mas em geral continuam sustentando os filhos mesmo depois de adultos. Quando isso vira um problema, pode gerar casos de hikikomori ou de NEET. Existe também o perfil clássico de pai que quer definir o destino e o caminho do filho, muitas vezes orientando o jovem a seguir ou continuar a carreira da família. Esses modelos não esgotam a realidade, mas mostram como o papel paterno no Japão varia muito de família para família.

O simbolismo do cravo

Assim como o Dia das Mães, o Dia dos Pais no Japão tem uma flor símbolo: o cravo. A tradição veio dos Estados Unidos, onde Anna Jarvis escolheu o cravo branco para homenagear a própria mãe em 1908, e a flor acabou entrando no Dia dos Pais japonês na mesma época em que a data se popularizou, nos anos 1950. A leitura é simples: o cravo carrega a ideia de respeito e de amor silencioso, e por isso combina com a forma discreta como os japoneses costumam demonstrar carinho pelo pai.

Existe também uma diferença de cor com significado. O cravo vermelho é o mais comum e costuma representar o pai que está vivo; o cravo branco é reservado para homenagear pais que já faleceram. Em algumas famílias da região de Kansai, é tradicional colocar cravos vermelhos e brancos juntos no mesmo arranjo, em memória de avôs e pais. Já na região de Kanto, é mais comum ver o cravo amarelo, ligado à ideia de gratidão. Não há uma estatística oficial que confirme essa preferência regional: é uma diferença de costume que se observa na prática, sem virar regra.

Presentes tradicionais

Os presentes mais comuns no Dia dos Pais no Japão seguem a ideia de agradecimento discreto. A gravata é um clássico, porque é algo que o pai usa no trabalho e lembra dele em vários dias da semana; uma garrafa de uísque, saquê ou shochu é outra escolha frequente, especialmente para pais que apreciam uma bebida no fim do dia. Para quem quer algo mais leve, vale apostar em uma caixa de snacks favoritos, um jogo de meias de boa qualidade ou um item de cuidados pessoais, como espuma de barbear ou perfume.

As crianças costumam entrar na festa com cartões feitos à mão, desenhos e origamis, em vez de algo caro. Há também a opção de presentear com flores: um buquê pequeno, ou mesmo uma única flor, já cumpre o papel. O valor gasto costuma girar entre 3.000 e 10.000 ienes, algo em torno de 200 a 700 reais em conversão direta, mas o número exato varia muito de família para família. Quem quer tornar o presente mais útil pode combinar o mimo com uma mensagem escrita à mão, algo que, na cultura japonesa, costuma valer mais do que o objeto em si.

A refeição em família

Muitas famílias japonesas aproveitam o terceiro domingo de junho para fazer uma refeição especial. As opções mais comuns são sair para jantar em um restaurante de yakiniku, já que grelhar a carne junto com o pai costuma ser uma atividade descontraída para todas as idades, ou então reservar uma mesa em um restaurante que sirva wagyu, para quem quer tornar a ocasião mais marcante. Outra escolha popular é levar o pai para comer sushi, sashimi ou em um izakaya, onde dá para compartilhar vários pratos e pedir saquê ou cerveja.

Para quem prefere comer em casa, também existe a opção de comprar um bentō especial de Dia dos Pais em lojas de conveniência e supermercados. Grandes redes como a Sukiya e a Yoshinoya costumam lançar pratos temáticos nessa época, com decoração e embalagem personalizada. Algumas famílias chegam a cozinhar juntas, deixando a criança ajudar a preparar o prato preferido do pai, em uma espécie de versão caseira do presente.

Dia dos Pais no mundo

O Dia dos Pais existe em quase todos os países, mas a data e o peso da comemoração variam bastante. Nos Estados Unidos e no Canadá, é no terceiro domingo de junho, mesma data do Japão, com vendas de cartões, camisetas e churrascos enormes. No Brasil, é celebrado no segundo domingo de agosto, com forte apelo comercial e até a famosa campanha para que os pais paguem a conta do churrasco. No México, é sempre no terceiro domingo de junho, com valores parecidos com os do Japão. Já em Portugal, a data é fixa: 19 de março, dia de São José.

Na Alemanha, é chamado de Vatertag e é celebrado 40 dias depois da Páscoa, coincidindo com a Ascensão de Jesus; virou praticamente um feriado informal, em que grupos de pais saem para passear de bicicleta com carrinhos de bebida. Na Itália, é em 19 de março, dia de São José, com o tradicional doce zeppole. Na França, a data é o terceiro domingo de junho, mas com vendas de cartões que rivalizam com o Dia das Mães. Na Rússia, o Dia dos Pais só foi oficialmente reconhecido em 2021, embora a comemoração informal já existisse antes. No mundo todo, a ideia é parecida: dar um momento especial para o pai, mesmo que a forma mude bastante de cultura para cultura.

Frases úteis em japonês

Se você quer usar a data como desculpa para aprender um pouco de japonês, vale decorar algumas frases simples. A expressão mais direta para parabenizar é chichi no hi omedetou gozaimasu (父の日おめでとうございます), que funciona tanto no cartão quanto em uma mensagem falada. Para um registro mais afetuoso, dá para dizer otousan, itsumo arigatou (お父さん、いつもありがとう), algo como "pai, obrigado por tudo". Outra opção carinhosa é kazoku de ite kurete arigatou (家族でいてくれてありがとう), ou seja, "obrigado por estar com a gente como família".

Em japonês, é importante lembrar a diferença entre as palavras para "pai". Existem duas formas principais: 父 (chichi), usada para se referir ao próprio pai, e お父さん (otousan), usada para falar do pai de outra pessoa ou em um tom mais respeitoso dentro de casa. Crianças pequenas costumam chamar o pai de パパ (papa), uma forma emprestada do inglês que se espalhou pelo Japão no século XX e hoje é perfeitamente natural em qualquer família. No Dia dos Pais, dá para usar as três formas, basta ajustar o registro conforme a situação.

O debate comercial em torno da data

Apesar de ser menos badalado que o Dia das Mães, o Dia dos Pais no Japão também é alvo de uma discussão comercial. As associações de consumidores costumam lembrar que o presente não precisa ser caro para ser significativo, e que vale mais um cartão escrito à mão do que um item caro comprado por obrigação. Por outro lado,商家業者 (setores do varejo) defendem que a data ajuda a movimentar a economia em uma época do ano em que as vendas costumam ser mais fracas, no meio do calendário entre a Páscoa e o verão.

A discussão também passa por uma questão cultural: no Japão, demonstrar afeto de forma exagerada não é muito comum, e muitas pessoas ficam divididas entre seguir a tendência comercial e manter o tom discreto da data. Famílias que preferem um caminho mais sóbrio costumam investir em uma refeição em casa ou em um passeio curto com o pai, em vez de gastar com grandes presentes. No fim, o que pesa mesmo é a intenção, não o valor da embalagem.

Comemorar no Japão como visitante

Se você estiver no Japão durante o terceiro domingo de junho, dá para entrar no espírito da data mesmo sendo visitante. Restaurantes de yakiniku e izakayas costumam ficar mais movimentados nesse fim de semana, então vale reservar com antecedência. Lojas de departamento como Isetan, Mitsukoshi e Takashimaya montam ilhas especiais com presentes para o Dia dos Pais, de gravatas a eletrônicos, e a visita rende boas fotos mesmo que você não vá comprar nada.

Para quem quer levar uma lembrança afetiva para o pai no Brasil, o cravo é a escolha mais simbólica e fácil de achar. Buquês pequenos custam a partir de 500 ienes em floriculturas, e cravos soltos podem ser prensados e guardados como recordação. Outra ideia é aproveitar a data para experimentar o costume local: comer wagyu em um restaurante tradicional, tomar um saquê em um izakaya antigo ou visitar um jardim japonês em família. Pequenos gestos, do jeito que o Japão gosta.

Outras comemorações familiares no Japão

O chichi no hi faz parte de um calendário japonês cheio de datas ligadas à família. Em maio, o Kodomo no Hi (子どもの日) celebra as crianças, com carros de carpas coloridas koinobori e o boneco kintarō nas casas. Antes dele, em maio também, vem o Haha no Hi (母の日), o Dia das Mães, com cravos vermelhos e campanhas comerciais pesadas. Em março, o Hatsu Koi marca o início da temporada romântica, que segue com o Valentine's Day em 14 de fevereiro, quando as mulheres dão chocolates aos homens, e o White Day em 14 de março, quando os homens retribuem o gesto com doces brancos.

Para fechar o calendário, em novembro acontece o Shichi-Go-San (七五三), que celebra crianças de 3, 5 e 7 anos com visitas a templos xintoístas e fotos em quimono. É mais um momento em que a família japonesa se reúne para celebrar uma fase da vida. No fim, todas essas datas compartilham o mesmo espírito do Dia dos Pais: marcar a ocasião com discrição, respeito e um gesto que traduza carinho real, sem precisar de exageros.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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