Quando pensamos que já vimos de tudo, o Japão nos surpreende. No centro financeiro de Tóquio, em Otemachi, no distrito de Chiyoda, a Pasona — uma empresa de recursos humanos — plantou arroz onde antes ficava o cofre de um banco.
Esse projeto se chamava Pasona O2 (パソナオーツー). Era uma fazenda no segundo subsolo, sem janela para o sol, com cerca de mil metros quadrados e seis salas de cultivo. O prédio de nove andares com galhos saindo pela fachada, que muita gente mistura com a O2, é outro capítulo: a Urban Farm, de 2010.

Sumário 5
O que era a Pasona O2
A O2 abriu em 2005 no segundo subsolo do Otemachi Nomura Building, um edifício de escritórios a poucos minutos da Estação de Tóquio. O espaço tinha sido o cofre do banco Resona. Por isso a entrada era estreita: um elevador específico, no canto do térreo, levava o visitante para um recinto que cheirava a planta, não a concreto.
A Pasona não queria colher tomate para o mercado. Queria um showroom de agricultura no meio da metrópole: mostrar a quem passava o dia em escritório que existia carreira no campo, treinar gente nova e mudar a imagem de uma profissão que o japonês urbano via como distante, suja e pesada. Em quatro anos de operação, a Kono Designs — que desenhou o espaço — registrou mais de 70 mil visitantes, inclusive o primeiro-ministro da época.
A O2 era o cartão de visitas no asfalto: pequena, cara de manter e deliberadamente esquisita. O arroz do subsolo não ia alimentar Tóquio. Ia provar, sob lâmpada, que dava para colher mais de uma safra por ano no porão de um banco.
As seis salas no subsolo
Quem descia encontrava seis ambientes, cada um com um recorte de cultivo. Não era jardim de saguão. Era estufa empilhada no lugar do ouro:
- Sala 1 — Campo de flores
- Sala 2 — Campo de ervas e rosas
- Sala 3 — Campo de arroz
- Sala 4 — Frutas e vegetais
- Sala 5 — Campo de vegetais
- Sala 6 — Germinação e cultivo experimental
Nas flores, havia dezenas de variedades de rosa sob LED branco — um recorte que conversa com o hanakotoba, o significado das flores em japonês, mesmo num porão sem estação visível. Os tomates subiam hidropônicos rumo ao teto. O arroz ocupava prateleiras aquecidas, com lâmpadas de halogenetos metálicos e vapor de sódio a alta pressão. Alfaces cresciam sob fluorescentes. Sementes germinavam em gavetas para não desperdiçar metro quadrado.
Sem sol, com lâmpada e hidroponia
Na ausência da luz solar, as plantas eram sustentadas por diodos emissores de luz (LED), lâmpadas de halogenetos metálicos e lâmpadas de vapor de sódio. A temperatura era controlada por computador. O cultivo era feito sem agrotóxico: no subsolo quase não havia inseto, e o que as plantas recebiam era nutriente e dióxido de carbono, não veneno de lavoura.
Parte da produção ia para a água, com quase nenhum solo — o método da hidroponia, que acelera o ciclo quando a receita de nutrientes e luz está estável. Tomate dava o ano inteiro. Arroz, no calor artificial de cerca de 28 °C, saía mais de uma vez por temporada. Nada disso transformava o porão numa fábrica de alimento barato. Transformava o porão num argumento: se o Japão tem pouca terra e tecnologia de sobra, o escritório também pode ser campo de teste.
Essa aposta conversa com a pergunta que o país carrega há décadas — se o Japão é tão tecnológico quanto a fama sugere. Na O2, a resposta não era robô no arrozal. Era lâmpada, bomba e um RH tentando recrutar agricultor no bairro dos bancos.
O prédio com plantas na janela
Quando a foto mostra a fachada de Otemachi tomada de folhagem, com o letreiro PASONA e ramos escapando da grade, você não está olhando para a O2. Está olhando para a Pasona Urban Farm, a sede de nove andares reformada em 2010 pela mesma Kono Designs. Ali, cerca de quatro mil metros quadrados de área verde — de um total de uns 20 mil do edifício — abrigavam mais de 200 espécies. Tomate sobre a mesa de reunião, arroz no saguão, laranjeira na varanda, funcionário colhendo o que ia para o refeitório.

A O2 foi o ensaio no cofre. A Urban Farm foi o escritório inteiro virando lavoura. Os dois projetos nasceram da mesma teimosia — o campo precisa aparecer na cidade se o Japão quiser gente nova na agricultura — mas são endereços, datas e escalas diferentes. Misturá-los é o atalho que a internet fez, e o que este texto existe para desfazer.
O que restou da ideia
A fazenda do cofre encerrou a operação por volta de 2009, quando a Pasona preparava a sede nova. A Urban Farm recebeu visita até abril de 2017; o prédio de Otemachi 2-6-4 fechou em junho daquele ano e depois foi demolido. Quem chegar hoje na Estação de Tóquio não vai encontrar o elevador do cofre nem o cubo verde da Kono aberto ao público.
O grupo seguiu apostando em agricultura longe do asfalto de Chiyoda, sobretudo em programas rurais. Isso não devolve a O2 ao mapa turístico de Tóquio. Devolve o recorte certo: por alguns anos, no segundo subsolo de um bairro de gravata, houve arrozal onde tinha havido cofre. O resto é sucessor, foto errada e saudade de um endereço que já não existe.
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