Coisas que você não sabe sobre os esportes no Japão

Do bukatsu ao kendo, do sumô à NPB: o que realmente move o esporte japonês além dos clichês.

Quando você pensa em esportes no Japão, duas imagens costumam vir à cabeça: o mundo cerimonial do sumô (相撲) e os estádios iluminados dos campeonatos profissionais do país. As duas coisas são reais, mas juntas contam só uma parte pequena da história. A cultura esportiva japonesa está bem entrelaçada com o sistema escolar, com os clubes depois da aula chamados Bukatsu (部活) e com uma tradição secular de artes marciais reunidas sob o guarda-chuva do Budō (武道), o "caminho marcial". Se você quer entender de verdade o esporte no Japão, vale olhar também para esses cantos menos óbvios.

Cena de kendo no Japão: dois kendoka em armadura de proteção completa (bōgu) durante um combate
O kendo (剣道), o "caminho da espada", é uma das artes marciais mais praticadas nas escolas japonesas.

A lista abaixo não quer ser exaustiva. É uma reunião de curiosidades que dá para observar ainda hoje no dia a dia dos atletas japoneses. Algumas vão te surpreender, outras só vão confirmar o que você já desconfiava. Um aviso importante, antes de tirar conclusões apressadas: os costumes mudam de região, de geração e de época, e várias das tradições descritas aqui vêm mudando aos poucos.

Cultura escolar e Bukatsu: por onde o esporte japonês começa

Qualquer conversa honesta sobre esporte no Japão tem que começar pelo sistema escolar japonês. As atividades extracurriculares organizadas pelas escolas japonesas se chamam Bukatsu (部活) e são muito mais do que um hobby depois da aula. Os alunos costumam treinar todos os dias depois da aula, nos fins de semana e durante as férias escolares. A participação, em muitos casos, é praticamente obrigatória, e a lógica por trás é que o esporte ajuda a formar disciplina, convivência em grupo e responsabilidade desde cedo.

É dentro do Bukatsu que a maioria dos japoneses tem o primeiro contato sério com o esporte. E é por ali, também, que modalidades como o judô, o karatê e o próprio kendo viram parte do cotidiano de milhares de crianças e adolescentes, muito antes de virarem carreira profissional.

Artes marciais: o Budō como base cultural

Por trás das artes marciais japonesas existe um conceito único, o Budō (武道), que mistura técnica, ética e filosofia. Não é só lutar, é seguir um caminho de formação pessoal. Por isso, mesmo em disputas amadoras, é comum ver cumprimentos, silêncio e respeito à hierarquia — algo que pode até parecer exagerado para quem vem de outra tradição esportiva.

Kendo: disciplina antes da técnica

O kendo (剣道) é uma das artes marciais mais praticadas nas escolas japonesas. A prática envolve o uso de um shinai (espada de bambu) e uma armadura de proteção chamada bōgu, composta por peças como men (capacete), (peitoral) e kote (luvas). O combate é mais ritual do que espetáculo: a postura, a respiração e o momento do golpe importam tanto quanto o golpe em si.

Uma das regras que mais chama atenção de quem vê pela primeira vez é que poses de vitória não são permitidas em kendo. Quando um kendoka acerta um ponto válido, ele se mantém em guarda, recua para a posição inicial e só depois cumprimenta o adversário. O objetivo é preservar a humildade, o autocontrole e o respeito pelo oponente, exatamente o oposto do que costumamos ver em muitas competições ocidentais.

Judô, karatê, aikidô e kyūdō

Outras artes marciais também seguem a mesma pegada do Budō. O judô (柔道) foi fundado em 1882 por Jigorō Kanō e hoje é esporte olímpico, mas nas escolas japonesas ele é ensinado como ferramenta educativa antes de tudo. O karatê (空手), embora tenha raízes em Okinawa, se espalhou pelo Japão no século XX e ganhou espaço em academias, clubes e torneios pelo país. O aikidô (合気道) tem como marca a defesa sem agressão, priorizando redirecionar a força do adversário em vez de confrontá-la. E o kyūdō (弓道), o caminho do arco, é quase meditação: a precisão do tiro depende mais do equilíbrio interno do kendoka (no caso, do kyūdoka) do que da força física.

Sumô: o esporte nacional que vai muito além do dohyō

O sumô (相撲) é, com folga, o esporte mais identificado com o Japão no exterior. Por isso mesmo, ele é cheio de detalhes que pouca gente conhece — ou que muita gente repete de forma equivocada.

Lutadores de sumô só comem duas vezes por dia

Apesar do tamanho, a rotina alimentar dos lutadores de sumô é bem específica. Os lutadores de sumô comem apenas duas vezes por dia: uma logo após o treino da manhã e outra à noite, depois do treino da tarde. As refeições são planejadas para que a energia absorvida seja sempre maior do que a gasta nos treinos, mantendo o peso do lutador estável em vez de fazê-lo engordar indefinidamente.

O prato típico é o chanko-nabe (ちゃんこ鍋), uma espécie de cozido bem generoso com carne, peixe, legumes e tofu, servido em panela grande para que todos à mesa se sirvam. Mais do que comida, o chanko-nabe é um ritual de convivência: é comendo junto que os lutadores mais velhos transmitem experiência para os mais novos, dentro do heya (部屋), a escola onde vivem e treinam.

O mawashi não é lavado

Outro detalhe que intriga muita gente: o mawashi (まわし), a tanga usada pelos lutadores durante as lutas, em geral não é lavado. Em vez disso, os lutadores costumam deixá-lo apenas colocados para secar por um tempo. A tradição aponta dois motivos: um deles é a ideia supersticiosa de que lavar o mawashi pode dar azar ou "enfraquecer" o lutador, e o outro é mais prático — a lavagem frequente comprometeria a resistência do tecido de algodão ou seda, justamente em uma peça que precisa aguentar puxões e quedas constantes.

Para um lutador, o mawashi carrega a história de cada combate. Não é incomum que lutadores veteranos usem o mesmo mawashi por anos, como se fosse parte do próprio ritual de preparação.

Mais de um tipo de sumô

O sumô sempre teve uma forte presença no Japão desde os tempos antigos, e existem várias modalidades que vão além do que é disputado no dohyō (土俵), a arena tradicional. Um dos exemplos mais curiosos é o kamizumo (紙相撲), literalmente "sumô de papel", uma brincadeira na qual pequenos bonecos de lutadores de sumô, modelados em papel, são colocados dentro de um círculo desenhado na tampa de uma caixa de papelão. Os participantes batem ao redor da caixa até que um dos bonecos seja derrubado ou expulso do círculo — um jeito acessível de ensinar lógica, física e paciência para crianças.

Existem também versões regionais com regras diferentes, festivais de sumô infantil em santuários e até o nakizumo (泣き相撲), o "sumô do choro", em que dois bebês são colocados frente a frente e o primeiro a chorar é considerado o vencedor. A ideia é mais simbólica do que competitiva: o choro é visto como sinal de boa saúde e de proteção espiritual para a criança.

Esportes profissionais: NPB, J.League e o fenômeno Koshien

Fora do mundo do sumô, o Japão tem uma cena esportiva profissional vibrante, com ligas lotadas, torcidas organizadas e uma relação muito próxima entre clube e comunidade.

NPB: o beisebol profissional japonês

O beisebol (野球, yakyū) chegou ao Japão no fim do século XIX e virou um dos esportes mais populares do país, a ponto de a liga profissional — a NPB (日本プロ野球機構, Nippon Professional Baseball) — dividir o calendário em duas ligas principais: a Pacific League e a Central League. Os jogos têm ritual próprio: as torcidas cantam hinos das equipes, instrumentos de sopro e percussão marcam o ritmo, e é comum que cada torcedor conheça de cor as escalações, as estatísticas e até a história do time.

Entre as franquias mais tradicionais estão os Yomiuri Giants, Hanshin Tigers, Chunichi Dragons, Hiroshima Toyo Carp, Yokohama DeNA BayStars, Tokyo Yakult Swallows (Central League) e Fukuoka SoftBank Hawks, Hokkaido Nippon-Ham Fighters, Saitama Seibu Lions, Tohoku Rakuten Golden Eagles, Orix Buffaloes e Chiba Lotte Marines (Pacific League). O Japan Series, final entre os campeões das duas ligas, é uma das grandes atrações do calendário esportivo japonês.

Futebol e J.League

O futebol também ocupa um espaço enorme, com a J.League criada em 1993 e hoje com mais de 60 clubes profissionais e semiprofissionais espalhados pelo país. Clubes como Kashima Antlers, Urawa Reds, Gamba Osaka e Sagan Tosu têm torcidas organizadas com cantos próprios e estádios frequentemente lotados. A seleção japonesa, apelidada de Samurai Blue, se mantém entre as melhores da Ásia e já disputou várias Copas do Mundo.

No futebol feminino, a WE League, criada em 2021, reúne equipes como INAC Kobe Leonessa, Urawa Reds Ladies e Nippon TV Tokyo Verdy Beleza. A seleção japonesa feminina, conhecida como Nadeshiko (なでしこ), foi campeã mundial em 2011 e segue entre as potências da modalidade.

Koshien: o campeonato de beisebol do ensino médio

Poucos torneios escolares no mundo alcançam o prestígio do Koshien (甲子園), o campeonato nacional de beisebol do ensino médio. A disputa acontece todos os anos no Estádio Koshien, em Nishinomiya, e reúne os campeões de cada uma das 47 prefeituras japonesas. As partidas podem terminar em empates, e quando isso acontece é comum a realização de prorrogações sucessivas até que se chegue a um vencedor — algo que já rendeu jogos com mais de 20 entradas.

Para os jogadores, vestir o uniforme de Koshien é um símbolo máximo. Os selecionados para representar a escola carregam grandes expectativas: torcem por eles colegas, ex-alunos e a cidade inteira. Quando o time é eliminado, é comum que os jogadores caiam em pranto, e os titulares costumam se deitar no chão do campo, lamentando, com os pais assistindo das arquibancadas. Para quem chega à final nacional, o torneio pode mudar a vida: olheiros da NPB, universidades e empresas de peso estão sempre de olho em revelações.

Tradições e curiosidades que sobrevivem ao tempo

Tem ainda um outro lado do esporte japonês que vai além das ligas e dos torneios: o lado das tradições que existem há séculos e seguem vivas em festivais, escolas e datas comemorativas.

Kemari: o ancestral do futebol

O kemari (蹴鞠) é um jogo de bola com mais de mil anos de história, praticado nas cortes imperiais do período Heian (794-1185). Dois times tentam manter uma bola de couro no ar, sem usar as mãos, trocando passes com os pés. Não há placar, não há adversário declarado: o objetivo é a harmonia do grupo. O kemari nunca virou esporte de massa, mas ainda é praticado em santuários e cerimônias, sendo considerado um patrimônio cultural importante.

Nenrinpics: o esporte dos idosos

Os Nenrinpics (ねんりんピック) são uma espécie de "olimpíadas dos idosos", organizadas anualmente pelo governo japonês desde 1988, com disputas em dezenas de modalidades, de tênis de mesa a gateball. A competição é voltada a participantes com 60 anos ou mais e é uma forma de reforçar a ideia de atividade física ao longo de toda a vida, algo muito presente na cultura japonesa.

Taiko e shōgi: esporte, tradição ou lazer?

O taiko (太鼓), tambor japonês tradicional, é muitas vezes praticado em grupo e com grande esforço físico, a ponto de ser considerado por muita gente uma atividade esportiva — além, claro, de artística. Já o shōgi (将棋), o xadrez japonês, é o típico caso de fronteira: para muitos jogadores ele é esporte mental, com ligas profissionais, torcidas e transmissão pela televisão. Para outros, é só um jogo da mesma família do go e do shōgi moderno.

O esporte que o Japão inventou em forma de anime

Para fechar, vale lembrar que parte da imagem que o Brasil tem do esporte japonês vem mesmo é dos animes de esporte. Captain Tsubasa ajudou muita gente a entender como funciona o futebol japonês, Slam Dunk popularizou o basquete colegial e Haikyū!! levou o voleibol para a rotina de toda uma geração. Sem falar em Yowamushi Pedal (ciclismo), Initial D (automobilismo) e Kuroko no Basket.

Na vida real, o Japão tem um mercado enorme de esportes populares que vai muito além do que aparece no noticiário internacional. Se você quiser descobrir mais, vale começar pelo que aparece com mais força na televisão: beisebol, futebol, sumô, kendo, judô, karatê, corrida de revezamento (ekiden), golfe, tênis, vôlei e basquete — cada um com sua liga, sua torcida e sua história.

Esse post fez parte de uma curadoria de fatos pouco conhecidos sobre a cultura esportiva japonesa. Se você já conhecia algum deles, conta nos comentários qual te surpreendeu mais — e qual você acha que mudou mais nos últimos anos, seja no Brasil, seja no Japão.

Estaremos de volta!

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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