História do cinema no Japão: de Geisha no Teodori a Akira

História do cinema no Japão: de Geisha no Teodori a Akira

Filmes, estúdios e diretores que ligam o Kabuki-za de 1899 ao Leão de Ouro de Rashomon e às animações que quebraram a...

O cinema no Japão já passa de 120 anos. Em 1899, no Kabuki-za de Tóquio, estreou Geisha no Teodori (芸者の手踊り), um curta que registra a dança de gueixas filmada por Shiro Asano, da Konishi Honten. É um dos primeiros filmes rodados por japoneses. A primeira grande produção narrativa veio pouco depois: as versões de Chushingura, a lenda dos 47 ronins, dirigidas por Shozo Makino com o ator Matsunosuke Onoe por volta de 1910.

Durante certo período, como acontecia em outros países, a indústria ficou sob controle militar. As salas exibiam filmes educativos e propaganda em grande quantidade. Passou-se a produzir obras centradas na lealdade ao imperador e no sacrifício pessoal em benefício do povo. Na Segunda Guerra Mundial, o cinema japonês virou instrumento de propaganda ideológica.

Cinema no Japão após a Segunda Guerra Mundial

No pós-guerra o país estava destruído na infraestrutura e no ânimo. O cinema serviu de ferramenta de reeducação durante a ocupação. Com o crescimento econômico, os grandes estúdios Toho, Shochiku e Daiei se reconstruíram. A influência ocidental ficou mais forte no cotidiano e, por consequência, na tela.

Montagem do cinema japonês clássico: montador em mesa de edição, cartaz de Humanity and Paper Balloons e ator de jidaigeki em pose de luta

Nesse cenário surge o diretor Akira Kurosawa, que estreia em 1943 com Sugata Sanshiro (A Saga do Judô). Ele ganha público no Japão criando histórias em que o bem e o mal não são definidos facilmente. O reconhecimento internacional chega em 1951, quando Rashômon (1950) leva o Leão de Ouro em Veneza. No Brasil o filme ficou conhecido pelo título original; em Portugal circulou como Às Portas do Inferno. Em 1952 a Academia americana concedeu a Rashômon o Oscar honorário de melhor filme estrangeiro.

Dois anos depois da consagração em Veneza, o ator e diretor Teinosuke Kinugasa filmava Jigokumon (O Portão do Inferno, 1953; em Portugal, Amores de Samurai). Foi um dos primeiros filmes japoneses em cores a fazer carreira internacional. No Oscar de 1955 levou figurino e o prêmio honorário de filme estrangeiro. A produção cresceu de forma acelerada: no auge, por volta de 1960, o Japão chegou a mais de 500 longas por ano. Nas salas domésticas, o filme japonês passou à frente do americano.

Diversificando o cinema no Japão

Os temas se espalharam do drama à comédia. Foi nessa época que surgiram as primeiras grandes estrelas femininas da tela, com a mulher ocupando o centro de vários enredos. Musicais, filmes de ação e de heróis voltaram às salas. Em 1954, depois do sucesso de Godzilla (Gojira), da Toho, a ficção científica e a fantasia ganharam espaço próprio. O kaiju virou um gênero, e o rival Gamera nasceu nessa mesma onda de monstros.

Godzilla e Gamera frente a frente em um vale nevado

Nos anos 60 e 70 novos temas centrais apareceram. Diretores como Nagisa Oshima, Shohei Imamura, Masahiro Shinoda e Seijun Suzuki quebraram a tradição dos grandes estúdios. Criminalidade, sexo, papel das minorias e anti-heróis entraram na tela, com surrealismo e formas de narrativa pouco comuns para aquela época.

Em 1988 Katsuhiro Otomo estreia no longa de animação com Akira. O filme mostra um futuro pessimista depois de uma guerra nuclear, misturando tecnologia, delinquência juvenil e conspiração política. Quatro anos antes, em 1984, Hayao Miyazaki tinha adaptado o próprio mangá Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no tani no Naushika). O sucesso daquele filme levou à fundação do Studio Ghibli em 1985.

Hayao Miyazaki lança em 2001 A Viagem de Chihiro, que se tornou a maior bilheteria da história do Japão na época. O filme levou o Leão de Ouro em Veneza em 2002 e o Oscar de melhor filme de animação em 2003. Em 2016, Kimi no na wa (Your Name), de Makoto Shinkai, voltou a quebrar recordes nas salas japonesas.

A animação passou a carregar boa parte da bilheteria japonesa nas décadas seguintes, enquanto o live action dos mesmos estúdios do pós-guerra segue em paralelo. A função do filme japonês mudou várias vezes: registro, propaganda, reeducação, gênero popular e, com Akira e Chihiro, a cara mais visível dessa indústria fora do país.

Artigo escrito por Marcelo do Carmo.

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Sobre o Autor

Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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