Pen-Pineapple-Apple-Pen - Viral japonês

Como uma caneta, um abacaxi e uma maçã transformaram a internet inteira em um único refrão grudado.

Se você abriu o YouTube no segundo semestre de 2016, existe uma boa chance de ter sido recebido por um homem de jaqueta de oncinha levemente torta, camisa havaiana chamativa e um cachecol gigante, segurando uma caneta, um abacaxi e uma maçã diante da câmera, com os olhos arregalados e parados. A música durava pouco menos de um minuto, a letra mal fazia sentido em qualquer idioma, e ainda assim, em poucas semanas, parecia que quase todo mundo na internet sabia de cor: Pen-Pineapple-Apple-Pen, encurtado para PPAP. O que começou como um esquete bobo de um programa de variedades japonês virou um dos fenômenos virais globais mais esquisitos da década.

Imagem chave do PPAP: Pikotaro com caneta, abacaxi e maçã na pose icônica de Pen-Pineapple-Apple-Pen
Pikotaro com os três objetos que transformaram Pen-Pineapple-Apple-Pen em um fenômeno mundial.

O charme do PPAP está na simplicidade radical. Não tem coreografia complicada, não tem enredo dramático e não tem letra que peça esforço intelectual, mas a música gruda na cabeça por horas. Essa mistura de minimalismo, slapstick e um gancho musical curtíssimo é exatamente o motivo pelo qual o Japão segue produzindo momentos de internet que viajam muito além das próprias fronteiras.

Sumário 5

O Fenômeno: um vídeo do YouTube que estourou as paradas

O clipe oficial de Pen-Pineapple-Apple-Pen foi enviado ao canal do Pikotaro no YouTube em 25 de agosto de 2016. Em poucas semanas, passou de 50 milhões de visualizações, somou milhões a mais por meio de cópias em outros canais e foi compartilhado sem parar no 9GAG, no Twitter, no Facebook e no LINE. Só o 9GAG acumulou mais de 25 milhões de views na própria versão do vídeo, e isso foi só um entre incontáveis uploads não oficiais. A faixa acabou entrando na Billboard Hot 100 dos Estados Unidos, o que fez do PPAP oficialmente a música mais curta da história a entrar na parada, um feito depois reconhecido pelo Guinness World Records. Na época, vários comentaristas chegaram a especular que o sing-along bobo do Pikotaro poderia ultrapassar o Gangnam Style, do PSY, como meme global, uma comparação exagerada, mas útil para mostrar a velocidade com que a música se espalhou no fim de 2016.

O clipe oficial original de Pen-Pineapple-Apple-Pen no canal de Pikotaro.

A única frase que você precisa guardar antes de apertar o play é esta: depois de ouvir a música, você não vai conseguir tirá-la da cabeça. Isso não é frase de marketing, é a própria piada. O PPAP foi pensado como uma armadilha mental pequena e em loop. A melodia usa só algumas notas, o ritmo nunca muda e as palavras são curtas o suficiente para que mesmo quem não fala inglês consiga cantar de volta depois da primeira vez. O resultado fica mais para tema de desenho infantil do que para single de pop, e essa é uma das razões pelas quais ele se espalha tão bem entre idades, idiomas e plataformas.

Quem é Pikotaro? O comediante por trás do cachecol

O personagem cantando PPAP se chama Pikotaro (ピコ太郎), um alter-ego deliberadamente exagerado criado pelo comediante e apresentador japonês Daimaou Kosaka (古坂大魔王). Quando o PPAP viralizou, Kosaka já era rosto conhecido da televisão japonesa, com uma carreira que começava no início dos anos 2000 e uma longa série de participações em programas de variedades. A persona do Pikotaro, com a jaqueta de oncinha, a camisa berrante e o cachecol cômico, foi desenvolvida para os shows de comédia ao vivo como uma sátira de cantor de enka ou city pop cafona, o tipo de artista confiante de palco que você veria em um programa regional de calouros.

O que fazia a fantasia funcionar era o contraste com a imagem pública real de Kosaka. Fora do palco, ele é um comediante reflexivo, meio irônico, conhecido por escrever esquetes e criar personagens. No palco, como Pikotaro, ele assume o personagem até o fim, com olhar parado, voz monótona, completamente sério. Essa tensão entre a piscadela interna e a sinceridade total é uma técnica clássica da comédia japonesa, e é uma das razões pelas quais o PPAP funcionou tão bem com o público doméstico antes mesmo de sair do Japão. A piada só funciona se o artista está por dentro da brincadeira, e Kosaka claramente está.

O próprio nome carrega uma camada da piada. Pikotaro ecoa Piko Taro, um trocadilho com o efeito sonoro piko piko, aquela onomatopeia boba que aparece em desenho infantil. É a mesma família de humor que já tinha entregado ao Japão hits virais como o próprio PPAP de Pikotaro e a onda anterior de conteúdo de novelty ligado a personagens como Pecola e ao universo de Yōkai Ningen Bem (妖怪人間ベム). O personagem tem uma cara quase caseira, meio amadora, e essa textura caseira é justamente o que ajuda o vídeo a se espalhar em uma plataforma como o YouTube.

A Fórmula: caneta, abacaxi, maçã, caneta

Se você desmonta o PPAP até a engrenagem, ele é quase constrangedor de tão simples. A música inteira é construída em cima de um canto de quatro linhas, repetido duas vezes com pequenas variações:

I have a pen, I have an apple. Uh! Apple pen.
I have a pen, I have a pineapple. Uh! Pineapple pen.
Apple pen, pineapple pen. Uh! Pen-Pineapple-Apple-Pen.
Pen-Pineapple-Apple-Pen.

Esse é todo o conteúdo lírico do refrão. As estrofes são quase do mesmo tamanho, e a maior parte do tempo de tela é o próprio canto, apoiado em uma batida de palmas e uma requebradinha dura que parece uma versão em câmera lenta de um DJ de casamento. A piada é um jogo de palavras portmanteau clássico: junta duas palavras, funde, e entrega o resultado como se fosse uma grande descoberta. Maçã. Caneta. Maçã-caneta. Abacaxi. Caneta. Abacaxi-caneta. O humor está em contar essa palavra-valência de jardim de infância com a gravidade de uma palestra de TED.

Pikotaro apresenta Pen-Pineapple-Apple-Pen no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon.

Essa fórmula, gancho de novidade, entrega sem expressão, estrutura fácil de repetir, é algo que a televisão de variedades japonesa vem lapidando há décadas. De duplas de manzai a esquetes a clipes curtos de YouTube, o princípio é o mesmo: montar uma unidade pequena e repetível que recompensa uma segunda e terceira audiência. PPAP é um exemplo perfeito, e quando o algoritmo do YouTube percebeu que as pessoas revisitavam os cinco primeiros segundos do vídeo várias vezes, o resto foi consequência.

Remixes e paródias: como o mundo respondeu

O que faz um hit viral grudar de verdade não é o upload original, é a onda de reações que vem depois. O PPAP disparou um dos ciclos de remix mais densos de 2016. Em poucos dias, fãs já postavam versões aceleradas e ralentadas, edições batendo com faixas de dance e EDM, e remixes de deep house e trap que transformavam o canto chapado do Pikotaro em música de clube surpreendentemente ouvível. Celebridades entraram na onda. Justin Bieber postou um clipe do PPAP em suas redes, J Balvin citou a música em entrevistas, e a televisão americana de talk show convocou Pikotaro para participações no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e em outros programas.

Uma compilação das apresentações, paródias e remixes de Pikotaro em torno do PPAP.

As paródias tiveram pelo menos o mesmo peso dos remixes. Marcas e produtos de tecnologia entraram na brincadeira, incluindo a própria assistente Siri da Apple, que aprendeu a responder ao canto do PPAP com uma resposta inspirada na piada. Fãs de anime, mangá e games remixaram a música com seus próprios personagens, e programas de variedades japoneses passaram a montar episódios inteiros em torno de desafios de Pen-Pineapple-Apple-Pen. Até a ONU viu uma pequena onda de conteúdo inspirado no PPAP em contas internas, um sinal de até onde a música tinha se infiltrado na cultura pop do momento. Por alguns meses, no fim de 2016, quase toda plataforma tinha a sua própria versão de PPAP, e a canção virou uma espécie de língua compartilhada daquela fatia da internet.

Legado: PPAP e a lógica dos hits virais japoneses

Quando a gente olha alguns anos depois, o PPAP interessa menos como música isolada e mais como estudo de caso de como o Japão produz fenômenos de internet. O país tem uma longa tradição de novelty music ligada a TV de variedades, a tie-ins de mangá e a jingles de comercial. Canções de séries como Yōkai Ningen Bem (妖怪人間ベム), ou ondas virais mais recentes como o próprio PPAP e os spinoffs de Pikotaro, compartilham alguns traços: duração curta, gag visual embutida, refrão que cabe em uma única respiração e um criador claramente por dentro da própria piada. O PPAP pegou esse modelo caseiro e empurrou para uma plataforma global como poucos atos de novelty japoneses tinham conseguido antes.

A canção também mostrou que J-pop (Jポップ) não precisa ser idol polido ou balada superproduzida para cruzar fronteira. Estética deliberadamente amadora, um pedaço de inglês emprestado e um gesto visual memorável foram o bastante para empurrar uma faixa de comédia para a Billboard Hot 100 e para salas de estar de São Paulo a Estocolmo. Essa é uma mudança discreta, mas importante: a imagem global da música pop japonesa se expandiu, por alguns meses, para incluir o tipo de besteira consciente e de baixo orçamento que sempre fez parte da TV de variedades doméstica.

Há também uma lição útil sobre o tempo de vida de um hit viral. PPAP explodiu, dominou o segundo semestre de 2016 e depois sumiu da conversa quase tão rápido quanto tinha aparecido. Pikotaro continuou se apresentando, o canal oficial seguiu soltando clipes novos, e a música ainda reaparece em vídeos de desafio e em compilações de reação anos depois, mas já não é mais força de chart. Essa curva é a regra para esse tipo de novelty hit, e faz parte da graça: PPAP é menos uma música que você fica ouvindo e mais um momento compartilhado que você estava na internet para acompanhar.

Se você quer entender melhor a onda de artistas de J-pop que cruzaram fronteiras no mesmo período e o lugar do Japão no mapa do pop mundial, vale ler nosso comparativo entre J-Pop e K-Pop. Para entender de onde vem esse tipo de esquete, o nosso panorama dos fóruns e imageboards japoneses ajuda a explicar como a cultura de internet do país alimenta esse tipo de produto. E, para uma visão mais ampla de como tudo isso se conecta à cultura pop japonesa e sua popularização mundial, esse outro artigo é uma boa continuação.

Pen-Pineapple-Apple-Pen nunca quis ser arte. Quis ser uma piada que gruda na cabeça, e, nesse quesito, foi além do que quase qualquer um esperava. Se você estava online em 2016, provavelmente ainda lembra dos três objetos, da jaqueta de oncinha e do jeito como o refrão cai meio fora do ritmo. Se você não estava, os vídeos acima seguem ali, esperando, e você já foi avisado.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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