Já se perguntou por que os personagens de mangás e animes têm olhos grandes? A pergunta aparece bastante, principalmente entre pais que desconfiam de algum mistério escondido nesse traço. A história é mais antiga do que parece, e começa com animações americanas que já usavam olhos enormes.
Existem várias explicações para os olhos grandes, e quase todas ajudam a entender o resultado. Eu pessoalmente acredito que a moda pesa bastante: alguém desenhou um par de olhos marcante, o público reagiu e outros artistas copiaram o que funcionava. O efeito manada explica boa parte da repetição, mas não tudo. Há também motivos históricos, estéticos e práticos.
Quanto mais infantil o estilo do anime, maior tende a ser o olho. Animes de comédia e personagens chibi são os exemplos mais claros.

Sumário 5
De onde vêm os olhos grandes do mangá e do anime?
Muito antes de o mangá e o anime se tornarem conhecidos fora do Japão, a animação americana já usava olhos grandes. Os estúdios Disney criavam personagens assim, como Mickey Mouse. Betty Boop, que apareceu em 1930 nos curtas dos Fleischer Studios, seguia a mesma direção: rosto redondo, olhos enormes e um ar ao mesmo tempo infantil e adulto. Ela costuma ser lembrada ao lado de Mickey, embora tenha sido criada nos Fleischer Studios.
Osamu Tezuka, chamado de deus do mangá pela influência que teve sobre a linguagem dos quadrinhos japoneses, cresceu assistindo a essas animações. Ele era fã dos filmes da Disney e, segundo relatos, assistiu a Bambi mais de 80 vezes. A mãe também o levava ao Takarazuka Revue, uma companhia formada só por mulheres, cuja maquiagem e olhos brilhantes marcaram o imaginário dele. Essa mistura de repertório ocidental e teatro japonês aparece no jeito como ele desenhava olhos e expressões.
O grande salto veio com Astro Boy, mangá lançado em 1952. A série de televisão de 1963 ajudou a firmar o anime na TV japonesa e levou o traço de Tezuka para um público muito maior. Muitos mangakás que vieram depois se inspiraram no modelo, e os olhos grandes passaram de escolha individual a convenção.
Tezuka não inventou o mangá nem a animação japonesa, mas deu a essas linguagens a forma que se espalhou pelo mundo. O mangá já existia havia décadas, e artistas anteriores já usavam olhos grandes. Yumeji Takehisa (1884-1934) desenhava mulheres de olhos expressivos em ilustrações, capas e cartões-postais nas décadas de 1910 e 1920. Katsuji Matsumoto (1904-1986) levou rostos redondos e olhos grandes para as revistas femininas, com a série Kurukuru Kurumi-chan, publicada entre 1938 e 1940.

Como o rosto do mangá moderno se formou
O rosto que hoje reconhecemos como mangá, com olhos grandes, nariz pequeno e queixo pontudo, se formou aos poucos, em obras diferentes. O historiador de quadrinhos Eike Exner aponta que o padrão se firmou no trabalho de Macoto Takahashi e Tetsuya Chiba. Takahashi desenhava garotas elegantes para revistas e manteve os olhos grandes com um acabamento mais refinado. Chiba levou o nariz pontudo e os olhos expressivos para as revistas shōnen no início dos anos 1960.
O mangá shōjo levou esse visual ao extremo, com íris em camadas, brilhos em forma de estrela e cílios marcados. O termo japonês dekame (デカ目), algo como "olhos enormes", é usado para esse estilo. Nesse estilo, o olho passou a servir à emoção e à beleza ao mesmo tempo.
Todos os personagens japoneses têm olhos grandes?
Não. A impressão de que todo personagem tem o mesmo rosto vem dos exemplos mais visíveis. Gundam, os filmes do Studio Ghibli e muitas séries da Jump usam olhos e formatos de rosto diferentes. Há personagens de olhos pequenos e nariz grande, e outros que quase não têm nariz.
Uma versão muito repetida diz que tudo começou com Bambi, de 1942. O filme realmente marcou Tezuka, e os cervos são presença comum em cidades como Nara. A influência é plausível, mas limitada: os olhos grandes já apareciam nos quadrinhos japoneses antes disso.
Nos anos 1990, algumas produções buscaram rostos mais realistas, com olhos menores e narizes mais definidos. Filmes como Ghost in the Shell (1995) e Perfect Blue (1997) mostraram que essa proporção funciona. O estilo arredondado continuou forte, porque os dois caminhos atendem a tipos diferentes de história.

Por que o tamanho dos olhos é importante na animação?
O olho pode ser grande, médio ou pequeno, mas o que importa é que ele se destaque no rosto. Os olhos são as janelas da alma: por meio deles o espectador entende raiva, medo, tristeza ou alívio antes de o personagem dizer qualquer coisa. Em um rosto desenhado, poucos elementos carregam tanta informação.
Olhos maiores dão mais espaço para representar emoção. A posição, o formato, a cor da íris e os reflexos permitem mostrar personalidade sem diálogo. O animador muda uma linha e o clima da cena muda junto.
A produção de anime para TV também se beneficia disso. A animação limitada repete desenhos e mantém quadros por mais tempo, economizando movimento. Nesse sistema, um olho detalhado segura a atenção e transmite o momento emocional sem exigir que o corpo inteiro seja redesenhado.

Esse foco no olhar também disfarça partes mais simples. Uma página de mangá pode ter um rosto muito detalhado e um cenário apenas esboçado. Na animação acontece algo parecido: quando os olhos prendem o espectador, o resto do quadro pode ser mais econômico.
Os olhos grandes ajudam a entender a reação de um personagem sem precisar de diálogo.
Outros motivos para os olhos grandes
Olhos grandes também correspondem a um ideal de beleza. No Japão, maquiagem, cílios postiços e lentes coloridas são usados para ampliar o olhar. A cultura kawaii, que ganhou força nos anos 1970, transformou essa preferência em linguagem visual e ajudou a popularizar personagens de olhos arredondados.
Há ainda uma explicação biológica. Bebês têm olhos grandes e rosto redondo, e os humanos tendem a reagir a essas características com cuidado e afeto. O etólogo Konrad Lorenz chamou esse conjunto de traços de Kindchenschema, o esquema do bebê. Animadores usam esse efeito de propósito: o personagem parece mais jovem, mais vulnerável e mais fácil de gostar.
O efeito alcança leitores adultos também. Um personagem de olhos grandes pode tocar a criança interior do espectador, inclusive em uma obra seinen. Em histórias mais pesadas, o rosto estilizado cria distância do realismo e permite tratar violência e outros temas delicados sem que a cena pareça literal.

Dentro de uma mesma série, o tamanho dos olhos muda de personagem para personagem. Em Hunter x Hunter, Gon e Killua têm olhos redondos e abertos, enquanto Hisoka aparece com o rosto mais estreito e os olhos menores. Às vezes um personagem tem nariz e outro quase não tem. O desenho acompanha a personalidade e a cena, não uma regra fixa.
Não existe conspiração demoníaca por trás dos olhos grandes, como alguns pais temem. O traço é um recurso artístico que se tornou uma marca do mangá e do anime, e também um clichê que aparece em jogos e outras mídias.
Qual série você acha que acerta ao desenhar personagens de olhos pequenos?






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