Visual novels são jogos de escolhas, de origem japonesa, que ficaram bem famosos ao longo dos anos — e agora não só o Oriente, mas o Ocidente também cria esses jogos. Mas o que tem de tão especial nelas que conquistam tantas pessoas?
Já escrevemos sobre a origem das visual novels. O recorte daqui é outro: as características que fazem um jogo de texto e narrativa prender tanto — inclusive as que não pedem escolha nenhuma.
Sumário5
As escolhas nas visual novels
Em vários títulos, em alguns momentos durante os textos, você precisa fazer uma escolha importante, que decide o destino do personagem e o rumo do jogo. É quase como se você se tornasse "dono" daquela história, como se pudesse controlar aquele mundo.
Em várias histórias, leitores e espectadores ficam pensando nos diversos "e se". Numa visual novel, esses "e se" são reais. Com escolhas simples, você pode definir o destino de toda uma história, de vários personagens. Todas essas escolhas terão consequências, boas ou ruins: podem melhorar ou piorar o relacionamento com algum personagem, podem ajudar ou atrapalhar na resolução de um caso.
Você terá que sofrer essas consequências e aprender com elas se quiser um final diferente. Por mais que visual novels se afastem da realidade — são jogos, e algumas mergulham no sobrenatural e no fantasioso —, elas também se aproximam dela mais do que muita mídia: te fazem escolher, e a escolha pesa no futuro da história. É quase uma lição de vida, ainda que dentro de um sprite e de uma caixa de texto.
Nem toda visual novel funciona assim. As kinetic novels (romances cinéticos) seguem um único caminho: você avança o texto, ouve a trilha, vê os CGs — e não altera o enredo. Planetarian, da Key, é o exemplo clássico. A interatividade aí é outra: o ritmo da leitura, a música, o momento em que a imagem muda.
Os personagens nas visual novels
Ao jogar uma visual novel, você é apresentado a vários personagens únicos, com personalidades e histórias que grudam. Personagens extrovertidos, tímidos, engraçados, frios, sentimentais, insensíveis... você encontra de tudo nessas VNs.
Você também encontra histórias trágicas envolvendo família, amores passados, traumas que precisam ser superados, amigos de infância. Tudo isso os torna únicos e humanos: a história, os medos, os gostos, o modo de falar. Por isso é fácil se identificar com algum deles — e mais fácil ainda se envolver com o que acontece na tela.
Como, na maioria das vezes, são compostas de texto, arte e escolhas, as visual novels precisam cativar com personagens e história. Quando funcionam, fazem isso muito bem.
As emoções ao jogar visual novel
Com visual novels você experimenta um misto de emoções. Amar e ser amado, a adrenalina de uma aventura, a tensão de um mistério, a tristeza de uma perda, o medo do sobrenatural. Cada história neste formato é um recorte diferente — e cada uma entrega um tipo de peso.
Há um subgênero no Japão chamado nakige (jogo de chorar): a construção vai no cotidiano, no afeto, e depois aperta. Títulos da Key, como Clannad, ficaram famosos exatamente por isso. Não é obrigação de toda VN; é um dos jeitos em que o gênero usa o tempo de leitura a favor da emoção.
A emoção de montar uma teoria e ver se ela se confirma, a sensação de uma escolha certa ou errada, de pegar um final bom ou ruim: essas são coisas que ficam depois que você fecha o jogo.
Os finais de uma visual novel
Como já deu para perceber, muitos títulos definem o final a partir das escolhas — e o que tem de especial nisso é a completude. Numa visual novel, você vê finais felizes, em que tudo se ajeita; finais normais, com despedida e arrependimento; e finais ruins, com briga, perda e relação destruída.
É possível ver todos esses finais, todas as consequências das suas escolhas, num único jogo. Isso torna o título vasto: te faz chorar, rir, se culpar por uma frase que "você" disse, ou simplesmente ficar sorrindo na frente do computador ou do celular porque conseguiu o que queria. É um mar de possibilidades.
O que o Japão viu nesse formato
O "segredo" não é um truque de palco. Visual novels cabem em equipes pequenas, custam menos que um jogo de ação e ainda assim entregam dezenas de horas de texto. No Japão, isso virou indústria: por volta de 2006, o gênero chegou a responder por mais de 70% do mercado de jogos de PC no país. Centenas de títulos saem por ano, muitos no PC, muitos depois adaptados em anime — Steins;Gate, Fate/stay night, Higurashi.
No Ocidente, muita gente chegou no gênero pelo anime ou por um título que "parece jogo demais" para quem esperava só romance: Phoenix Wright: Ace Attorney, Danganronpa, Doki Doki Literature Club!. No Japão, a linha entre visual novel e adventure game é mais rígida; do lado de cá, o guarda-chuva costuma ser mais largo. O que não muda é o centro: texto, imagem, som e, quando há, a escolha que pesa.
Enfim, VNs são portais para mundos únicos. Dá para escapar da realidade e, ao mesmo tempo, treinar o que é escolher e conviver com o resultado. Se quiser começar em português, há uma lista de visual novels em português — traduções e originais — para não ficar só na vontade.
Artigo escrito por Maitê.
Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.
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