Muita gente abre um mangá e sai com a certeza de que o japonês é lido “de trás para frente”, como se o livro inteiro fosse um espelho do árabe. A confusão é compreensível: a capa parece estar no lado “errado” e as colunas descem em vez de marchar na horizontal. Só que isso não prova que a língua escreve ao contrário — prova que o japonês tem mais de um caminho para organizar o texto na página.
A leitura depende do formato escolhido: vertical tradicional ou horizontal moderna. E a escrita mistura três sistemas no mesmo parágrafo. Antes de achar que o idioma é um labirinto, vale separar o mito do mangá da prática real de quem lê jornal, livro didático ou mensagem no celular.

Sumário 7
Japonês se lê ou escreve ao contrário? De trás para frente?
A resposta à pergunta “O japonês é lido de trás para frente?” é um não definitivo. O japonês não é lido de trás para frente no sentido de inverter o sentido das palavras como no árabe.
A escrita e a leitura do idioma japonês, no formato mais familiar a quem vem do português, seguem da esquerda para a direita. Muitos acreditam no contrário por causa de mangás, light novels e livros tradicionais abertos pelo “final” ocidental — mas existe uma razão de diagramação e não significa que cada frase tenha sido escrita ao contrário.
Tategaki — leitura da direita para a esquerda na vertical
A forma tradicional de escrita japonesa em jornais e em vários livros é a vertical. Nesse caso, a leitura das colunas avança da direita para a esquerda, como se vê em muitos mangás.
Esse padrão se consolidou quando o texto era traçado com pincel em rolos e pergaminhos: a mão descia a coluna e a próxima coluna ficava à esquerda. Esse tipo de leitura chama-se tategaki [縦書き], literalmente “escrita na vertical”. O texto sobe e desce em colunas, de cima para baixo, e as colunas se organizam da direita para a esquerda.
O tategaki aparece sobretudo em jornais, mangás, light novels, livros tradicionais, panfletos e anúncios. Em geral, a “capa” dessas publicações fica do lado oposto ao de um livro ocidental — daí a sensação de abrir o volume “ao contrário”.

O fato de o texto vertical ser lido da direita para a esquerda não significa que cada ideograma ou kana tenha sido desenhado de trás para frente. O traçado de um kanji ou de um kana costuma começar pela esquerda do caractere.
Diferente do alfabeto latino, o japonês não “liga” as letras em cursiva contínua na página impressa: cada caractere ocupa seu bloco. Isso dá flexibilidade para montar colunas ou linhas sem inverter o desenho interno dos sinais. É como escrever tudo em letra de forma, caractere por caractere.
A imagem abaixo mostra o hiragana organizado no sentido do tategaki; ainda assim, dentro de cada sílaba a ordem dos traços segue a lógica de escrita do sinal, não uma leitura “espelhada”.

Yokogaki — da esquerda para a direita na horizontal
A escrita horizontal da esquerda para a direita, no hábito ocidental, chama-se yokogaki [横書き], literalmente “escrita horizontal”.
Esse formato ganhou força depois da Segunda Guerra Mundial, com a influência estrangeira e a ocidentalização de materiais escolares e técnicos. Não é que a escrita horizontal não existisse antes — ela só não era o padrão mais comum no cotidiano impresso.
Hoje o yokogaki é onipresente: alunos usam em cadernos e livros didáticos, placas e panfletos o adotam com frequência, e a maior parte do que roda em tela — sites, apps de mensagem e redes sociais — segue a linha horizontal. Publicações traduzidas do exterior também costumam chegar em yokogaki.

Qual escrita é mais comum no japonês? Vertical ou horizontal?
Não existe um “melhor” absoluto: tanto o tategaki quanto o yokogaki são usados. Tudo depende do suporte, do gênero e do costume editorial.
As duas formas podem conviver na mesma página — título horizontal, corpo vertical, legenda de anúncio misturando os eixos — e se encaixam no espaço disponível. Para falantes nativos, a ordem do bloco (coluna ou linha) raramente “quebra” a compreensão, porque os caracteres já são unidades separadas. Quem cresceu lendo jornais e romances em vertical pode preferir o tategaki; quem vive no digital tende a achar o yokogaki mais natural.
Em resumo prático: mangá e muita ficção impressa ainda puxam para o vertical; escola, ciência, tecnologia e internet puxam para o horizontal. Os dois continuam legítimos no mesmo país, no mesmo dia.

Leitura da direita para a esquerda na horizontal
Antes da Segunda Guerra Mundial, quando a leitura vertical era mais comum, o hábito de avançar da direita para a esquerda também aparecia em faixas e textos horizontais curtos.
Quando faltava espaço ou o design pedia uma linha em vez de coluna, a escrita horizontal podia seguir da direita para a esquerda. Muitos japoneses não tratavam isso como um “terceiro sistema”, e sim como colunas de um caractere — uma extensão visual do tategaki. Hoje essa forma é vista como antiquada e quase só aparece quando se quer um ar retrô em cartaz, marca ou decoração.
Os três sistemas de escrita no mesmo texto
Além da direção da página, o japonês mistura três inventários de sinais no dia a dia:
- Kanji — ideogramas de origem chinesa que carregam significado (e muitas vezes mais de uma leitura);
- Hiragana — silabário usado em partículas, terminações verbais, palavras nativas e textos didáticos;
- Katakana — silabário para empréstimos estrangeiros, onomatopeias, ênfase e nomes de marcas.
Um parágrafo de jornal ou de romance costuma misturar os três sem avisar: o substantivo em kanji, a gramática em hiragana, o nome de um produto em katakana. Por isso a sensação de “escrita difícil” não vem só da direção vertical — vem da convivência desses sistemas. Quem quer aprofundar o alfabeto silábico encontra o guia de hiragana e katakana; quem questiona se vale a pena estudar a escrita em si pode ler também sobre a dificuldade e a necessidade da escrita japonesa. Vestígios históricos da escrita em madeira aparecem no artigo sobre mokkan.
A gramática parece “ao contrário”
Mesmo quando a linha corre da esquerda para a direita, outra coisa costuma confundir quem estuda a língua: a ordem das palavras. O japonês costuma seguir o padrão SOV (sujeito–objeto–verbo), com o verbo no final da sentença.
A gramática japonesa, em muitos pontos, é regular e previsível — mas essa mudança de posição do verbo bagunça o reflexo de quem pensa em português (SVO). Não é que a frase esteja “escrita de trás para frente”; a estrutura é outra. Para montar frases com essa lógica, o caminho natural é o guia de estrutura SOV e ordem das frases em japonês.
No fim, o “mistério” do japonês escrito se desfaz em camadas: direção da página (tategaki ou yokogaki), inventário de sinais (kanji, hiragana, katakana) e ordem gramatical. Cada camada tem regra própria — e nenhuma delas é simplesmente “ler o livro de trás para frente”.
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