Minha viagem ao Japão - Sonia Regina

O Japão que a gente descobre quando viaja em primeira pessoa: dos sanseis ao piso rouxinol do xogunato Tokugawa.

Trago boas lembranças do Japão. Viajei por este belo país com uma dezena de sanseis (三世), esses "apátridas" que no Brasil são japoneses e que no Japão são brasileiros. O termo sansei designa os japoneses e seus descendentes nascidos fora do Japão, principalmente no Brasil — onde a maior colônia nipônica do mundo vive entre São Paulo e o Paraná desde o início do século XX. Muitos desses brasileiros de origem japonesa voltaram ao país dos avós com a curiosidade típica de quem quer conhecer as próprias raízes: daí a sensação de apátrida descrita pela Sonia, estar em casa nos dois lugares e não se sentir 100% de nenhum.

A única experiência "negativa" da viagem foi o desamparo de não poder ler, a horrível sensação de ser analfabeta. O desejo imenso de decifrar aqueles sinais misteriosos, sem poder perguntar nem entender as falas a meu redor... O kanji (漢字), o sistema de caracteres de origem chinesa usado no Japão, transforma qualquer placa, cardápio ou aviso de estação em um pequeno mistério para quem não leu nada na vida. Mesmo quem aprendeu hiragana e katakana se vê travado diante de um letreiro com três ou quatro kanjis compostos. É uma das sensações mais marcantes de uma primeira viagem ao Japão: virar criança de novo, depender de gestos, setas no chão e da cara de alguém para descobrir onde fica a saída.

Mas o Japão é mais do que eletrônicos, sashimi, amuletos xintoístas e templos budistas. Não vi por lá mangas, animes nem haikus — clichês que o turista brasileiro às vezes leva prontos no imaginário e que, quando confrontados com o país real, dão lugar a impressões bem mais profundas. Em compensação, andei no piso rouxinol em um dos palácios do xogunato Tokugawa! E isso vale por todos os animes que eu não vi.

No segundo dia eu já estava indo ao ofurô (お風呂) coletivo com a naturalidade de quem vai à praia; no terceiro dia, comer arroz com nabo no café da manhã parecia o correto. No terceiro dia eu estava comendo peixe cru e afirmando ser oishii (おいしい, gostoso). O ofurô é a tradicional banheira japonesa de água bem quente, usada para relaxar depois de um dia de caminhada. Existe a versão doméstica, dentro de casa, e a coletiva, em onsen (温泉) e sento (銭湯) públicos, onde a regra é entrar limpo e em silêncio — um pequeno ritual que ensina, aos poucos, a conviver com o outro e a respeitar o tempo de cada um.

Furoshiki — pano quadrado de tecido usado para embrulhar presentes, garrafas e alimentos no Japão

Seguindo a trilha das cerejeiras descobri o furoshiki (風呂敷), uma espécie de origami de pano usado nos tecidos para finalidades diversas: embrulhar presentes, carregar comida quente, garrafas usadas como cantil e até como bolsa. Como não admirar um povo que de arroz, chá verde e flores faz de tudo, de papel e doces? O furoshiki é um pano quadrado, normalmente de algodão ou seda, amarrado de várias formas para virar embrulho, sacola de mercado, bolsa de bento ou até estojo. É prático, reutilizável e bonito — uma ideia que o mundo inteiro está redescobrindo agora na onda de dizer não ao plástico.

Alimentação

O paladar ocidental se choca com a culinária japonesa. No início da primeira semana eu olhava em volta, disfarçadamente, à procura de um pão de queijo... mas acabei por notar a diferença no corpo: mais disposição, melhor digestão, um sentido de plenitude e bem-estar. A base do prato japonês — arroz, peixe, vegetais em conserva, missô, chá verde — é leve em gordura e rica em proteínas magras, o que costuma causar essa impressão logo nos primeiros dias. Não é milagre: é comida de verdade, sem grandes excessos, em porções pequenas.

Essa dieta exótica não me fez correr ao supermercado em busca de ingredientes nem procurar receitas no Google, mas me inspirou a caminhar, meditar e apreciar a beleza singular das montanhas cercadas pelo mar bravio. Voltei com vontade de comer mais peixe, de prestar atenção no que estava no prato e, principalmente, de comer sentado, com calma — uma herança da etiqueta japonesa que, depois de algumas semanas por lá, a gente acaba levando para casa sem perceber.

Panela de sukiyaki na mesa, iguaria japonesa feita com carne fina, tofu, vegetais cozidos em caldo de shoyu e açúcar

O piso rouxinol e o xogunato Tokugawa

O comentário mais engraçado da viagem ficou por conta da nossa guia. Ela nos contou dos japoneses centenários e do baixo índice de natalidade, menos de dois filhos por casal. No Japão tudo é de excelente qualidade e caro; o custo de criar um filho deve assustar. Aí a guia arrematou o assunto com um comentário de desafiar a lógica:

— Japonês não morre, mas também não nasce, né?

E foi justamente nesse passeio que caminhei sobre o piso rouxinol (鴬張り, uguisubari) em um dos palácios do xogunato Tokugawa. O uguisubari é um tipo de piso usado em castelos e templos antigos do Japão cujas tábuas são montadas de forma que qualquer passo faça um som suave, parecido com o canto do rouxinol. Era um sistema de alarme natural: quem entrasse de noite tropeçava nas placas, fazia barulho e o guarda sabia. Hoje, pisar em um é ouvir, em poucos segundos, séculos de engenho japonês. Os Tokugawa (徳川) governaram o Japão de 1603 a 1868, e o palácio que mais recebe visitantes hoje é o Castelo de Edo, no centro de Tóquio, atual sede da família imperial.

A barreira do idioma e a mímica japonesa

Para ser melhor, só mesmo com placas, mapas e folders escritos em outras línguas. Eu não entendia o sotaque monossilábico do inglês deles, e meu acento francês não me ajudou a ser entendida por eles. Porém japoneses são ótimos em mímica! Por gestos, cruzei duas ilhas conseguindo me entender com os comerciantes. Vou sugerir à ONU que engavete de vez o esperanto. Na minha opinião, a linguagem universal que poderá unir nossa Babel será a linguagem de sinais.

Para o turista brasileiro, vale uma dica honesta: não confie só no inglês, e não vá achando que o japonês médio vai falar português ou espanhol. Baixe um tradutor com câmera, decore algumas palavras em japonês ( obrigado: arigatō, por favor: onegaishimasu, com licença: sumimasen) e tenha paciência. A mímica resolve muita coisa, mas uma pequena frase em japonês abre portas que o sorriso sozinho não abre — especialmente em cidades menores, fora de Tóquio e Osaka.

Daruma vermelho de Osaka — boneco tradicional japonês sem pupilas, usado como amuleto de boa sorte e persistência

Monte Fuji e a vontade de voltar

Uma advertência final: não acredite em quem lhe disser que poderá ver o monte Fuji de qualquer lugar de Tóquio e perfeitamente do alto do mirante Tokyo Skytree. Mentira! Fuji-san, como é carinhosamente chamado, escondeu-se nas nuvens que circundam a capital. Virou monte Fugiu...

Os japoneses são na deles, eu sou na minha, por isso senti-me tão bem por lá. Pretendo voltar. O outono me aguarda... Dewa mata (でわまた, até logo). E se você também estiver planejando essa viagem, anote: o Fuji só aparece em cerca de 30% dos dias em Tóquio, especialmente no fim do outono e no inverno, com ar mais seco. Em Hakone, a pouco mais de uma hora da capital, a chance de ver a montanha sobe consideravelmente, e o passeio de barco pelo lago Ashi vira um cartão-postal quando ela aparece sem véu.

Se você já foi ao Japão, sabe do que estou falando. E se ainda não foi, depois de ler o relato da Sonia vai entender por que tanta gente volta. Você também voltou ou já está planejando a próxima? Conta nos comentários qual foi o detalhe que mais te marcou — foi o ofurô, o furoshiki, o piso rouxinol ou o Fuji-san escondido nas nuvens?

Escrito por: Sonia Regina Rocha Rodrigues

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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