Estabelecimentos que proíbem entrada de estrangeiros no Japão

Estabelecimentos que proíbem entrada de estrangeiros no Japão

Quando a placa é só idioma japonês e quando o estabelecimento realmente fecha a porta.

Há estabelecimentos no Japão em que você provavelmente vai acabar se deparando com um cartaz escrito "Somente Japoneses", Japanese Only ou alguma variação no mesmo espírito. Não se preocupe: isso é raro. O problema é que, quando alguém vê, a foto já caiu na internet.

A intenção desses cartazes, quando são mesmo de exclusão, é manter o estrangeiro do lado de fora. Há pretextos de idioma, de atendimento, de "atmosfera do lugar" — e, em alguns casos, dá para resumir com preconceito. O detalhe que a foto viral quase nunca explica: uma placa de "só falamos japonês" e uma de "japoneses only" não são a mesma coisa.

Vale deixar claro que o Japão não é o único lugar do mundo com esse tipo de recusa. Existe, na maioria dos países, ao menos algum estabelecimento do tipo. Já me deparei com placas realmente racistas, permitindo a entrada apenas de brancos, em países como os EUA.

Não saia julgando o Japão ou os japoneses por causa de 1 estabelecimento dentre milhões. Chamar os japoneses de preconceituosos por causa de uma placa de um local aleatório só torna você preconceituoso.

Cartaz Japanese Only na entrada de um estabelecimento no Japão
Sumário 4

Por que alguns lugares colocam essa placa?

Existem vários fatores. Pode ser que os funcionários não dêem conta de atender cliente em outro idioma. Pode ser um serviço fechado, de sócios, de fregueses de sempre. Em alguns cantos o negócio é obscuro ou anda perto da yakuza. E uma parte visível dessas placas aparece em locais +18, bares de hostess e casas de entretenimento adulto, que já escolhem clientela com lupa.

Acho que dificilmente o dono vai pregar o cartaz só no espírito de "aah num gosto de gaijin", porque isso também corta o próprio lucro. Já entramos em pubs bem japoneses, onde os donos nunca tinham se deparado com um estrangeiro, não falavam nenhum outro idioma e ficaram muito felizes em nos conhecer.

Tem ainda outra restrição que a internet mistura com esta, e não é a mesma: onsen, sento e piscina que barram tatuagem. Ali o estigma é o da yakuza, não o passaporte. Dá para ser japonês, ter irezumi e ouvir o mesmo "não" que o turista tatuado.

Japanese Only não é a mesma coisa que "só japonês"

Muita placa que viraliza como "proibido estrangeiro" está, na verdade, avisando outra coisa: a casa só opera em japonês. Cardápio em kana e kanji, staff sem inglês, coreano ou chinês, e zero paciência para customizar o pedido no aplicativo de tradução enquanto o resto da fila espera. Isso é barreira de idioma. É chato. Não é, por si só, uma política de raça.

A linha vermelha aparece quando o texto sai do idioma e vai para a pessoa. "Porque só falamos japonês" num parágrafo e, no seguinte, "não aceitamos clientes de fora do país" — mesmo que a pessoa peça em japonês, more no Japão ou tenha nacionalidade japonesa e "cara de gaijin". Aí não é cardápio. Aí é exclusão por aparência ou nacionalidade.

Em 2023, uma izakaya em Naha, Okinawa, colou exatamente esse híbrido: o staff só falava japonês, seguido de Japanese Only e da recusa a clientes vindos do exterior. A prefeitura pediu para tirar o cartaz; o dono primeiro recusou, depois removeu dizendo que o texto estava errado. O caso virou notícia porque o recado misturava desculpa de língua com porta fechada para quem não fosse japonês.

Existe preconceito nessas placas?

Não há como negar que existe uma mentalidade anti-estrangeira no Japão, mas isso não cai do céu. Estrangeiros nem sempre mantêm uma boa reputação. Apesar de ser coisa de uma meia dúzia de manés, o coletivo paga pelo que alguns indivíduos fazem.

Como o estrangeiro se destaca no meio da rua, um mal-educado consegue sujar a fama de um bando de gente que não tem nada a ver com ele. De vez em quando uma história dessas aparece na mídia japonesa. Há ainda treta antiga da geração que viveu a guerra com quem "não parece japonês".

Placa de um estabelecimento escrita em japonês, inglês, chinês e coreano avisando uso exclusivo para japoneses.
Placa de um estabelecimento escrita em japonês, inglês, chinês e coreano. A placa avisa que a loja é de uso exclusivo de japoneses.

O caso que virou referência foi o da Yunohana, em Otaru, Hokkaido. Nos anos 1990 o onsen colocou Japanese Only depois de briga com marinheiros russos. Em novembro de 2002, o tribunal distrital de Sapporo condenou o estabelecimento a pagar 1 milhão de ienes a cada um dos três autores da ação. Um deles já tinha nacionalidade japonesa e mesmo assim foi barrado pela aparência. A prefeitura de Otaru saiu ilesa; a casa, não.

O Japão entrou na convenção da ONU contra discriminação racial em 1995, e a Constituição fala em igualdade. O que falta é uma lei civil larga, daquelas que derrubam o cartaz no mesmo dia. Por isso cada episódio vira notícia, visita da prefeitura ou processo pontual — não uma multa automática na esquina.

Os tempos mudaram, e ninguém merece escárnio só porque coincidiu de pertencer ao mesmo grupo de quem fez merda. Se você é uma pessoa decente, por que sofrer discriminação por ser estrangeiro? Por que pagar o pato pelo que outras pessoas fizeram?

Quem quer o panorama maior de xenofobia no dia a dia — aluguel, emprego, rua — encontra em estrangeiros são discriminados no Japão?

O que fazer nesses casos?

Apesar de ser difícil encontrar esses estabelecimentos, o trato é simples. Vá a outro lugar. Não é você que está perdendo alguma coisa. São eles que estão perdendo cliente.

Em geral esses lugares não têm fama boa. Tem japonês que também evita. Na maior parte das vezes o serviço não é grande coisa.

Se for restaurante, bar ou o que for e a placa estiver clara, dirija-se a outro. Você não estará perdendo nada. Leia o texto inteiro: se for só "atendemos em japonês", e você se vira no idioma, muita casa deixa entrar. Se for "japoneses only" sem meio-termo, a conversa já acabou na porta.

Se o comércio te ofendeu, pense bem antes de gastar o dia denunciando ou lamentando na internet. Lugares assim não são exclusivos do Japão; existem estabelecimentos nesse espírito em países como a Rússia e a Coreia do Sul. O cartaz é um recado. O seu dinheiro também.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

Comunidade

Comentários

0 comentários

Ainda não há comentários publicados neste idioma.

Enviar um comentário

Comente este artigo

Verificação anti-spam

Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.