Contextualização – A base da língua japonesa

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Contextualização. Isso é algo presente no japonês. Para aqueles que já estão estudando japonês há algum tempo, isso já não é novidade. Agora, para aqueles que começaram agora, aí vai um aviso: Contexto é tudo na língua japonesa.

A língua japonesa é altamente contextual. É difícil saber como dizer algo em japonês, a menos que você conheça os detalhes do contexto social. E isso reflete uma preocupação de longa data com a ordem, com a hierarquia e com o consenso.

Pra ser sincero, esse é um dos motivos pelo qual japonês é uma língua difícil. Por ser uma língua severamente contextual, ás vezes um diálogo em japonês pode acabar sendo algo bastante ambíguo e aberto à interpretação alheia.

Contexto no japonês é uma coisa tão difícil assim?

Contextualização - a base da língua japonesa é o contexto

Ao traduzir algo para o japonês, muitas vezes você precisa saber: a hora do dia, a época do ano, a formalidade da situação, a idade, o sexo, o status social do falante, a idade, o sexo, o status social do destinatário, a idade, o sexo e o status social de qualquer terceiro mencionado, o sexo e depois as conexões sociais entre o falante, o ouvinte, o sexo e os terceiros. Eles são membros da família? Eles trabalham para a mesma empresa? Já mencionei que você precisa saber o sexo?

Ao contrário do inglês, ou até mesmo do português, onde nível de formalidade é bem simples, caso seja algo bastante necessário, o que é raro diga-se de passagem. Ainda mais no Brasil, nós não temos dor de cabeça em relação a hierarquias sociais, idade, sexo, etc.

Quando nos comunicamos, não temos variadas formas de dizer “você”. “Você” é uma palavra que pode ser usada praticamente em qualquer ocasião, com qualquer pessoa. Não existe “forma polida” e “forma casual” nos verbos. Você não tem que mudar o “jeito de falar” dependendo da pessoa pois no português não existe tal coisa. No máximo, você se refere a um estranho com “Senhor” ou “Senhora”. Isso acompanhado de um “por favor”, “obrigado” e “com licença”. Só. 

A coisa pega ainda mais quando no japonês, você tem de “ler nas entrelinhas”. Isso é algo bastante comum entre os japoneses. “Ler nas entrelinhas” é a parte mais complicada do japonês. É como andar no gelo fino. Escreveu, não leu, o pau comeu.

Deixe-me dar alguns exemplos concretos de como a contextualização funciona. Podemos pensar em cada situação de fala como tendo uma posição em dois eixos. Um é o eixo da hierarquia social.

Algumas pessoas estão acima do locutor e algumas pessoas estão abaixo do locutor. O segundo eixo é formalidade. Quase todo verbo japonês é diferente com base nesses dois eixos mencionados anteriormente. De fato, os adjetivos japoneses e muitos substantivos também variam com base nesses dois eixos.

Contextualização dentro dos verbos japoneses

Contextualização - a base da língua japonesa é o contexto

Analisemos a seguinte situação: Um grupo de amigos da faculdade se reúne para tomar uma bebida, e um deles diz:

“Ei, eu vi nosso professor favorito, o Professor Tanaka, outro dia.”

Bem, claramente a situação entre amigos é informal, mas o Professor Tanaka é o superior social de todos os amigos. Como resultado, a linguagem do orador deve ser honorífica, mas informal.

Então, para dizer que “viu o professor Tanaka”, não basta simplesmente dizer “田中先生を見た” (tanaka sensei wo mita/vi o Professor Tanaka). Terá que dizer “田中先生にお目にかかった”(tanaka sensei ni ome ni kakatta). Literalmente, a frase significa “Meus olhos caíram sobre o Professor Tanaka”. Mas, traduzido nesta contextualização, a frase significa “Eu vi o Professor Tanaka”. 

A essa altura do campeonato, você deve estar pensando: “Poxa, os japoneses gostam de complicar as coisas.” 

No entanto, ao mesmo tempo que há coisas que são simplificadas no português porém complicadas no japonês, o oposto também é verdade.

Exemplo disso: Vamos pegar a frase “Apesar do polvo vivo ser delicioso, ele não queria ser comido.” Essa mesma frase em japonês ficaria: “美味しおかったが食べられたくなかった” (oishiokatta ga taberaretakunakatta). Literalmente, “Era delicioso mas não podia comer”. 

Pois é. A frase em questão pode parecer meio ambígua, porém, isso seria a resposta para a pergunta: “Você comeu o polvo vivo?” ***(生き作りを食べたますか)

Pois é. Notou que na frase original em português, teve que se usar um monte de palavras? No japonês, a coisa ficou mais simplificada. Ainda mais quando se excluiu o sujeito que seria o “polvo vivo”. Pois bem, isso é bastante comum na língua japonesa. Quando se entende quem é o sujeito, os japoneses não mencionam o sujeito. Pois para eles, mencionar o sujeito é muito redundante.

Ok, para recapitular. O japonês é altamente situacional e nada – nem mesmo pronomes ou adjetivos – são socialmente neutros. Precisa-se tomar um extremo cuidado ao dirigir a palavra a alguém no Japão. Até porque, você não precisa de muita coisa para se sair mal numa situação social. Basta usar a palavra errada.

*** O termo “生き作り” (ikitsukuri) não necessariamente significa “polvo vivo” mas sim, um prato comum no Japão que é sashimi servido vivo. Mas o prato também pode ser servido com polvo, camarão ou lagosta.