Estudo da Influência do Anime na Percepção de Mundo dos Adolescentes

O que a animação japonesa faz com a mente de um adolescente — e como os pais podem manter esse consumo saudável

O segredo da popularidade do anime está, em grande parte, nas emoções fortes que ele coloca na tela. E, muitas vezes, elas parecem exageradas — é justamente isso que atrai os adolescentes, porque, entre 12 e 17 anos, a intensidade e a clareza dos sentimentos é o que mais pesa na hora de se conectar com uma obra. Assistir anime pode ser um hobby comum: tem gente que gosta de dramas, de comédias ou de filmes de terror, e tem gente que gosta de anime. É uma questão de gosto, e gostos são diferentes. A pergunta sobre como o anime afeta a psique do adolescente não tem uma resposta única: a animação japonesa tem lados positivos e negativos, e o quanto ela toca uma mente ainda em formação depende de vários fatores combinados.

Se falarmos dos pontos positivos, podemos notar logo o mais óbvio: o desenvolvimento da imaginação. Ao acompanhar histórias e personagens diferentes, a criança se familiariza com eles e vai construindo uma personalidade mais criativa. Com o tempo, o anime desperta interesse por música, desenho e outras atividades criativas — ou seja, ajuda a descobrir e, em alguns casos, até a desenvolver talentos. Cada protagonista carrega crenças e uma moral próprias, então, ao acompanhar essas histórias, o espectador acaba aprendendo valores úteis: perseguir seus objetivos, cuidar do próximo, olhar pela família, definir as prioridades certas, entre outros.

Por outro lado, ao avaliar o impacto do anime no psiquismo dos adolescentes, vale lembrar que introduzir certas imagens de forma persistente na consciência de alguém acaba contribuindo, de modo quase inconsciente, para que elas se concretizem na realidade. A fixação em personagens negativos pode atrapalhar a comunicação normal no dia a dia. Vários estudos e pesquisas já se debruçaram sobre esse tema e trazem respostas para as dúvidas mais comuns.

Desenho de anime em parede mostrando arte colorida de mangá no quarto de um adolescente

Por que os adolescentes são atraídos pelo gênero anime?

O anime atrai os adolescentes justamente por ser estranho, não convencional. Sabe-se que, durante a adolescência, a criança tenta resolver, ao mesmo tempo, várias tarefas opostas: por um lado, está tentando se tornar um indivíduo, entender o quanto ela difere dos outros; por outro, está procurando o seu lugar no mundo e um grupo de pessoas com interesses parecidos. O anime permite que o adolescente enfrente os dois lados: trabalhar o sentimento de individualidade e, ao mesmo tempo, encontrar amigos com quem dividir esses gostos. Além disso, mesmo que a maior parte do anime seja voltada para o público adulto, o personagem principal costuma ser um adolescente lidando com seus próprios problemas e primeiras decepções. Em geral, ele é diferente dos colegas, é rebelde e lutador pela justiça — e essa voz do maximalismo juvenil costuma ressoar com quem está passando pela mesma fase.

Esse tipo de animação pode afetar a psique dos adolescentes?

O anime, como qualquer outra forma de arte, pode influenciar o mundo interior e a psique de qualquer pessoa, não só dos adolescentes. Assim como filmes, desenhos e livros, ele desperta emoções, provoca empatia e encontra eco no espectador. Além disso, o Japão é um país de contenção e autocontrole, então os personagens do anime, como contraponto, costumam ser criados impulsivos e sensíveis. Esse tipo de perfil psicológico cria identificação com os espectadores, especialmente com os adolescentes. Mas, se a pessoa é mentalmente saudável, não está em um quadro depressivo e já desenvolveu pensamento crítico, por mais que se identifique com os personagens, consegue separar a realidade da fantasia.

No entanto, é importante respeitar a faixa etária na hora de assistir anime. Mesmo que o protagonista seja um adolescente, a maioria das séries é feita para maiores de 20 anos. Pode haver cenas de agressão, brutalidade, violência e relações sexuais — para crianças e adolescentes, assistir a esse tipo de cena pode ser traumático, porque o pensamento crítico ainda não está totalmente formado. E o trauma psicológico pode aparecer mais tarde, em sintomas como irritabilidade, agressividade ou depressão.

Existe uma ligação entre o interesse por anime e o comportamento suicida?

Se a criança é mentalmente saudável, não está em um episódio depressivo e não apresenta tendências suicidas — comportamento autoagressivo, propensão à automutilação, fascínio por esportes perigosos — e tem uma relação de confiança com a família, então assistir, por exemplo, a um anime de temática pesada vai deixá-la apenas desconfortável ou triste. Não vai, por si só, despertar pensamentos suicidas. Esse tipo de efeito só aparece quando a criança já estava em um estado psicológico difícil e o conteúdo assistido foi a gota d'água.

Que outro conteúdo de entretenimento infantil (desenhos animados, filmes) pode ferir a psique de um adolescente?

A traumatização acontece quando algo acontece na vida da pessoa e a psique não consegue assimilar. Por exemplo, se a criança vê um conteúdo estranho ou assustador e não consegue entender nem explicar por conta própria, é aí que a traumatização se instala. Um impacto negativo na psique pode vir de qualquer conteúdo impróprio para a idade, que disfarce hábitos nocivos, crueldade e violência em uma embalagem divertida.

Foto de um adolescente assistindo anime na tela, ilustrando o consumo de conteúdo de entretenimento

Como podemos regular o consumo de conteúdo de entretenimento pelas crianças?

Antes de tudo, é preciso haver restrições de idade, que sejam respeitadas tanto no ambiente offline quanto online. Ao mesmo tempo, os pais precisam lembrar que o método da proibição pura e simples raramente funciona. O maximalismo adolescente inverte a situação: se você proíbe algo, o adolescente tende a fazer por desafio. Os pais são os guias para o mundo adulto. Eles ensinam como lidar com emoções negativas, como resolver problemas, e ajudam a criança a se tornar uma pessoa independente. E, se no caminho até a vida adulta ela se depara com algo desconhecido ou confuso, são os pais que precisam ser os primeiros a explicar.

Se a mãe ou o pai perceber que o adolescente está afundado em conteúdo ambíguo, uma boa tática é tentar assistir a esse filme ou série juntos e, depois, conversar sobre o que viram. Dá para perguntar à criança qual personagem ela gosta mais e por quê, como ela entende o enredo, por que o personagem se comporta de um jeito e de outro. O importante é o pai ou a mãe tentar entender os interesses da criança antes de decidir se eles são mesmo perigosos. Se as dúvidas continuarem e o conteúdo assistido parecer deprimir ou incomodar o adolescente, vale procurar um profissional — ou então envolvê-lo em algo que faça sentido para ele, passar mais tempo junto e organizar mais atividades de lazer em comum.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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