Shigaraki: a Cidade das Estátuas de Tanuki

Conheça Shigaraki, cidade japonesa das estátuas de tanuki, com a Tanuki Mura, a praça dos 10 mil tanukis e a tradição da...

Quem já viu uma estatueta de tanuki de cerâmica na entrada de um restaurante japonês, numa loja de suvenires ou até numa vitrine fora do Japão está diante de um design que nasceu numa única cidade: Shigaraki, na província de Shiga. É de lá que vem o formato padronizado — chapéu de palha, barriga redonda, garrafa de saquê na mão — que se espalhou primeiro pelo país e depois pelo mundo todo.

A cidade carrega uma tradição ceramista de séculos, bem anterior à criação dos tanukis, e reúne hoje um dos pontos mais fotografados do folclore japonês: uma praça com milhares de estátuas do animal enfileiradas lado a lado. Antes de entender por que Shigaraki virou sinônimo de tanuki, vale revisitar quem é o tanuki, o cão-guaxinim japonês, o animal real por trás da lenda.

Sumário 7

O que é Shigaraki, a cidade das estátuas de tanuki

Shigaraki é uma região da cidade de Kōka, no sul da província de Shiga, na região de Kansai — um planalto a cerca de 300 metros de altitude, ao sul do lago Biwa, o maior lago do Japão. O clima de verões amenos e invernos rigorosos ajudou a preservar, por séculos, um tipo de argila encontrada só ali.

A cerâmica local, chamada Shigaraki-yaki, é considerada uma das seis fornalhas antigas do Japão (Nihon Rokkoyō), ao lado de outros cinco centros ceramistas que resistiram em atividade contínua desde a Idade Média. O termo foi cunhado pelo pesquisador Koyama Fujio em 1948 e o conjunto foi reconhecido oficialmente como Patrimônio Japonês em 2017.

A produção em Shigaraki remonta ao período Kamakura, por volta do século 13, aproveitando um depósito de argila deixado por uma fase antiga do próprio lago Biwa. Sem esmalte, a peça ganha textura granulada e tons avermelhados ou acinzentados que variam conforme a posição dentro do forno — um resultado tão valorizado que virou item cobiçado por mestres da cerimônia do chá séculos antes de qualquer tanuki de cerâmica existir.

Como o tanuki de cerâmica nasceu ali

O formato hoje associado a Shigaraki nasceu do trabalho de um único artesão: Fujiwara Tetsuzō (1876-1966). Ainda menino, aprendiz num forno de cerâmica Kiyomizu em Kyoto, ele acompanhou o mestre numa saída de outono para colher cogumelos matsutake e, à beira do rio Otowa, teria ouvido um tanuki batendo tambor na própria barriga — um episódio que ficou gravado na memória do futuro ceramista.

Anos depois, já estabelecido em Shigaraki a partir de 1936, Fujiwara passou a dedicar boa parte da carreira a recriar aquela cena em barro: um tanuki de barriga redonda, chapéu de palha e garrafa de saquê na mão — a base do formato que, ao longo do século 20, foi incorporando os oito atributos de sorte hoje associados à figura. O guia completo sobre os 8 atributos do tanuki detalha o significado de cada item da estátua.

O salto para a fama nacional veio em 1951, quando o imperador Hirohito visitou Shigaraki e encontrou a estrada enfeitada com uma fileira de estátuas de tanuki segurando bandeirinhas em sua homenagem. Encantado com a cena, escreveu um poema sobre o momento, evocando lembranças de infância que a fileira de estatuetas trouxe à memória. O episódio, amplamente noticiado pela imprensa japonesa na época, consolidou o tanuki como símbolo de sorte reconhecido em todo o país.

Tanuki Mura e a praça dos 10 mil tanukis

O principal ponto turístico da cidade é o Shigaraki Tōen Tanuki Mura, uma vila temática dedicada por inteiro ao animal, reunindo lojas de cerâmica, um espaço de exposição sobre a tradição ceramista local e fileiras e mais fileiras de estatuetas de todos os tamanhos.

A entrada reúne algumas das maiores estátuas do complexo, incluindo o exemplar que a própria vila anuncia como o maior tanuki de cerâmica do Japão — um gigante de vários metros de altura que virou um dos cenários mais fotografados da região.

Mais adiante fica a atração que dá nome ao lugar entre os visitantes: uma praça conhecida como a "dos 10 mil tanukis", onde milhares de estátuas de tamanhos variados ficam expostas lado a lado, das miniaturas de poucos centímetros às que ultrapassam a altura de uma pessoa.

O que fazer em Shigaraki

Diversas olarias da cidade abrem oficinas para visitantes, com duas opções mais comuns: pintar um tanuki de cerâmica já moldado, escolhendo as cores do esmalte e levando a peça pronta em cerca de meia hora, ou modelar a própria estatueta a partir de um molde tradicional, que sai do forno com cerca de 18 centímetros de altura.

Quem se interessa pelo processo de queima pode procurar os fornos tradicionais que ainda restam na região: o noborigama, construído em degraus na encosta de um morro, e o anagama, com uma única câmara escavada em forma de túnel — dois métodos cada vez mais raros no Japão, hoje preservados quase como peças de museu vivo.

As ruas centrais reúnem dezenas de lojas de cerâmica, de suvenires pequenos e baratos a peças de coleção assinadas por ceramistas locais, incluindo vasos, potes e utensílios de mesa que seguem a mesma tradição sem esmalte da Shigaraki-yaki.

A tradição nascida em Shigaraki hoje ultrapassa os limites da própria cidade: estátuas de tanuki em cerâmica recebem visitantes também na entrada de templos ligados a outras lendas do animal, caso do templo por trás da história de Bunbuku Chagama, a lenda da chaleira mágica do tanuki.

Perguntas frequentes sobre Shigaraki e os tanukis de cerâmica

O que é o tanuki no Japão?

O tanuki é um canídeo real do Japão, parente distante de cães e lobos, retratado no folclore como um yokai capaz de mudar de forma. Suas estátuas de cerâmica, com chapéu de palha, barriga redonda e garrafa de saquê, viraram símbolo de sorte e prosperidade espalhado por lojas e restaurantes do país inteiro — uma tradição nascida justamente em Shigaraki.

Qual é a lenda do tanuki?

A lenda mais famosa é Bunbuku Chagama, sobre uma chaleira mágica que era, na verdade, um tanuki disfarçado, ligada ao templo Morin-ji. O folclore japonês reúne outras histórias parecidas, reunidas no guia sobre as lendas do tanuki.

Suki Desu

Sobre o Autor: Suki Desu

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

Comunidade

Comentários

0 comentários

Ainda não há comentários publicados neste idioma.

Enviar um comentário

Comente este artigo

Verificação anti-spam

Não envie links, embeds ou propaganda. O comentário passa por anti-spam e tradução automática antes de aparecer.