Muitos partem do alto índice de suicídios, da carga horária de trabalho e de outros estereótipos da cultura japonesa para afirmar que o país é uma nação profundamente deprimida. Eu mesmo já ouvi várias pessoas dizendo que os japoneses são tristes. Mas será que isso é verdade? Neste artigo vamos olhar para o tema com mais cuidado e entender alguns dos fatores por trás da imagem de "Japão infeliz".
Imagine trabalhar dez horas por dia, passar horas dentro de trens lotados e comer marmitas ou macarrão instantâneo todos os dias. Isso não é incomum no Japão, especialmente nas grandes cidades. Subir de cargo ou conseguir um aumento é raro. Em alguns aspectos, não é tão diferente da vida em São Paulo ou em qualquer outra metrópole grande.
E a diversão, como fica? Muitos passam o tempo no trem jogando no celular ou assistindo a vídeos; outros vão sozinhos ao karaokê toda semana. A interação social é baixa, até por mensagem. Em casa, sobra tempo para dormir ou para navegar na internet. Como alguém consegue ser feliz com uma rotina dessas?

É irônico, porque o Japão oferece uma enorme variedade de comida, lazer, turismo e pequenos prazeres capazes de preencher qualquer vazio. Mesmo assim, muita gente ainda opta por um estilo de vida totalmente focado em trabalho e dinheiro. Esse padrão é comum, mas não pode ser tomado como a verdade sobre um país de 127 milhões de habitantes.
Sumário 3
Quais são as causas da infelicidade no Japão?
Uma rotina puxada e repetitiva realmente desgasta e pode levar à depressão, um problema que cresce em todo o mundo. Muitos japoneses têm dificuldade de社交izar — às vezes por timidez, às vezes por um forte senso de independência — e raramente se abrem com estranhos.
Ser reservado é humano, e pessoas assim existem em qualquer país. A grande diferença no Japão é que ir ao psicólogo ou ao psiquiatra ainda não faz parte da cultura do dia a dia. Ter alguém que simplesmente escute faz diferença, e infelizmente alguns japoneses nunca têm essa pessoa.

Os estigmas sociais são fortes em quase todas as áreas da vida japonesa. A pressão cultural para não errar é enorme, e essa pressão por si só já gera uma infelicidade profunda. Em casos extremos, e de forma trágica, ela leva pessoas ao pior desfecho. Esses fatores culturais e estruturais geralmente agravam o estado de quem já estava sobrecarregado e estressado.
Na escola, as crianças são incentivadas a sempre dar o melhor, a ser o número um — caso contrário, são vistas como fracassadas. Garotos de apenas 12 anos já apresentam sinais de ansiedade por medo de tirar nota ruim. A sociedade japonesa por muito tempo equiparou status e bens materiais a valor pessoal, e a gente sabe que isso, por si só, não traz felicidade real.
Entendendo o ranking de felicidade
De acordo com o Relatório Mundial da Felicidade, o Japão aparece na 51ª posição. O Brasil, mesmo com todas as crises e a insegurança, está em 21ª. Mas essas posições precisam ser lidas com cuidado.
Se olharmos a tabela abaixo, vamos notar que o Japão só perde feio no quesito "Distopia". Distopia é um benchmark hipotético que representa os menores valores nacionais para cada variável-chave. A pontuação tende a ser menor para vários países ocidentais simplesmente porque as médias nacionais deles são mais altas — o que faz a diferença parecer menor. A conta é um pouco confusa, mas o ponto é que números isolados raramente contam a história toda.
| Pos | País | Pts | PIB | Suporte Social | Expectativa de Vida | Liberdade | Generosidade | Confiança | Distopia |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Noruega | 7 | 1.616 | 1.534 | 0.797 | 0.635 | 0.362 | 0.316 | 2.277 |
| 22 | Brasil | 6 | 1.107 | 1.431 | 0.617 | 0.437 | 0.162 | 0.111 | 2.769 |
| 51 | Japão | 5 | 1.417 | 1.436 | 0.913 | 0.506 | 0.121 | 0.164 | 1.363 |
Nos indicadores usados, o Japão vai bem em muitas áreas. Estatísticas só fazem sentido dentro de um contexto. Por exemplo, no ranking de suicídios, o Japão está em 26º lugar. Os números caíram bastante ao longo dos anos, e a Coreia do Sul hoje ocupa a 10ª posição.
Os fatores que levam ao suicídio incluem desemprego, problemas econômicos e pressão social. Eu pessoalmente não acho que a taxa de suicídios do Japão seja tão dramática quanto o estereótipo sugere: são cerca de 15 por 100 mil habitantes, contra 13 no Brasil e 12 nos Estados Unidos — uma diferença pequena. O Japão é constantemente citado como exemplo, provavelmente porque o país é geograficamente pequeno e a concentração torna os casos individuais mais visíveis.
Os japoneses são felizes?
Afinal, o que é felicidade? Felicidade é algo que se constrói individualmente. Mesmo com problemas sociais reais, os japoneses buscam a felicidade do seu jeito — por meio de um hobby, de um esporte, de um jogo, de alguma atividade pessoal. No Japão existem milhares de formas de vencer o tédio, e ao lado das pessoas que nunca param de trabalhar há muitas que viajam e aproveitam a vida.

O estereótipo de que os japoneses são mais deprimidos do que outros povos é ultrapassado e impreciso. Claro que existem aqueles que se cobram demais e encontram um vazio na própria vida. Mas muitos outros japoneses sabem muito bem o que querem, e foi graças à disciplina, ao cuidado com os detalhes e à disposição para trabalhar que o Japão se tornou um lugar tão confortável para se viver e viajar.
Se a gente parar para pensar só nos próprios problemas, não tem como ficar feliz. O mundo inteiro está numa fase difícil, e a infelicidade está aumentando. O Japão tem a vantagem de oferecer uma boa qualidade de vida — ainda que nem todos tenham tempo e sorte para aproveitar tudo isso. Lembre-se: ter tempo livre e fazer o que se gosta também não é, por si só, garantia de felicidade.
Na verdade, o Japão nem aparece na lista dos 10 países mais depressivos do mundo. Os Estados Unidos lideram esse ranking, onde 1 em cada 6 pessoas toma antidepressivos ou outros medicamentos psiquiátricos. O próprio Brasil aparece em 7º, mostrando que a infelicidade também afeta quem é famoso por nunca desistir e ser positivo.
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