Você já percebeu as semelhanças entre os Pokémon Drowzee, Munna e Musharna? Para os brasileiros isso pode não ser óbvio, mas existe um motivo para que esses três Pokémon sejam parecidos com o tapir (o mesmo animal que no Brasil chamamos de anta) e tenham poderes psíquicos ligados ao sono e aos sonhos!
De onde veio a inspiração para criar esses três Pokémon? De um youkai chamado "Baku" (獏), um monstro com corpo de tapir capaz de devorar os sonhos das pessoas! Mas como foi que o tapir ganhou esse poder fantástico? O tapir-malaio vive no Sudeste Asiático, principalmente na Tailândia, na Malásia peninsular e em Sumatra. A história dessa criatura começa na China: no prefácio de um biombo pintado, o poeta Bai Juyi (772-846), da dinastia Tang (618-907), descreveu o baku com tromba de elefante, olhos de rinoceronte, cauda de boi e patas de tigre. Na China, a pele e a imagem do baku eram usadas para afastar doenças e maus espíritos; quando a lenda chegou ao Japão, essa criatura protetora passou a ser vista como o baku que devora sonhos ruins.
Como surgiu o Youkai Baku?
Antigamente, em épocas sem internet, fotografias e viagens de avião, o conhecimento sobre animais e lugares distantes demorava para atingir outros países e, quando isso acontecia, era normal que viesse envolto em lendas e mistérios. Os europeus acreditaram por muito tempo no unicórnio e se espantaram quando viram um elefante ou um rinoceronte, animais muito diferentes daqueles que conheciam.
Isso também aconteceu no Japão. Isolados geograficamente no arquipélago japonês, os habitantes do país recebiam histórias de animais e plantas de lugares distantes e, como "quem conta um conto aumenta um ponto", transformavam esses relatos em lendas fantásticas. O "Kirin" (um monstro japonês que está entre a girafa e o unicórnio) e o Baku são exemplos desse processo.

De um simples tapir, o Baku se tornou um animal fantástico que devoraria sonhos. O tapir-malaio continuou vivendo nas florestas do Sudeste Asiático, longe dos japoneses, e a palavra "baku" passou a nomear tanto a criatura da lenda quanto o animal real. Mas o que faz o Baku da lenda?
Segundo o escritor Lafcadio Hearn (1850-1904), que viveu no Japão durante a era Meiji, o baku pode ser chamado por quem acorda no meio da noite por causa de um pesadelo, pois ele devora o sonho ruim. No entanto, invocar o baku exige cautela, porque o animal é faminto e pode devorar também os sonhos e as esperanças de quem o chamou. Por esse poder de devorar pesadelos, eram comuns, sobretudo no período Edo (1603-1868), talismãs e travesseiros com figuras do baku.
Sabendo de tudo isso fica mais fácil perceber que a aparência e os poderes de Drowzee, Munna e Musharna, todos Pokémon que se parecem com o tapir e têm poderes sobre o sono, são inspirados no youkai baku. A própria Pokédex descreve Drowzee como descendente do lendário animal baku que se alimenta de sonhos.
Referências em obras japonesas
Além dos Pokémon Drowzee, Munna e Musharna, o baku faz outras aparições:
- Hypno, a evolução de Drowzee, usa o pêndulo para adormecer os oponentes;
- O Digimon Tapirmon, cujo nome japonês, Bakumon, vem de baku, é descrito como um Digimon que se alimenta de dados do sono REM e purga pesadelos; ele aparece em Digimon Frontier;
- Em Naruto Shippuden, Danzō Shimura invoca um baku gigante na luta contra Sasuke (capítulo 479 do mangá, episódio 210 do anime);
- Em Kamen Rider Black, os Gorgom usam um monstro baku, chamado de Antar na dublagem brasileira, para induzir Kyoko Akizuki, por meio de um sonho, a liberar a energia que revive Shadow Moon;
- Doremy Sweet, dos jogos Touhou, é uma baku que governa o Mundo dos Sonhos e pode criar e devorar sonhos.
O remédio antigo contra um pesadelo era simples: a criança que acorda à noite repete três vezes "Baku-san, coma o meu sonho" e o baku vem engoli-lo. A criatura descrita séculos atrás em um biombo chinês continua viva nos jogos e nos animes, onde Pokémon como Drowzee ainda se alimentam de sonhos.





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