De vez em quando a televisão ainda empilha uma reportagem generalizada e aponta o anime japonês como culpado de alguma tragédia. O mesmo filme se repete com jogo: o desenho “estranho” vira o vilão fácil da semana.
A pergunta que sobra em casa é outra. O que realmente influencia a criança — a obra, a dublagem que troca palavra leve por palavrão, o que ela já ouve na rua, ou a falta de quem assiste junto?
Sumário 10
Os animes influenciam as crianças?
Não apenas animes, mas jogos, séries, filmes, amigos, músicas e qualquer outra coisa consegue influenciar negativamente ou positivamente tanto uma criança como um adulto.
Somos moldados por tudo que ouvimos e vemos, basta olharmos para pessoas vivendo em diferentes localidades. Algumas acabam pegando hábitos de falar palavras impróprias, outras têm um vocabulário mais formal.
No Brasil mesmo, temos um imenso vocabulário de palavrões e gírias de conotação sexual usados com uma alta frequência, e isso tem se tornado cada vez mais comum, no dia a dia como na mídia.
Do outro lado do mundo, temos os japoneses que usam honoríficos de tratamento (Sr. Sra) a todo momento ao falar o nome de alguém, e que raramente falam palavrões — que em geral têm significados bem mais inofensivos.
Alguns animes legendados ou dublados para o português geralmente trocam palavras japonesas de significado leve por gírias pesadas, do tipo porra e caralho. Na minha opinião tais alterações influenciam muito mais negativamente que a obra original em questão.
Chegamos à conclusão que sim, animes conseguem influenciar as pessoas. Na verdade, os animes têm muita influência cultural, algo que pode ser muito positivo.

Entenda a influência do anime
Agora que você sabe que tudo consegue influenciar as pessoas, pare de colocar a culpa nos animes. Assim como filmes e séries, existem tipos e gêneros de animes.
Dificilmente um anime vai ter mais violência e imoralidade que qualquer filme ou série disponível na Netflix. A não ser que seu filho esteja assistindo animes gore (sangrentos) ou animes hentai (adulto).
Animes famosos geralmente criticados pela televisão como Death Note, que tem uma ambientação escura com terror psicológico, vão ensinar seu filho sobre as consequências dos atos e podem torná-lo mais atento ao que lê. Não é necessário ter medo dele escrever seu nome em um caderno da morte, ou acredita em superstições?
Agora um ponto importante: assim como filmes e séries, animes têm classificação e faixas etárias. No Brasil, o recorte prático é a Classificação Indicativa — Livre, 10, 12, 14, 16 e 18 — e o selo que o próprio streaming coloca na capa. Se você acredita que determinada série de anime não é apropriada para seu filho, então tudo bem, impeça de assisti-lo, mas não coloque a culpa “nos animes”, porque seus filmes e novelas são bem piores.
Raramente um anime vai mostrar um casal fazendo sexo nos primeiros episódios como acontece nas séries e novelas de hoje. A maioria dos animes termina sem sequer um beijo. Até mesmo os animes com cenas picantes cheias de fanservice geralmente não têm cenas adultas.

Animes oferecem influência positiva
Os japoneses têm uma criatividade gigantesca com animes, eles criam obras sobre absolutamente qualquer assunto. Existem animes sobre pessoas virando astronautas, animes sobre esportes, animes sobre artes, música e cultura.
No Ocidente temos uma cultura machista onde jovens homens precisam gostar de coisas de ação, sangue e violência, mas os animes tornaram muitos marmanjos em amantes de romances e animes shoujo.
O Japão não precisa colocar violência em suas obras para atrair o público masculino, geralmente eles focam nas histórias e na criatividade, muitas vezes se passa na escola e ensina lições importantes que geralmente os ocidentais não aprendem no colégio.
Se você quer uma criança com menos chance de se envolver com coisas erradas, colocá-la para assistir animes com critério é um caminho forte. Ela pode aprender muito com a cultura japonesa que incentiva educação, respeito e esforço — desde que a obra combine com a idade.

Proibir uma criança de assistir animes é privá-la de uma boa influência. O melhor é ser seletivo e assistir junto com seus filhos, até porque as animações japonesas são feitas para todas as idades — e “todas as idades” não significa que cada título serve para a mesma criança.
Muitas pessoas, até aquelas que não têm nada contra animes, geralmente têm um prejulgamento pensando ser algo chato e sem graça. Hoje minha mãe, minha esposa e muitos dos meus amigos já se renderam aos animes.
Dificilmente alguém que faz uma boa escolha e assiste o anime por inteiro não vai se apaixonar pelas obras criativas e motivadoras que os japoneses fazem. Muitos se apaixonam pela cultura e ficam até mesmo com vontade de aprender o idioma japonês.
Imagina: seu filho começa a assistir animes, se torna uma pessoa educada, ajuda a limpar a sua casa, começa a estudar um novo idioma, se dedica aos estudos e trabalho. Isso não te deixaria muito feliz? Esse é o poder dos animes!

Os animes são perigosos para as crianças?
Basicamente falar sobre a influência dos animes já respondeu pela metade toda essa pergunta. Algumas crianças são mais suscetíveis ao transporte para dentro do cenário da história, o que pode ocasionar em alguma rara tragédia que observamos na televisão.
Isso não é culpa dos animes, mas sim dos pais que não compreendem seus filhos, como eles são suscetíveis às influências ou em qual fase da vida eles estão passando.
Um amigo psicanalista me disse recentemente que os pais geralmente levam os filhos ao consultório falando coisas como: aaah, meu filho é muito rebelde, meu filho é muito imaturo ou agitado.
Esse meu amigo disse que isso é muito normal, e que todas as crianças normais precisam passar por isso até chegar à fase adulta. Os pais que precisam lidar melhor com isso.
Você prefere que seu filho se vista de fantasia e brinque num mundo imaginário ou se envolva com más companhias ou até drogas na escola? Animes não oferecem nenhum risco, contanto que os pais conheçam seus filhos.
Contanto que você obedeça às faixas etárias dos filmes, séries, jogos e animes, essas coisas não vão apresentar nenhum risco para seus filhos. Muitas vezes tais tragédias acontecem por falta de atenção dos pais.

Animes são coisas do demônio?
De fato, na cultura japonesa o cristianismo é quase inexistente. As religiões japonesas acreditam em vários deuses e demônios, e muitos costumam aparecer em suas obras como referência cultural ou personagens da história.
Se você é uma pessoa religiosa que acredita firmemente que é errado consumir qualquer material envolvendo magia ou coisas sobrenaturais, você sim vai precisar ser seletivo com os animes de seu filho.
Mas vale deixar claro que existem tipos de animes, e sua grande maioria não tem absolutamente nada com as criaturas do folclore japonês. A grande maioria envolve cotidiano, ficção científica e vida escolar.
Nesta década uma grande onda de animes isekai que aborda a vida em outro mundo tem sido lançada com muita frequência. Esses animes sim geralmente têm algo como poderes mágicos ou demônios.
Vale deixar claro que os “demônios” da cultura japonesa não são o diabo da Bíblia. O oni costuma ser ogro de chifre e porrete: às vezes vilão, às vezes guarda da porta. Yokai é um guarda-chuva de espíritos e criaturas, do kappa ao kitsune, que pode ajudar ou assustar. Akuma chega mais perto da ideia de espírito maligno. Traduzir tudo como “demônio” é o atalho que gera o susto.
Então, caso você deixe seus filhos assistir obras da Disney ou Marvel, não precisa ter tanta preocupação com animes só porque apareceu um oni na tela.
Eu sou Testemunha de Jeová, uma religião que segue os princípios da Bíblia à risca, mesmo assim, eu e muitos de nós amamos animes. Até porque consideramos uma das poucas coisas apropriadas para cristãos assistirem se comparar com as séries e filmes de hoje em dia.
Se você é uma pessoa religiosa com receio de seu filho assistir animes, não se preocupe, basta ficar de olho e ser seletivo. Na verdade, recomendamos assistir com ele, você vai gostar! Basta procurar uma história que seja interessante para ambos.

Animes para assistir com seu filho
Para acabar um pouco com o preconceito dos animes, existem obras leves para você assistir junto com seu filho. Muitas delas são dubladas. O recorte certo não é “desenho = criança”: é a classificação na capa e o que você aguenta ver sentado do lado.
Meu Amigo Totoro
Do Studio Ghibli, duas irmãs no campo e um espírito da floresta. É o tipo de filme que a família inteira aguenta sem precisar explicar violência ou sexo.
Pokémon
É o anime que muita criança já conhece da TV. Tem batalha e tensão, mas o eixo é amizade, viagem e coleção — bem diferente de um seinen noturno.
Violet Evergarden
Esse anime está em português na Netflix e mostra a história de uma jovem que foi usada como arma de guerra e, no fim do conflito, vira escritora de cartas. A guerra fica no passado da personagem: emociona, mas não é o recorte para criança pequena. Faz mais sentido com adolescente e com alguém do lado.
Se a criança ainda é bem nova, comece pelos animes infantis de ritmo mais calmo e assista junto.

Minha experiência com animes
Os animes estão presentes na minha vida desde os 13 anos de idade. Talvez um pouco antes, com animações que eu assistia dublado na TV sem saber que eram animações japonesas.
Com os animes conheci um mundo e uma realidade que parece um sonho, pessoas educadas que fazem as coisas da maneira correta, pessoas que respeitam umas às outras, um mundo de paz e sem violência.
Os japoneses são os que mais se aproximam do meu estilo de vida como pessoa religiosa, mesmo eles não seguindo nenhum princípio cristão, eles fazem melhor do que muitos cristãos.
São pessoas que eu gostaria de ter por perto, então sempre tive muita vontade de morar no Japão apenas de ver suas atitudes e estilo de vida nos animes. Isso moldou quem sou hoje, além de ter definido minha profissão como autor deste site.
Com 21 anos consegui viajar ao Japão e ter uma das melhores experiências da minha vida, confirmando tudo que vivenciei e sonhei nos animes como realidade.
Claro que nem tudo é sonho, entretanto, mais uma vez entramos na mesma questão, não tem necessidade de generalizar as coisas por experiências alheias. Viva sua própria experiência!
Assim como seres humanos, os japoneses e animes têm seus problemas, mas não podemos deixar que isso atrapalhe nossas boas experiências. Podemos aprender muito com eles!
Como o mundo seria melhor se todos seguissem a educação, hospitalidade, humildade e respeito dos japoneses. Claro que eles, como qualquer humano, têm seus defeitos, mas eu me sentiria muito mais seguro num Brasil cheio de cultura japonesa, do que na falsa liberdade cultural brasileira.
Não estou dizendo que não podemos aprender com brasileiros, nossa nação também ensina muita coisa boa, da mesma maneira que japoneses também podem ensinar coisas ruins. É triste dizer, mas hoje a maioria das pessoas se apega à influência negativa das coisas.
Acredito firmemente que somos bombardeados com sentimentos negativos de ódio, raiva e desgosto ao consumir conteúdo de algumas pessoas. Basta navegar no YouTube, Twitter, em comentários de sites ou qualquer lugar da internet para ver esse ódio sendo propagado. Tem influência pior que isso?
O pior de tudo é imaginar que algumas pessoas com ódio no coração vão ler esse artigo e vão distorcer algumas das minhas palavras a fim de propagar ódio e discussão...
Comunidade
Comentários
0 comentários
Ainda não há comentários publicados neste idioma.
Enviar um comentário