Pokémon Go foi um dos títulos mais aguardados de 2016, inspirado na franquia criada por Satoshi Tajiri em 1995 e que pertence à The Pokémon Company, com jogos eletrônicos historicamente produzidos pela Nintendo em parceria com a Game Freak. Para quem viveu aquele ano, foi estranho ver o mundo dos games dominando tão rápido as ruas, os parques e até as rodas de conversa de quem não jogava.
Pokémon é uma série conhecida no mundo todo, espalhada por animes, mangás e, claro, pelos jogos clássicos de Game Boy, Nintendo DS e Nintendo 3DS. A proposta central sempre foi a mesma: treinar Pokémon, explorar regiões, vencer ginásios e batalhar pela honra de se tornar um Mestre Pokémon. O anime e o mangá seguiram essa espinha, só que com mais drama, mais rivals e muito mais gritos de assinatura de movimentos.
Antes de entrar na pergunta do título, vale uma ressalva: muita gente baixou Pokémon Go só porque estava na moda, então não leve para o pessoal o que for dito aqui. Se você foi um desses, sem stress. O objetivo é entender o jogo como fenômeno, não atacar quem brincou por uma temporada.
O que fez Pokémon Go ser inovador
Para entender se Pokémon Go foi um fracasso, é justo começar pelo que ele fez de diferente. O jogo foi um grande inovador na indústria mobile, combinando duas tecnologias que, até então, mal apareciam juntas em games de grande público: realidade aumentada e GPS em tempo real. O resultado foi simples de explicar, mas raro de executar: em vez de você olhar para a tela, era a tela que olhava para a rua.
O desenvolvimento começou em 2013, feito pela Niantic em parceria com a Nintendo e a The Pokémon Company. Na prática, bastava abrir o aplicativo no celular, caminhar pelo bairro e procurar Pokémon que apareciam no mapa do jogo. Quando um deles surgia, era hora de usar a Pokébola para tentar capturá-lo. Em 2016, essa ideia bastou para colocar gente de chinelo atrás de Zubat no parque.
A outra proposta, menos comentada, era de saúde pública disfarçada. O jogo estimulava jogadores mais sedentários a saírem de casa, caminharem e se exercitarem enquanto faziam algo divertido. Muita gente descobriu praças, mirantes e ciclovias que nunca tinham visitado na própria cidade, só porque um Pokémon raro apareceu lá no mapa. Para a Niantic, esse era o sonho de produto: transformar a cidade no palco do jogo.
Vale destacar que Pokémon Go não inventou nem o GPS, nem a realidade aumentada, nem o conceito de jogo por geolocalização. O que ele fez foi empacotar tudo isso com a marca mais rentável do planeta e uma interface tão simples que até quem nunca tinha jogado nada conseguia participar. Quem já tinha testado Ingress, o jogo anterior da Niantic, percebeu a fórmula sendo reaproveitada com outra marca em cima.
Desinteresse dos jogadores
O jogo se tornou popular em diversos níveis desde o lançamento, em 6 de julho de 2016. Em poucos dias, superou Twitter, Facebook e qualquer outro app em número de downloads e tempo de uso diário. Mas a mesma velocidade que subiu foi a velocidade com que começou a ser abandonado. E aí começam os motivos para o desinteresse.
Atualizações demoradas e gerações travadas
Um dos maiores motivos de abandono foi a sensação de que o jogo não evoluía. Durante meses, o catálogo de Pokémon disponíveis ficou parado na geração inicial, e muitos jogadores sentiam que estavam caçando os mesmos 150 Pokémon de novo e de novo, com a única variação sendo o CP do bicho. Atualizações de peso, que mudariam a fórmula das batalhas, demoraram para chegar, e ajustes contra trapaças e bots só apareceram depois de uma enxurrada de queixas.
Para um público acostumado com Fortnite, Clash Royale e outros jogos mobile que lançavam temporadas a cada poucas semanas, a sensação era de um jogo parado no tempo. Havia também problemas clássicos de servidores caindo nos primeiros meses e relatos constantes de bugs de GPS, que faziam o personagem do jogador pular entre lugares, teleporte conhecido como "GPS drift". Para quem não entendia a piada, era a porta de entrada para a frustração.
Assaltos e riscos reais
Esse foi o ponto mais delicado do início de Pokémon Go. Como o jogo exigia que o jogador saísse de casa em horários variados e fosse para locais públicos atraentes, surgiram casos de assaltos a jogadores distraídos. Os relatos começaram nos Estados Unidos e na Austrália e chegaram ao Brasil logo em seguida, com casos emblemáticos em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais em que pessoas foram abordadas enquanto caçavam Pokémon em pontos de difícil acesso ou de madrugada.
A Niantic chegou a pedir que os jogadores evitassem áreas perigosas, mas a realidade é que o jogo não conseguia diferenciar um parque movimentado de uma viela escura. A imprensa tratou o caso de forma séria, com matérias na BBC, no G1 e na Folha de S.Paulo, porque o impacto foi além dos games: era uma questão de segurança urbana. Muita gente que não jogava nunca parou para perguntar se Pokémon Go foi um fracasso, mas lembra até hoje de uma manchete de assalto envolvendo o jogo.
Falta de PokéStops em certas regiões
Outro motivo de desinteresse, especialmente para o público brasileiro, foi a distribuição irregular de PokéStops e ginásios. O jogo reaproveitava o banco de dados do Ingress, então PokéStops só apareciam em pontos com algum marco histórico, obra de arte ou local público cadastrado no mapa da Niantic. Resultado: bairros nobres, regiões centrais e parques bem documentados ficavam lotados de PokéStops, enquanto periferias e cidades pequenas tinham quase nada.
Quem morava longe desses pontos tinha que caminhar longos trechos, pegar ônibus ou simplesmente desistir. Esse abismo geográfico virou um dos pontos mais criticados nas redes sociais e em matérias do G1 na época, e contribuía para que parte do público sentisse que o jogo não tinha sido feito para o Brasil, apenas desembarcado aqui.
Grandes lucros somente em 2016
A pergunta que muitas pessoas ainda fazem é: se o jogo era tão ruim, como fez tanto dinheiro? A resposta curta é: fez mesmo, mas só no primeiro ano. Segundo dados da App Annie, Sensor Tower e relatórios da própria Nintendo, Pokémon Go atingiu cerca de US$ 1 bilhão em receita em pouco mais de seis meses, algo impensável para um jogo mobile gratuito em tão pouco tempo.
Esse número precisa ser colocado no contexto. Em 2016, falar em US$ 1 bilhão em receita de um jogo mobile era praticamente inacreditável. O título bateu recordes de faturamento em vários países, ficou no topo das lojas da Apple e do Google e virou referência para qualquer estúdio que quisesse entender como monetizar realidade aumentada. Para se ter uma ideia, a maioria dos jogos mobile de sucesso da época levava anos para chegar a esse tipo de marca.
Só que, depois de 2016, a receita despencou. A Niantic tentou renovações, eventos ao vivo, ginásios refeitos, raids e geração 2, 3 e 4 de Pokémon, mas o público engajado diminuiu a cada trimestre. Em 2019, a Bloomberg já mostrava que o faturamento de Pokémon Go era uma fração do que foi no auge, embora ainda relevante para a Niantic. O cenário era o oposto do início: em vez de crescimento explosivo, a Niantic teve que aprender a sustentar uma base menor de jogadores fiéis.
Para a Nintendo, que detém parte da Niantic, o saldo ainda assim foi positivo. Pokémon Go serviu para colocar a marca Pokémon no centro da cultura pop mobile e abriu espaço para outros produtos da franquia, como Pokémon Unite, Pokémon Café ReMix e títulos mais recentes. Já para a Niantic, o jogo foi simultaneamente o maior sucesso e o maior desafio: provar que a empresa não era um one-hit wonder.
Conclusão: foi sucesso ou fracasso?
Se você chegou até aqui, deve ter percebido que a resposta curta não existe. Pokémon Go foi, ao mesmo tempo, um sucesso estrondoso e um fracasso anunciado, dependendo do ângulo que você olha. Para o público casual e para a indústria, ele foi um fenômeno: o primeiro jogo mobile de realidade aumentada a dominar o mundo, com receita bilionária em tempo recorde e um impacto cultural que extrapolou os games.
Para os jogadores mais engajados, a história foi diferente. Muitos viram o jogo perder força por causa de atualizações lentas, PokéStops mal distribuídos e problemas de segurança que a Niantic demorou a endereçar. Quem ficou, em geral, gostou de raids, ginásios reformulados e os eventos sazonais que vieram depois. Quem saiu, em geral, saiu rápido e nunca mais voltou.
A leitura mais justa é que Pokémon Go foi um sucesso cultural e comercial e um fracasso de retenção. O jogo mostrou que a Niantic sabia criar um fenômeno global, mas também expôs as dificuldades da empresa em manter esse fenômeno vivo por mais de um ano. Isso não apaga a importância do título, mas explica por que tanta gente ainda pergunta, quase uma década depois, se Pokémon Go foi um fracasso.
Se você está pensando em voltar ao jogo em 2026, vale a leitura do nosso artigo com 15 maneiras grátis de ganhar PokéMoedas no Pokémon Go. O jogo mudou bastante desde o lançamento, mas continua firme como um dos títulos de maior receita da história dos games mobile. Resta saber se a Niantic vai conseguir, no futuro, repetir o impacto cultural de 2016. Por enquanto, a resposta curta continua sendo: depende do que você entende por fracasso.
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