Uma das primeiras coisas que notei ao escovar os dentes no Japão foi o sabor. O creme tinha um gosto bem diferente do que eu usava no Brasil, salgado, mais para bicarbonato do que para hortelã. Os tubos que abri naquela época traziam bicarbonato de sódio, e eu saí da farmácia achando que a prateleira inteira era assim.
Será que o flúor é proibido por lá, e será que isso faz bem ou mal? Eu não sou dentista e não vou transformar sabor de creme em diagnóstico. O flúor segue à venda. O que muda, em relação ao Brasil, é a água da torneira e a mistura da prateleira.
A água da torneira não recebe flúor
Fluoretação, para o Ministério da Saúde do Japão, é ajustar o flúor da água potável até cerca de 1 ppm, faixa em que o texto oficial associa menos cárie, com fluorose rara. Yamashina, em Quioto, testou isso de 1952 a 1965. Okinawa manteve de 1957 a 1972 e interrompeu por ocasião da devolução do território dos Estados Unidos ao Japão. Asahi, em Mie, fez o ajuste de 1967 a 1971 e parou com a mudança na rede de distribuição. A página, atualizada em 2 de fevereiro de 2026, registra o encerramento das três.
O 0,8 ppm que circula sobre a água japonesa é outra conta. A norma de qualidade da água, no Ministério do Meio Ambiente, fixa o teto de flúor e de compostos de flúor em 0,8 mg/L, medidos como flúor. Na água, 1 ppm e 1 mg/L são a mesma escala. Há regiões com cerca de 0,4 ppm de flúor natural, e o Ministério da Saúde anota ali algum efeito contra a cárie. A torneira pode trazer esse traço sem o ajuste que aproxima a água de 1 ppm.
Eu também senti a água com outro gosto em relação ao Brasil.
O tubo de bicarbonato e o creme com flúor
O gosto que me estranhou continua na loja. Ainda acho tubo com bicarbonato de sódio e um sabor nada parecido com o creme do Brasil. O embarque da indústria mostra outra proporção no conjunto dos produtos.
A Associação Japonesa de Fabricantes de Creme Dental (日本歯磨工業会) publica o que os associados embarcam. Em 2025, entre pasta, pó e os formatos agrupados fora do líquido e do enxaguante, 91,1% das unidades levavam flúor. Nesse mesmo grupo, 41,6% passavam de 1.000 ppm e iam até 1.500 ppm. De 2021 a 2025, a parcela com flúor ficou entre 91% e 93% das unidades, e a de alta concentração saiu de cerca de 20% para os 41,6% de 2025. A conta é do embarque dos associados.
Na prática, os dois tubos convivem. O de bicarbonato ocupa espaço. Ao lado dele há creme com flúor, inclusive na concentração alta. Quem escova no Japão lê o rótulo para saber a composição.
Fora da escova, o flúor entra por bochecho e pela aplicação no consultório.

No Japão, dente também vira conversa de sorriso. O gesto de cobrir a boca na hora de rir aparece o tempo todo, e a foto acima é desse hábito.

O yaeba é o dente um pouco torto que, para muita gente, faz parte do charme do sorriso.
Quando vejo cárie por aqui, a explicação que me ocorre primeiro é gente adiando o dentista. O plano público cobre tratamento de cárie. No plano da empresa e no seguro nacional de saúde, a regra é pagar 30% do que entra na tabela. Clareamento e implante ficam de fora, e é nessa parte que a conta assusta quem chegou do Brasil. Os valores eu reuni em quanto custa um dentista no Japão.
Na farmácia, passei a olhar o rótulo. O tubo de bicarbonato que eu provei no começo segue lá, e o creme com flúor também. O gosto, sozinho, não diz qual dos dois está na escova. Se menos flúor na água faz bem ou mal, deixo para quem estuda dente.






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