No Japão, o primeiro de abril tem nome próprio: 四月馬鹿 (shigatsu baka, "tolo de abril") e エイプリルフール (eipuriru fūru), a versão japonesa do inglês April Fool's Day. O costume chegou ao país na era Taishō, entre 1912 e 1926, e ganhou outra dimensão com a internet. Hoje é o dia em que notícias inventadas circulam com força, muitas delas assinadas por empresas de verdade.
A imagem de capa mostra o Audi A8 5.5, um conceito com panela de arroz no console que a Audi Japão apresentou em 2015. O carro nunca existiu, e a peça resume bem o que o 1º de abril produz por lá.
A brincadeira tem raízes no jornalismo. O Tokyo Shimbun publica uma reportagem falsa a cada 1º de abril desde 2001, tradição que as empresas japonesas abraçaram a partir dos anos 2010.

Sumário 3
As pegadinhas clássicas dos jornais japoneses
A seção こちら特報部 (algo como "Departamento de Reportagens Especiais") abriga as invenções do jornal. Algumas entraram para o folclore do dia.
Astro Boy na reconstrução do Iraque: em 2003, o jornal noticiou que o governo japonês planejava enviar robôs inspirados no Astro Boy para ajudar na reconstrução do Iraque depois da invasão liderada pelos Estados Unidos.
Petróleo no golfo de Tóquio: também em 2003, o jornal anunciou a descoberta de uma reserva com mais de 110 bilhões de barris de petróleo, comparável à do Iraque. A nota mencionava o efeito que isso teria sobre a posição do Japão nas negociações com Washington e deixava no ar a dúvida: alguém teria lido a manchete a tempo de investir sem lembrar da data?
Bilhetes de loteria no lugar da aposentadoria: em 2004, a pegadinha foi para a primeira página: o governo estudava distribuir bilhetes de loteria a quem recebia aposentadoria, para compensar cortes com a promessa de prêmios. Parte dos leitores torcia para que a piada não virasse profecia.
Pinguim gigante no Zoológico de Ueno: em 2005, o zoológico de Ueno, em Tóquio, disse ter descoberto uma espécie inédita, o pinguim Tonosama, com 165 cm de altura e 80 kg, que se alimentava de "peixe branco com molho de soja". A espécie era o diretor do zoo, Teruyuki Komiya, dentro de uma fantasia, apresentado ao público em 1º de abril diante dos pinguins de verdade.
Pizza enlatada da Domino's: em 2013, a Domino's Pizza do Japão divulgou uma pizza em lata, com a fatia enrolada e pronta para aquecer e comer em qualquer lugar. O anúncio brincava com as latas de pão que faziam sucesso no país por volta de 2006.

As empresas entram na brincadeira
As empresas japonesas usam o 1º de abril para apresentar produtos impossíveis e medir a reação do público. Em 2015, a safra foi especialmente boa.
Audi A8 5.5: a Audi Japão mostrou um sedã com panela de arroz, tigela e esteira de tatame no banco de trás, para quem quisesse almoçar dentro do carro. O modelo saiu do forno apenas no vídeo.
Ultraman de 40 metros: a Bandai anunciou a venda de um action figure do Ultraman em escala real, com mais de 40 metros de altura, por 78 milhões de ienes e entrega grátis. A piada brincava com o tamanho do personagem.
Cartões de visita da Coca-Cola: os funcionários da Coca-Cola Japão ganharam cartões de visita bem pouco práticos: garrafas da bebida, entregues em caixotes. Difíceis de carregar, no mínimo refrescantes.
Airbag para pedestres: a Volvo Japão se preocupou com quem atravessa a rua olhando para o celular e criou o primeiro airbag para pedestres. O dispositivo protegia quem caminha, e o nome brincava com a ideia de um airbag para smartphones.
PlayStation Flow: a Sony divulgou um acessório que prometia jogar as partes subaquáticas do PlayStation 4 dentro de uma piscina de verdade. O vídeo era convincente, e o produto nunca passou da brincadeira.
Como o Japão lida com a data hoje
A brincadeira convive com regras. Uma pesquisa da Shirabee feita em 2025 com 684 pessoas de várias idades mostrou que 41,4% gostam das pegadinhas corporativas, enquanto 58,6% preferem que as empresas fiquem de fora. A hashtag #エイプリルフール costuma acompanhar os posts, e muitas companhias avisam no próprio anúncio que o conteúdo é piada.
Houve também anos de contenção. Em 2019, a Microsoft proibiu seus funcionários de participar da brincadeira, e a troca de era imperial no Japão levou empresas a segurar as piadas. Em 2020, a pandemia de covid-19 fez o mesmo em escala mundial. A pressão para publicar algo engraçado sem parecer insensível cresceu junto.
Há ainda um detalhe do calendário que ajuda a entender o tom do dia. No Japão, o ano letivo e o ano fiscal começam em 1º de abril, logo antes da Golden Week. Para muita gente, o dia marca mudança de escola, de emprego ou de cidade, o que mistura seriedade e brincadeira.
As ideias também circulam fora dessa época. O garfo Otohiko, que a Nissin lançou em 2017 para disfarçar o som de quem come lámen, soa como pegadinha, e o produto existe de verdade, vendido por 14.800 ienes. No caminho inverso, uma piada de 1º de abril pode virar mercadoria: em 2023, a Kameda Seika publicou o Tsura-turn, versão do biscoito Happy Turn criada para as redes sociais, e a repercussão levou o produto às lojas. O Shigatsu Baka funciona como um teste anual: as empresas lançam o absurdo, o público reage, e às vezes o absurdo fica.






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