Beleza masculina no Japão: o que conta como ikemen

Beleza masculina no Japão: o que conta como ikemen

Ikemen não é só rosto. É pele, jeito — e ainda assim a maioria anda de terno.

Até lutadores de sumô já foram considerados atraentes no Japão — e tinham esposas elogiadas por isso. Hoje o elogio mais comum nas bandas, nos dramas e nas revistas vai para outro tipo: pele lisa, cabelo elaborado e um jeito suave que muita gente no Brasil ainda trata como “parecer menina”. Eu nem preciso deixar claro que gosto é algo pessoal. Citar um estilo neste texto não significa que o país inteiro segue o mesmo molde. Com a ocidentalização, os gostos mudaram rápido e se misturaram ainda mais: tem quem queira traços bem japoneses, tem quem busque olho mais redondo, e tem quem só queira o colega de trabalho bem arrumado.
Sumário 3

Como o homem é considerado bonito e sexy no Japão?

Algumas mulheres consideram atraentes aqueles homens com olhos estreitos, lábios finos, queixo estreito e características asiáticas bem pinceladas. Já outras gostam de homens meio ocidentais, com olhos redondos e cílios longos, parecendo europeus. No Japão não existe aquela ideia rígida de “homem macho”; muitas japonesas preferem homens suaves. A gíria que resume o elogio mais usado hoje é ikemen (イケメン): junta iketeru (“legal”, “que funciona”) com menzu (men). Descreve o homem cuidado, um pouco misterioso, com presença — o ator magro da novela, o vocalista com cílios longos, o cara cuja roupa cheira a limpo. Três visuais masculinos japoneses: cabelo espetado com cruz no peito, corte boyish de camiseta preta e look andrógino de moletom com capuz As mulheres acham fofos os homens com pele lisa, traço andrógino e cabelo elaborado, às vezes tingido. Basta perceber esse estilo nas bandas populares entre as jovens. Algumas até afirmam que o cabelo deve flutuar. Até a habilidade na cozinha virou ponto que elas reparam. As mulheres de hoje esperam que os homens sejam sensíveis, limpos e sexy, em vez de ricos. No Japão, alguns homens gastam mais dinheiro com cosméticos do que mulheres. Estão cada vez mais obcecados com a pele. Enquanto antigamente samurais e lutadores de sumô raspavam nem que fosse metade da cabeça, hoje quem sofre de calvície recorre a produtos, remédios e até peruca. A aceitação também mudou de geração. Uma pesquisa da Cross Marketing com 1.375 homens de 15 a 69 anos, em agosto de 2024, encontrou 53% com impressão boa ou mais ou menos boa de quem usa maquiagem masculina. Só cerca de 10% disseram usar de fato. Entre os de 15 a 29 anos, 60% afirmaram não ter resistência a se maquiar: o juízo pesa mais na idade de quem olha do que no produto em si. Barbas, bigodes e pelos faciais não são comuns. Crescem menos em muitos homens japoneses e ainda são desencorajados em vários locais de trabalho. Em algumas áreas, barba gera reclamação. Alguns recorrem a barbas e bigodes falsos para usar fora do expediente. Hoje mais homens usam bolsas, joias e acessórios sem isso ser lido automaticamente como “roupa de mulher”.

Salões, visual kei e o homem herbívoro

Essa estética não ficou só no palco. Existem salões de beleza masculinos que oferecem depilação corporal, limpeza de pele, manicure e até aulas de maquiagem. Entre os mais procurados estão tratamentos faciais com lama, depilação das pernas e desenho de sobrancelha. Na mesma geração em que o cuidado com a pele virou conversa normal, a jornalista Maki Fukasawa batizou, em 2006, o sōshoku-kei danshi (草食系男子), o “homem herbívoro”: menos assertivo em paquera e sexo, sem ser automaticamente o mesmo que o ikemen da TV. Um não “resultou” do outro. Os dois conversam com quem não quer copiar o pai salaryman — inclusive os que namoram menos e fazem menos sexo do que a geração anterior esperava. Alguns homens compram sutiãs e dizem que se sentem mais relaxados. Outros vestem roupas femininas sem interesse em homens. Há casais que compartilham o guarda-roupa. No palco, cantores famosos já apareceram de salto alto, calça de lantejoula e ursinho de pelúcia. Músicos de visual kei com maquiagem pesada e cabelo elaborado: integrantes de THE KIDDIE, DIAURA, WING WORKS e Megamasso Em geral, muitas jovens japonesas gostam de uma figura andrógina no estilo visual kei. Isso não nasceu ontem. Tem raiz no teatro kabuki, nos onnagata e no ideal do bishōnen (美少年), o “rapaz belo”. Daimyôs e mestres famosos já foram louvados pelo rosto e pela maquiagem. A masculinidade no Japão nunca foi só músculo. Cinco integrantes de banda visual kei com cabelos coloridos e figurino dramático diante de asas estilizadas E lembre-se: isso não significa que todas as mulheres japonesas gostam de homens andróginos. Na vida real, eles não são a maioria.

O verdadeiro conceito de beleza masculina no Japão

É verdade que no Japão não é necessário ter grandes músculos nem uma pose machista. Mas isso não significa que os japoneses não tenham atitudes agressivas e dominantes. A história dos samurais mostra devoção, disciplina, confiança e esforço. O problema é que algumas atitudes comuns no Ocidente soam como grosseria. As mulheres japonesas gostam sim de homens ousados e confiantes — só que olham primeiro os sensíveis, atenciosos e elegantes. Homens japoneses de terno e gravata no deslocamento urbano, o visual mais comum do cotidiano Mesmo esse sendo o homem ideal das revistas, a maioria pouco se importa com a aparência de palco. É muito mais comum encontrar japonês de cabelo curto e roupa social do que o visual deste artigo. Jovens na escola já são orientados a um padrão, e esse padrão segue no trabalho. Os homens que as mulheres consideram lindos e “de comercial” aparecem mais na moda, na música e na dança, entre cantores e ídolos. Como esses ficam inalcançáveis para muita gente, parte das mulheres recorre aos host clubs (ホストクラブ) de bairros como Kabukicho: ali o cliente é mulher e o anfitrião é homem — o contrário dos hostess clubs. As japonesas — e mulheres em geral — olham a personalidade primeiro e a aparência depois. Então não importa se somos bonitos, se temos cabelo gigantesco e loiro ou se usamos roupa colorida que se destaca. Basta estarmos bem arrumados que vamos ser considerados bonitos, nem que seja por uma japonesa. xD
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Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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