No primeiro domingo de abril, Kawasaki enche de gente que ri, tira foto e carrega algo que, de longe, parece brincadeira de mau gosto. De perto, o Kanamara Matsuri (かなまら祭り) — o famoso festival do pênis de aço — é um matsuri de santuário com história de trabalho sexual, forja e proteção do corpo. O contraste entre o choque visual e a fé xintoísta é o que prende o olhar do visitante.
O evento acontece no Santuário Kanayama (金山神社), dentro do complexo do Wakamiya Hachimangu, em Kawasaki (Kanagawa), a um pulo de Tóquio. O que parece só excentricidade japonesa para a câmera estrangeira carrega orações por fertilidade, parto seguro, harmonia de casal e saúde sexual — e, nas últimas décadas, também arrecadação ligada à prevenção de DST e HIV.
Sumário 6
Origem do Kanamara Matsuri
As raízes do culto em Kanayama remontam ao período Edo (1603–1868). No distrito de Kawasaki, as meshimori-onna (飯盛女) — mulheres do comércio sexual da estação de postas — frequentavam o local pedindo proteção contra sífilis, gonorreia e outras doenças, além de prosperidade no ofício. O santuário também recebia ferreiros e artesãos do metal, que oravam por segurança no trabalho e boa forja.
As divindades de Kanayama — Kanayamahiko e Kanayamahime — são associadas à metalurgia. Daí o jogo de palavras entre “Kanayama” e “kanamara” (金魔羅), em que mara funciona como eufemismo fálico. O goshintai (objeto sagrado) do culto é um falo metálico, e o santuário passou a ser conhecido popularmente como “Kanamara-sama”.

Com o tempo, o culto sexual quase se apagou: decadência no século XX, guerras e o silêncio social em torno do tema enfraqueceram o santuário. A partir da década de 1960, etnógrafos estrangeiros redescobriram o local; em 1977 formou-se a kanamara-kō (かなまら講), associação de fiéis que reorganizou o festival moderno, recriando o antigo “jibeta matsuri” (地べた祭) e acrescentando mikoshi fálicos e cortejos que moldaram o espetáculo de hoje. Ou seja: a fé e o pedido de proteção vêm de séculos; o festival público que lotou as ruas é um renascimento contemporâneo, não uma festa “ininterrupta há 300 anos”.
A lenda do pênis de aço
O apelido “festival do pênis de aço” não vem de um falo “à prova de queda” no transporte da procissão. A lenda popular conta que um demônio de dentes afiados habitava o corpo de uma mulher e feria os maridos na noite de núpcias. Um ferreiro forjou um pênis de ferro (ou aço) duro o bastante para quebrar os dentes da criatura e libertá-la. Essa imagem de metal que protege e “cura” se encaixa no santuário de forja e no goshintai metálico que ainda se vê no pátio.
Como boa parte do folclore, a lenda circula por versões e detalhes. O que importa no culto é o símbolo: metal, proteção sexual, fertilidade e a ideia de que o sagrado pode residir num objeto que o visitante ocidental acha só engraçado ou obsceno.
Como é o dia do festival
No primeiro domingo de abril, o destaque é a procissão de mikoshi (神輿) em forma de falo. Tradicionalmente aparecem três:
- Kanamara Omikoshi — o de madeira, o mais antigo do conjunto atual;
- Kanamara Fune Mikoshi — o “barco” com falo de ferro preto;
- Elizabeth — o rosa, doado por um clube de drag de Asakusabashi, que virou ícone fotográfico do festival.
Há comida e souvenires no mesmo tom (doces, velas, daikon esculpido, chaveiros), danças e um público misto: famílias, casais pedindo filho, turistas e participantes LGBTQIA+ em trajes coloridos. O tom é festivo, mas o santuário pede respeito: é matsuri sagrado, não carnaval de assédio. Parte da arrecadação e da narrativa moderna liga o evento à conscientização e ao apoio contra HIV e outras ISTs.

Curiosidades do Kanamara Matsuri
Além das estátuas e dos mikoshi, o festival costuma vender alimentos e doces em formato fálico — espetos, salsichas, sorvetes, crepes e biscoitos — no mesmo espírito de outros matsuri fálicos do Japão. Muitos turistas vão só pela foto; quem fica um pouco mais percebe o emaranhado de turismo, humor e fé.
No exterior o evento às vezes aparece como “Utamaro Festival”, em referência ao artista ukiyo-e Kitagawa Utamaro e à tradição erótica visual japonesa. O nome internacional ajuda a explicar por que o matsuri de Kawasaki virou ímã de mídia e de guias de “Japão peculiar”.
Quem busca outros matsuri e nomes em japonês pode partir da nossa lista de festivais do Japão; para outro rito de fertilidade e colheita, o contraste com o Hounen Matsuri abaixo completa o mapa.

Como chegar ao Santuário Kanayama
O Santuário Kanayama fica no terreno do Wakamiya Hachimangu, a poucos minutos a pé da estação Kawasaki-Daishi (linha Keikyu Daishi). De Yokohama, o trajeto de trem costuma ficar em cerca de 15–20 minutos até a região; de Shinjuku, conta-se em torno de 45–50 minutos com baldeação para a rede Keikyu, conforme o horário. No dia do festival, a multidão é densa: chegue cedo, espere filas e prepare-se para caminhar entre barracas e cortejos.
Se sobrar fôlego, o grande Kawasaki Daishi (Heikenji) fica na mesma área e vale a visita para equilibrar o dia entre matsuri “estranho” e templo clássico.
Hounen Matsuri — outro festival do falo
O Hōnen Matsuri (豊年祭) é celebrado anualmente em Komaki, na prefeitura de Aichi, em meados de março. Também desfila um grande falo em procissão até o santuário local e atrai turistas que querem entender o culto à fertilidade fora de Kawasaki. “Hōnen” (豊年) remete a “ano de colheita abundante”: o rito une sexualidade simbólica, prosperidade agrícola e peditório de boa safra.

Kanamara e Hounen não são a mesma festa nem a mesma origem local, mas conversam: no Japão, o falo em matsuri não é só humor de internet — é linguagem religiosa de fertilidade, proteção e ciclo da vida. O Kanamara, em especial, carrega ainda a memória das trabalhadoras sexuais de Kawasaki e a reinvenção moderna que transformou um santuário quase esquecido num dos matsuri de primavera mais fotografados do país.
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