Como disfarçar e fingir ser fluente em japonês

Como disfarçar e fingir ser fluente em japonês

O truque não é um discurso decorado: é parecer que você está na conversa.

No Japão é fácil sobreviver e enfrentar situações do dia a dia usando poucas palavras e frases básicas. Esse é um dos grandes motivos da maioria dos brasileiros que moram no Japão não falarem japonês fluente ou mesmo intermediário.

O intuito não é enganar ninguém, apenas disfarçar os anos de estudo e procrastinação que não ensinaram você a manter uma conversação. Isso acontece com muitos estudantes de japonês e de outros idiomas. Eles estudam dia e noite, aprendem milhares de palavras, verbos e expressões gramaticais, mas na hora de conversar simplesmente falham.

Chegar à fluência do japonês exige tempo, muita dedicação e imersão com japoneses para treinar a conversação. Alguns têm certo receio de conversar com japoneses pelo medo de errar e não falar direito. As dicas daqui vão ajudar você a disfarçar e fingir entender o que está acontecendo ao seu redor.

Máscaras japonesas de papel alinhadas, com tengu vermelho, kitsune branco e otafuku

Outros precisam aprender rapidamente algumas palavras para fazer discursos ou se apresentar no Japão. Muitos famosos aprendem nem que seja alguma frase no idioma nativo para falar aos fãs. Algumas coisas como sotaque e palavras informais são importantes para essas e outras ocasiões.

E não se deixe enganar só porque um japonês disse nihongo jouzu (日本語上手) para você. Essa expressão é comum ser ouvida por qualquer pessoa que fala uma palavra em japonês.

Lembrando: não tente fingir falar japonês sem saber nada sobre o idioma. Você precisa de pelo menos um curso básico de japonês para o disfarce não cair na primeira pergunta real.

Sumário 4

Aizuchi: expressões para fingir que você entendeu

O primeiro passo para mostrar que você sabe japonês não é um discurso longo. É o aizuchi (相槌, あいづち): aquelas interjeições curtas que o ouvinte solta enquanto o outro ainda fala, para mostrar que está prestando atenção. No português a gente costuma esperar em silêncio; no japonês o silêncio parece desinteresse.

A armadilha mais comum: はい (hai), ええ (ee) e うん (un) usados como aizuchi significam “estou acompanhando”, não “eu concordo com a proposta”. Uma sequência de hai numa conversa de trabalho não é contrato assinado.

Além do sim e não de livro, varie confirmações e recusas para o japonês soar mais natural e informal:

  • うん - un — aham, estou ouvindo (casual; não é concordância automática);
  • そう - sou — isso mesmo; com desu fica そうです;
  • そうですか - sou desu ka — é mesmo? entendi o que você disse;
  • なるほど - naruhodo — saquei o raciocínio;
  • ええ… - ee… — confirmação ou hesitação, conforme o tom; é o nosso “eee…”;
  • ちょっと - chotto — espere, um pouco; em recusa, costuma ser um “não” educado disfarçado;
  • 大丈夫 - daijoubu — tudo bem, não se preocupe; também pode recusar um convite com suavidade;
  • 違う - chigau — errado, diferente;
  • 無理 - muri — impossível;
  • だめ - dame — não dá, não é bom;
  • 出来ない - dekinai — não consigo / não posso;
  • ない - nai — negação no fim dos verbos.

Os japoneses evitam ao máximo negar as coisas na cara da pessoa. Eles sempre usam desculpas ou alternativas para não falar um não seco. Se você for negar ou rejeitar alguma coisa, tente adiá-la para amanhã, falar sumimasen e inventar uma desculpa leve.

Se você se sentir isolado ou precisa entrar na conversa, あの (ano) funciona como um “ei” para chamar atenção. Alongado, あのー, fica mais suave. Para ganhar um segundo enquanto a frase se forma, えっと (etto) é o “hã…” do japonês — não é o mesmo papel do ano.

Cliente e cozinheiro conversando no balcão de um izakaya no Japão

Dicas para disfarçar seu japonês

Evite usar um simples arigatou para agradecer. Em conversa informal, um どうも (dōmo) curto costuma soar menos de livro. Durante conversas informais também é comum engolir partículas como を (wo) que vem antes de verbos.

Outra dica é estudar bastante as terminações das frases japonesas. Tente não ficar apenas no desu e masu. Você deve aprender algumas gírias e partículas finais para deixar a conversa mais informal. Nosso artigo sobre linguagem de gênero oferece diversas opções de terminações informais para usar em suas frases.

Use あなた (anata) apenas se estiver falando com um estranho — e mesmo assim com parcimônia, porque em japonês “você” repetido soa estranho. Dá para usar お前 (omae) ou 君 (kimi) só quando a relação realmente permitir. Às vezes é desnecessário usar anata em todas as frases que você fizer à mesma pessoa.

  • Tente usar o nome das coisas em vez de falar só これは (kore wa) “isto”;
  • Aprenda expressões do dialeto local se você mora numa região específica — Kantō e Kansai não soam iguais.
Homem de terno diante de várias portas brancas, escolhendo um caminho

Como ter um bom sotaque no idioma japonês

Alguns possuem dificuldade em falar japonês por causa do sotaque em português. Felizmente os brasileiros têm uma facilidade bem maior do que os nativos de língua inglesa: a maioria dos fonemas japoneses é parecida com as sílabas do português.

Embora os japoneses não coloquem ênfase tônica nas palavras como o português, eles usam acento de tom. Homófonos como hashi (橋, ponte) e hashi (箸, pauzinhos) soam um pouco diferentes. Vale ouvir as duas e tentar pegar o tom, em vez de gritar a sílaba “forte” como no português.

O que denuncia o iniciante não é tanto o “r” isolado, e sim três hábitos:

  • Vogal longa (長音, chōon) — おばさん obasan é tia; おばあさん obaasan é avó. ビル biru é prédio; ビール biiru é cerveja. Segurar o som o dobro do tempo muda a palavra.
  • Consoante dupla (促音, sokuon) — o っ pequeno corta o ar. 来て kite (venha) não é 切手 kitte (selo).
  • らりるれろ — não é o “r” caipira nem o “r” inglês. É um toque rápido da língua, mais perto de um “d” leve do que de um “rr”.

O japonês também anda em moras: とうきょう não são duas sílabas “Tô-quio”, são quatro tempos. Se você comprimir como no português, o ouvido nativo sente o atropelo mesmo quando o vocabulário está certo.

Se tornando fluente no idioma japonês

É claro que se você quer falar japonês deve aprendê-lo de verdade. Fingir falar japonês não vai funcionar a longo nem a curto prazo. Ser fluente é um desafio que leva muito tempo. Ao usar esses disfarces, tenha em mente os objetivos de verdade:

  • Dominar as frases necessárias do seu dia a dia;
  • Aprender a construir uma frase em japonês sem traduzir palavra por palavra;
  • Dominar a gramática básica do japonês.

Se conseguir cumprir esses pontos, a conversa deixa de ser teatro. As dicas daqui servem para enfrentar a vergonha de falar e se socializar com japoneses — por isso não tenha medo de errar. Só não tente fingir que sabe japonês apenas porque assiste anime: isso é o atalho do weeaboo, e cai na primeira pergunta fora do roteiro.

Fontes e Links Úteis

Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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