Ryosai Kenbo - Boa esposa, Mãe sábia

Ryosai Kenbo - Boa esposa, Mãe sábia

Quatro ideogramas, aula de costura e um papel marcado para a menina.

Você já ouviu falar de Ryosai Kenbo? Soa como elogio: a esposa boa, a mãe que cria bem. No Japão da era Meiji, a mesma frase virou o programa da escola feminina.

Ryosai kenbo é uma pequena frase do século XIX. Ela define um espaço delimitado para as mulheres: a casa, o marido e os filhos.

Casal jovem conversa à mesa de um restaurante, ele de terno com uma taça e ela sorrindo
Sumário 3

Ryosai Kenbo - 良妻賢母

Esta pequena sentença pode ser representada por outra com apenas quatro palavras em português. "Boa esposa, mãe sábia": boa para o marido, sábia para os filhos. Em março de 1875, o educador Nakamura Masanao publicou na revista Meiroku Zasshi um ensaio sobre a formação de boas mães. Os quatro ideogramas 良妻賢母 se firmaram nas décadas seguintes e deram nome à educação feminina oficial.

O lema nasceu no Japão moderno. Há fórmulas vizinhas na China, no sentido de esposa sábia e boa mãe, e na Coreia, no sentido de mãe sábia e boa esposa. A ordem das palavras muda, e a história de cada uma também.

Nesse período, era esperado que as mulheres dominassem habilidades domésticas como costurar e cozinhar. Além de terem que desenvolver as habilidades morais e intelectuais. Tudo com o objetivo de criar filhos fortes e inteligentes em prol da nação.

Silhueta de uma mulher ao pôr do sol, com uma criança no colo e outra pela mão

Como já se pode deduzir, a criação de filhos era considerada um dever patriótico. As mulheres ficavam encarregadas do futuro da nação dentro de casa. O filho saudável e letrado era a parte que o Estado esperava delas.

Ryosai Kenbo na escola do Japão

A frase ganhou lugar de política pública no fim do período Meiji. Em 1899, o decreto das escolas superiores femininas organizou o ensino médio das meninas, correspondente ao colégio dos meninos, e obrigou cada província a ter pelo menos uma dessas escolas. O ministro da Educação, Kabayama Sukenori, disse naquele ano aos inspetores locais o alvo da escola: preparar a aluna para casar numa casa de classe média ou alta e tornar-se mãe sábia e boa esposa.

O currículo trazia japonês, matemática, história e língua estrangeira, e também economia doméstica e costura, próprias das escolas de meninas. No começo, menos de 5% das meninas chegavam lá. A taxa chegou perto de 15% em 1925 e rondava 25% em 1945. A faculdade, para elas, ficava abaixo de 1%. Para a grande maioria, aquela escola fechava os estudos, e a maior parte das formandas ia para casa.

Três mulheres de quimono e maquiagem branca posam diante de uma cerca de madeira

Na década de 1890, "boa esposa, mãe sábia" era ensinada nos níveis mais altos, onde a elite das meninas comparecia. No começo do século XX, os livros estatais de ética do primário passaram a trazer essa divisão de papéis, e a revisão de 1911 dos manuais de moral faz parte desse caminho.

Mulher mostra o celular para uma menina de vestido, num salão com luz vermelha

Podem ser apenas 20 anos, mas afetou gerações inteiras de mulheres. Digamos que a menina do manual de 1911 cresceu com o papel já ensinado e levou esse desenho para a casa.

Quem crescia com a casa nas mãos muitas vezes ficava também com a chave do dinheiro. As mulheres no Japão costumam cuidar das finanças da família, e decidem o dia a dia enquanto o salário entra na conta.

Ryosai Kenbo e o limite fora de casa

As mulheres foram ensinadas a cumprir esse papel em nome da nação. O Império queria um Estado capaz de se sustentar diante das potências, e tratou a mãe instruída como parte dessa construção. Ao lado da escola, a porta da política se fechou.

O Código Civil de 1898 colocou a mulher sob a chefia da casa, no sistema ie. A Lei de Polícia de Segurança Pública, de 1900, proibiu as mulheres de entrar em associação política e de participar ou promover comícios. Em 1922, as mulheres passaram a poder ir às reuniões políticas. Entrar numa associação política continuou vetado até a lei cair, em novembro de 1945. O voto chegou na eleição de 1946.

Barraca de festival com chá verde e uma mulher de quimono preto florido e laço rosa

Depois da Segunda Guerra Mundial, a Constituição de 1947 e o código civil revisto em 1948 tiraram esse ensino do programa oficial. A economia doméstica do ensino médio ficou obrigatória só para meninas em 1973 e, a partir de 1994, meninos e meninas passaram a cursá-la juntos, série por série. Entre uma data e outra, o emprego feminino tinha um desenho conhecido: sair depois do casamento e voltar em meio período quando o filho mais novo entrava na escola, com a casa ainda por conta dela.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

Comunidade

Comentários

0 comentários

Ainda não há comentários publicados neste idioma.

Enviar um comentário

Comente este artigo

Verificação anti-spam

Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.