No Japão, anime [アニメ] pode ser qualquer desenho animado do planeta. Fora dele, a palavra virou quase um passaporte: traços, ritmo e histórias que saltam do mangá para a TV, o cinema e o streaming. Quem só conhece um ou dois títulos costuma achar que “é tudo igual” — e é aí que a conversa fica interessante.
Será que você realmente conhece os animes? Como nascem, por que viciam tanta gente e por que ainda dividem opinião no Brasil? Abaixo, o essencial sobre origem, produção, gêneros e o impacto cultural desses desenhos japoneses — sem tratar o tema como um único bloco genérico.
Sumário 9
O que significa Anime?
Anime [アニメ] é a palavra japonesa derivada do inglês “animation”. Os japoneses usam anime para se referir a qualquer desenho, seja ocidental ou japonês. Já os ocidentais geralmente reservam a palavra para as animações produzidas no Japão.
Para muita gente no Ocidente, “anime” ainda carrega um pacote de traços, temas mais maduros e convenções visuais. Por isso há quem hesite em chamar de anime obras japonesas sem esse “pacote”, como Sazae-san, que roda há décadas com outro ritmo e outra cara.
Anime é forma abreviada; sem a abreviação, o correto seria animeeshon [アニメーション]. Abreviações no japonês escrito e falado são comuns, então o uso de “anime” é o esperado no dia a dia.

Qual é a origem dos animes?
As primeiras animações comerciais japonesas surgem no início do século XX (por volta de 1917), e não no XIX. O estilo de anime que o mundo reconhece hoje amadureceu sobretudo a partir dos anos 1960, com forte influência do mangá moderno e, no pós-guerra, do contato com a cultura pop americana.
Osamu Tezuka, com a obra Astro Boy [鉄腕アトム], ajudou a fixar essa identidade visual e narrativa. Em 1º de janeiro de 1963, a série de TV de Astro Boy (Mushi Production / Fuji TV) popularizou o formato semanal de cerca de meia hora que ainda hoje estrutura grande parte da indústria. Em 1967 o Japão já exportava e produzia títulos como “A Princesa e o Cavaleiro”, “Fantomas” e Speed Racer.
Nessa época os quadrinhos japoneses já dominavam o mercado editorial local; era questão de tempo para filmes e séries animadas se multiplicarem. Robôs, heróis e enredos serializados passaram a marcar gerações de séries.

Qual foi o primeiro anime a ser feito?
Muitos acreditam que o “primeiro anime” foi Astro Boy — mas a resposta depende do que se chama de “primeiro”.
Hakujaden (A Lenda da Serpente Branca) estreou em 22 de outubro de 1958 e foi a primeira produção da Toei Animation lançada em circuito comercial de longa-metragem colorida. Antes dela, o Japão já tinha curtas e filmes animados, em geral sem o “pacote” visual que o Ocidente associaria depois ao anime de TV.
Para televisão, a história é outra: há registros de animações televisivas anteriores, e a série de Astro Boy (1963) é o marco que consolidou o anime semanal de sucesso. Entre os candidatos a animação japonesa muito antiga está o fragmento Katsudō Shashin (por volta de 1907), com um menino de marinheiro — data e autoria ainda discutidas por pesquisadores. Também há menções a obras como Momotarō e outras animações pré-Toei.
Em resumo: curtas e experimentos no começo do século XX; longas e TV a partir de meados do século; e a “cara” global do anime de série ligada, em grande parte, a Tezuka e aos anos 1960. Há também listas de animes por estúdio e ano de lançamento para quem quiser explorar a linha do tempo com calma.
Como são criados os animes?
O Japão valoriza muito a leitura em massa, e um dos mercados mais fortes é o dos quadrinhos — o mangá — com estilo e traços próprios. Quando essa narrativa vai para a tela, nascem os animes, muitas vezes adaptando o mesmo universo.
Além dos mangás, existem as light novels e jogos no formato visual novel, que também viram adaptações com traços e públicos parecidos.
Só no país existem centenas de estúdios de animação (a ordem de grandeza passa de 400). A cada ano saem dezenas ou centenas de títulos novos em TV, streaming, filme e vídeo — e isso ainda é só uma fatia das histórias que existem em mangá, jogo e livro. O mercado não “acaba”: sempre sobra obra sem adaptação, e nem só mangá alimenta a esteira.

Como os animes são produzidos e lançados?
No calendário japonês de TV, os animes entram em temporadas: inverno (janeiro), primavera (abril), verão (julho) e outono (outubro). Cada temporada costuma encher a grade semanal; muitos títulos saem com 12 ou 13 episódios (1-cour). Outros chegam a 24 (2-cour) ou usam “split cour” — duas metades de 12 com intervalo no meio. Também há filmes, OVAs (especiais fora da grade de TV), especiais e, cada vez mais, originais para streaming (ONA).
O mercado se parece com o de séries e filmes: não há um único público. Muita produção mira adolescentes e adultos; animações infantis frequentemente usam traçado e tom diferentes, como em Doraemon. “Anime” não é sinônimo automático de conteúdo infantil.

Quais são os gêneros dos animes?
Quem acha que anime é “coisa de criança” confunde meio com demografia. As obras se dividem por público e por gênero, com histórias que vão da comédia leve ao drama denso — às vezes mais marcantes que muitos filmes live-action.
Há títulos que arrancam lágrima e outros que só pedem diversão. Para um mapa mais detalhado com recomendações, veja também o guia de gêneros e tipos de animes.
Shounen (garotos jovens) — foco em público masculino jovem, em geral com ação, luta, comédia e fantasia. Exemplos clássicos: One Piece e Naruto.
Shoujo (garotas jovens) — romance, drama escolar, musical e comédia com foco em leitoras e espectadoras jovens. Muitos homens também assistem; títulos conhecidos incluem Kimi ni Todoke, Maid Sama e Itazura na Kiss.
Kodomo (crianças) — voltado a crianças (por volta de 6 a 12 anos), com traços muitas vezes mais simples e tom educativo ou cômico. Ainda assim, obras como Doraemon e Sazae-san cruzam gerações — Sazae-san é um dos animes de maior longevidade da TV japonesa.

Mecha — robôs gigantes e pilotos, de Evangelion a Gundam e Code Geass.
Kemono — protagonistas animais, bestas, quimeras e afins.
Além disso, misturam-se rotulagens de trama: aventura, ação, ficção científica, comédia, esportes, drama, fantasia, romance; e temas recorrentes como escola, artes marciais, magia e terror. Gênero demográfico e gênero de história se cruzam o tempo todo.
Gêneros de animes para adultos
Anime é meio, não faixa etária única. Há um mercado enorme para adultos — e nem tudo se resume a conteúdo sexualizado. Alguns eixos comuns:
Seinen — público mais velho (em geral 20+), com histórias mais sérias ou realistas, mas também ação e comédia madura.
Josei — voltado a jovens e adultas, com dramas e romances de outro recorte que o shoujo escolar clássico.
Ecchi — apelo sexual leve a moderado (enquadramentos, roupas, humor picante), sem necessariamente ser pornográfico.
Hentai — termo usado no Ocidente para animação pornográfica explícita.
Yuri / shoujo-ai — relações afetivas entre mulheres; “yuri” costuma ser o rótulo mais amplo, enquanto “shoujo-ai” às vezes marca romances mais leves (uso popular, não lei rígida).
Yaoi / shounen-ai — relações afetivas entre homens; yaoi tende a ser o rótulo mais explícito no fandom ocidental, e shounen-ai o mais suave. Hoje também se fala muito em BL (boys’ love).

Os animes e a mídia
Animes, mangás, jogos e obras no mesmo ecossistema movimentam bilhões de dólares por ano. Em torno deles nascem roupas, brinquedos, cards, action figures e dezenas de outras linhas de merchandising.

Há dinheiro também em shows e discos: quase toda série traz abertura e encerramento cantados, que viram single, álbum e trilha. Bandas e seiyuus (dubladores) ganham projeção própria fora da tela.
O fandom — muitas vezes rotulado como otaku — sustenta lojas, letreiros, eventos e bairros inteiros. No Japão, Akihabara é o cartão-postal mais famoso, mas há outros bairros geek espalhados pelo país.
No exterior, licenças de mangá e dublagens de anime alimentam o mesmo ciclo de produtos, convenções e plataformas. A influência não fica só no Japão.

Desenhos japoneses no Brasil
No Brasil, anime já é parte do cotidiano de muita gente — e ainda assim gera atrito. Parte da resistência vem de um preconceito velho: tratar desenho como “coisa de criança”, recusar legenda ou achar que só existe o pacote de ação sobrenatural que a TV aberta e o cabo popularizaram.
Entre adultos, há quem reduza tudo a Yugioh, Dragon Ball ou Naruto e pare por aí — violência, “ocultismo”, “má influência”. Esquece-se a variedade de gêneros e demografia. Há inclusive quem misture animação japonesa com pânico moral genérico; o debate às vezes chega a tons religiosos, como em textos sobre a polêmica de achar que “tudo do Japão é do capeta”.

Historicamente, a TV brasileira privilegiou shounen de ação e fantasia. Hoje o mapa mudou: catálogos de streaming (com e sem dublagem), editoras de mangá como Panini, JBC e NewPOP, e eventos de cultura pop expandiram o que o público consegue achar sem depender só da grade antiga. Ainda assim, “anime no Brasil” continua sendo várias cenas ao mesmo tempo — fã de clássico dublado, leitor de mangá de nicho, cosplayer e quem só chegou ontem pelo hit da temporada.
Animes também são porta de entrada para cultura e idioma japoneses — com o cuidado de não confundir ficção com guia de viagem. Não dá para rotular o meio como “só infantil” nem como “um único gosto”: há gêneros, faixas etárias, adaptações e obras originais. Se ainda não assistiu nada, vale começar por um título alinhado ao que você já gosta em filme ou série live-action — a chance de surpresa costuma ser maior do que a de decepção.
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