No Japão, golfe raramente é um passatempo de três horas. Muita gente dirige um bom trecho até o campo, joga devagar e trata o almoço entre os nove primeiros e os nove últimos buracos como parte da partida — não como interrupção.
O esporte nasceu nas encostas do monte Rokko, em Kobe, no começo do século XX. De lá para cá virou clube exclusivo, dívida da bolha, driving range de vários andares e até uma Kannon com taco na mão. O que muda para quem entra no campo hoje é menos o swing e mais o ritual.

Sumário 3
Como os japoneses jogam golfe no Japão?
Os golfistas japoneses muitas vezes precisam dirigir várias horas para chegar ao campo. Quando chegam, jogam devagar: uma volta de 18 buracos costuma levar cerca de cinco horas — e o dia inteiro, se entrar o almoço. Nos Estados Unidos, quem quiser até consegue fechar 18 buracos em três horas. No Japão, a pressa soa mal-educada.
Alguns campos têm robôs como caddies. Eles são controlados por rádio e carregam as bolsas pelo fairway. Em encostas íngremes, também aparecem escadas rolantes ligando um buraco ao outro — solução bem japonesa para um campo esculpido na montanha.
Muitos caddies humanos ainda são mulheres de uniforme, toalha azul e boné enorme. O código de vestimenta vale: camisa com gola, calça ou saia adequada, sapato de golfe. Jeans, camiseta e chinelo costumam ficar na porta. Em clubes mais formais, o paletó entra no clubhouse; no verão, short pode passar, mas vale confirmar antes.
É comum achar uma bandeira amarela no fairway, por volta de 230 jardas do tee regular. Não é o buraco: marca onde uma boa tacada de saída deveria cair e serve de linha de segurança. A etiqueta pede que se espere o grupo da frente passar dessa bandeira antes de bater. Em buracos com risco de out of bounds, alguns campos colocam tees extras mais à frente: em vez de voltar à origem, o jogador segue dali já como quarta tacada, para o jogo não travar.
Outra regra local frequente são as estacas listradas pretas e amarelas. Elas marcam uma área fora dos limites com penalidade de um stroke só, e a próxima tacada sai de perto de onde a bola cruzou a linha — diferente do out of bounds clássico.
Depois dos primeiros nove buracos, a maioria dos campos (fora Hokkaido e Okinawa) manda todo mundo para o clubhouse. O intervalo de almoço dura cerca de 45 a 60 minutos e já entra em muitos pacotes. No fim do dia, o vestiário costuma ter banho, às vezes onsen, para tirar a terra da chuteira e o cansaço das pernas. Quem reserva precisa falar japonês ou usar hotel, agente ou os poucos sites que aceitam inglês: jogador sozinho, sem o sistema de encaixe, ainda sofre para conseguir horário.

Quanto custa jogar golfe no Japão?
O golfe nunca foi barato no Ocidente. No Japão, durante décadas, era ainda mais caro: terra aperta o campo, e nos anos 1980 uma volta podia custar muitas vezes o preço americano. A bolha estourou, associações endividadas fecharam, e o que sobrou se dividiu entre clubes caros que sobreviveram e campos semi-públicos de custo mais baixo.
Hoje, num dia de semana comum, não é raro pagar entre 7 mil e 12 mil ienes por pessoa numa volta de 18 buracos já com almoço e carrinho. Fim de semana, feriado e alta temporada sobem; perto de Tóquio, mais ainda. Caddie, aluguel de tacos e taxas extras ficam de fora desse pacote. Dois jogadores às vezes pagam acréscimo; grupo de três ou quatro é o padrão. Visitante em clube mais formal, com transporte e equipamento, gasta bem mais do que o green fee da tabela.
Quem só quer bater bola sem sair horas pelo campo encontra driving ranges até no meio da cidade, muitos com dois ou três andares e máquina que coloca a bola no tee sozinha. Cobra-se em geral cerca de 10 ienes por bola, conforme o bairro e o horário.

Curiosidades envolvendo o golfe no Japão
- Os primeiros quatro buracos no Japão foram abertos no outono de 1901, no monte Rokko, pelo inglês Arthur Hesketh Groom e amigos. O Kobe Golf Club, o campo mais antigo do país que ainda existe, fez a cerimônia de abertura em 24 de maio de 1903, com nove buracos; no ano seguinte já tinha 18.
- O esporte explodiu na mídia quando Torakichi Nakamura e Koichi Ono venceram a Canada Cup de 1957 no Kasumigaseki Country Club, em Saitama, contra um campo que incluía Sam Snead e Gary Player. Nakamura levou também o título individual. A TV mostrou o Japão ganhando em casa, e os clubes se multiplicaram nas décadas seguintes.
- No templo 全性寺 (Zenseiji), em Annaka, Gunma — não em Tóquio —, há uma estátua da 悟留譜観音 (Gorufu Kannon), a Kannon do golfe: putter na mão e um jogo de tacos nas costas. Jogadores da região deixam bolas como ema no templo e pedem score melhor, hole in one e segurança de quem trabalha no campo.
- O movimento religioso Perfect Liberty (PL Kyodan) prega que “a vida é arte” e, no pós-guerra, chegou a construir campos de golfe ligados a essa ideia, começando no entorno da sede em Tondabayashi, Osaka.
- Em 2010, num campo perto de Sendai, em Miyagi, a tacada de um ferro no rough seco levantou faísca e queimou cerca de 900 metros quadrados de grama. Depois da bolha, centenas de campos fecharam; alguns viraram resort ou usina solar. Ainda há pouco mais de dois mil campos em operação, menos do que no auge.
Jogar golfe no Japão pode ser um dia inteiro, com etiqueta, almoço e banho no fim — e ainda uma história de clube, dívida e fé meio torta no score. Você já meteu uma bola num campo japonês, ou só conhece o esporte pelo driving range atrás da rede verde?
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