Bunbuku Chagama: a Lenda da Chaleira do Tanuki

Conheça a lenda de Bunbuku Chagama, a chaleira mágica do tanuki, sua origem no templo Morin-ji e outras histórias...

Bunbuku Chagama é a lenda de tanuki mais contada no Japão: a história de uma chaleira de chá que nunca esvaziava porque, escondida sob o metal, havia um tanuki disfarçado. A trama nasceu de um templo real na região de Gunma e se espalhou em forma de conto infantil, gravura ukiyo-e e até desenho animado ao longo dos séculos.

Bunbuku Chagama não é a única história de tanuki transformista guardada pelo folclore japonês. O templo Shōjōji, em Chiba, e o templo de Yashima, em Shikoku, têm lendas próprias sobre esses animais, cada uma com um tom diferente — do cômico ao trágico. Antes de entrar nelas, veja quem é o tanuki, o cão-guaxinim japonês, o animal real por trás de todas essas histórias.

Sumário 9

A lenda de Bunbuku Chagama, o tanuki disfarçado de chaleira

A versão mais popular da lenda começa com uma chaleira comum, usada no dia a dia de um templo. Ao ser colocada sobre o fogo para esquentar água, o objeto começa a criar pelos, patas e um rabo, mas continua andando e falando — os monges percebem que aquilo nunca foi uma chaleira comum, e sim um tanuki disfarçado que tentava viver escondido entre os utensílios do templo.

Incapazes de lidar com o problema, os monges vendem a chaleira-tanuki a um mascate ambulante. O animal então propõe um acordo ao novo dono: em troca de ser tratado com gentileza, longe do fogo direto, ele se apresentaria em público, andando sobre uma corda bamba e dançando ao som de música, sempre com metade do corpo ainda em forma de chaleira.

O espetáculo faz sucesso, atrai plateias inteiras e transforma o antigo mascate num homem rico. Em gratidão pelo bom tratamento recebido, o tanuki — ou seu dono, dependendo da versão contada — devolve a chaleira ao templo de origem, onde ela passa a ser guardada como um tesouro sagrado.

O templo por trás dessa história tem sua própria versão oficial, um pouco diferente do conto popular. Nela, a chaleira não pertence a um tanuki qualquer, mas é um objeto miraculoso apresentado por um monge chamado Shukaku — que, segundo o registro do templo, também era um tanuki disfarçado havia mais de um século.

A origem no templo Morin-ji

Morin-ji é um templo zen budista que existe até hoje na cidade de Tatebayashi, na província de Gunma. Sua fundação é datada de 1426, por um monge chamado Dairin Shōtsū, que teria conhecido um companheiro de viagem durante suas peregrinações: o monge Shukaku, que passou a acompanhá-lo na vida do templo.

Mais de 160 anos depois da fundação, em 1587, outro monge teria flagrado Shukaku dormindo com pelos nos braços e um rabo escondido sob as vestes. O segredo veio à tona: Shukaku nunca tinha sido humano, e sim um tanuki (ou, em algumas versões, um mujina) que vivia disfarçado havia gerações dentro do templo.

Ainda durante o tempo em que servia ao templo, Shukaku teria apresentado a chaleira que nunca esvaziava — usada, segundo o relato do templo, numa cerimônia que reuniu cerca de mil monges, quando o líquido continuou saindo sem parar. Esse objeto é chamado nos registros de Morin-ji de "chaleira que reparte a sorte", origem direta do nome Bunbuku Chagama.

O templo preserva até hoje a chaleira associada à lenda em seu salão de tesouros, aberto a visitantes. Na entrada, uma fileira de estátuas de tanuki em cerâmica Shigaraki-yaki recebe quem chega — a mesma tradição ceramista que, mais tarde, tornaria Shigaraki famosa por suas estátuas de tanuki.

Outras lendas famosas de tanuki

Bunbuku Chagama costuma dividir espaço com outras duas histórias no imaginário japonês sobre tanuki: uma ligada a um templo de Chiba, com um final trágico raramente contado na versão infantil, e outra ligada a um templo de Shikoku, sobre um tanuki que virou protetor em vez de vilão.

O tanuki-bayashi do templo Shōjōji

A lenda associada ao templo Shōjōji, na cidade de Kisarazu, em Chiba, conta que, numa noite de outono, dezenas de tanuki saíram da mata para tocar tambor com a própria barriga no pátio do templo, desafiando o monge residente para uma disputa de ritmo sob a lua.

Na versão mais antiga da lenda, a disputa se repete nas noites seguintes, sempre ao luar, até que, na quarta noite, os tanuki simplesmente não aparecem. Intrigado, o monge vai investigar e encontra o maior deles — o que sempre batia o tambor com mais força — morto, com a barriga estourada de tanto tocar.

Na década de 1920, o poeta Noguchi Ujō ouviu essa história durante uma visita à região e escreveu a letra de uma canção infantil, "Shōjōji no Tanuki-bayashi", publicada em 1924; a melodia, composta por Nakayama Shinpei, saiu no ano seguinte. A canção manteve os tanuki dançando ao luar, mas suavizou o desfecho, ficando bem mais leve que a lenda original.

A canção se tornou uma das mais populares do Japão sobre tanuki, e o templo Shōjōji mantém até hoje a fama de "berço" da história, recebendo visitantes atraídos pela mistura de folclore antigo e cultura pop infantil.

O tanuki guardião de Yashima

A lenda de Yashima, em Shikoku, começa com um tanuki ferido por uma flecha durante os conflitos do fim do período Heian. Salvo pelo samurai Taira no Shigemori, o animal jurou, em gratidão, proteger o clã Taira (Heike) para sempre — um voto que seus descendentes mantiveram mesmo depois da derrota do clã na Guerra Genpei.

Com a queda dos Taira, um descendente desse tanuki — conhecido como Tasaburō ou "tanuki careca de Yashima" — se estabeleceu no templo Yashima-ji e se tornou seu protetor, subindo à posição de comandante dos tanuki da região. Reza a lenda que, em noites de frio intenso, ele reunia centenas de tanuki para exibir ilusões dos feitos do samurai Minamoto no Yoshitsune na batalha travada ali perto.

Apesar da fama de chefe entre os tanuki, o episódio mais lembrado da lenda de Tasaburō não é de vingança, e sim de mediação: quando dois tanuki rivais se mataram numa disputa, foi ele quem impediu que os filhotes órfãos de ambos os lados continuassem o ciclo de rancor entre as famílias.

Hoje Tasaburō é venerado como divindade num santuário dentro do templo Yashima-ji, associado à harmonia familiar, aos casamentos e à prosperidade nos negócios — um papel de guardião bem distante da imagem de trapaceiro que os tanuki costumam carregar.

Por que o tanuki é sempre o "trapaceiro" nas lendas

No folclore japonês, tanuki e raposas (kitsune) dividem a reputação de henge, animais capazes de assumir forma humana ou de objetos. A diferença está no tom: o tanuki costuma ser retratado como um trapaceiro cômico e desastrado, que trai o próprio disfarce ao deixar à mostra um rabo ou uma folha mal colocada na cabeça.

O kitsune carrega uma fama diferente: ligado à divindade Inari, é descrito como elegante e calculista, e suas lendas costumam envolver vingança quando alguém o trai. O tanuki raramente segue esse caminho — em Bunbuku Chagama, por exemplo, é o próprio tanuki que sai ganhando ao ser bem tratado, sem prejudicar quem o acolheu.

Essa fama de trapaceiro inofensivo ajudou o tanuki a virar símbolo de sorte em vez de ameaça. As estátuas com chapéu de palha e barriga redonda que hoje decoram a entrada de bares e restaurantes japoneses vêm dessa mesma tradição: um espírito brincalhão que, ao longo dos séculos, deixou de assustar para acolher.

Perguntas frequentes sobre a lenda do tanuki

Qual é a lenda do tanuki?

A lenda mais famosa do tanuki é Bunbuku Chagama, sobre uma chaleira mágica que era, na verdade, um tanuki disfarçado, ligada ao templo Morin-ji, em Gunma. O folclore japonês também guarda outras histórias de tanuki, como o tanuki-bayashi do templo Shōjōji e o tanuki guardião do templo Yashima, em Shikoku.

Qual é a história do tanuki?

A história do tanuki mistura biologia e mito: é um canídeo real do Japão que, no folclore, virou um yokai transformista (bake-danuki), capaz de assumir forma humana ou de objetos, como chaleiras. Suas lendas costumam retratá-lo como travesso, mas de bom coração, num tom mais leve que o de outros yokai transformistas japoneses.

Suki Desu

Sobre o Autor: Suki Desu

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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