No Japão existe um termo chamado Monster Parents (モンスターペアレント) para um tipo de pai ou mãe que a escola conhece bem demais. Não é só o responsável rígido em casa: é quem chega na secretaria com queixa e pedido desproporcional — e não larga o osso.
Os professores levam isso na pele. Uma ligação fora de hora, um recado no caderno de comunicação, uma exigência que não cabe no regulamento, e a reunião vira caso. No corredor, a abreviação é モンペ (monpe) ou モンペア (monpea).
Sumário 4
O que o Japão chama de Monster Parents
O dicionário japonês é direto: モンスターペアレント é o responsável que repete exigência e reclamação irracionais contra a escola ou a diretoria de educação, comparado a um monstro. É wasei-eigo — inglês nascido no Japão — e o educador Yoichi Mukoyama (向山洋一) batizou o fenômeno em 2007, na revista Classroom Two-Way (教室ツーウェイ).
Isso não é a mesma coisa que helicopter parent. O helicóptero paira sobre o filho, faz dever, escolhe clube, corta o tombo. O モンペ aponta para o outro lado: o professor, o diretor, às vezes a prefeitura. Quem reclama com motivo e dentro do razoável não entra nessa conta. O problema é o pedido que não cabe, o tom que passa do ponto e a insistência que come o dia letivo.
A expressão pegou também em Hong Kong. O núcleo japonês, porém, continua sendo a escola — não o controle da agenda em casa.
Reclamações na escola
Alguns pais monstros questionam a escola e os professores sobre coisa que simplesmente não é da conta deles. Existem pais que não querem que os filhos participem da limpeza da escola, o sōji que o aluno japonês faz no próprio salão. Outros ficam furiosos por causa de uma escoriação no recreio. Alguns chegam a exigir que a escola pague a despesa médica por um arranhão. Outros reclamam porque a criança foi picada por um inseto.

Em 2010, Tóquio mandou um manual a mais de 60 mil professores e funcionários das escolas públicas. A imprensa da época listou pedidos ainda mais concretos: professor montando lanche de excursão, anuário reimpresso porque o filho saiu pouco na foto, criança levada até a porta de casa depois da aula, unha cortada na escola, previsão do tempo cobrada do docente para decidir se leva guarda-chuva.
E não pense que isso some no ensino médio: alguns responsáveis agem no mesmo tom até depois da fase adulta dos filhos. Enquanto a reunião se arrasta, o professor perde preparação de aula, orientação e clube — e o resto da turma sente o recuo.
Há, sim, pais que apertam horário, impõem carreira e despejam no filho o sonho que eles mesmos não realizaram. Isso existe no Japão como em qualquer lugar. Só não é o que o termo モンスターペアレント foi criado para nomear. Misturar as duas coisas deixa o retrato mole: o monstro da reportagem japonesa está, na maior parte das vezes, no balcão da escola.
O dorama Monster Parent (2008)
O termo virou drama no ano seguinte. Monster Parent (モンスターペアレント) estreou em 1º de julho de 2008 na Kansai TV / Fuji TV, durou onze episódios até 9 de setembro e colocou Ryoko Yonekura (米倉涼子) no papel da advogada Itsuki Takamura (高村樹季) — uma estrela de escritório que aceita, a contragosto, defender uma escola sitiada por responsáveis.
A série não inventou o fenômeno. Ela o espalhou. Quem nunca tinha ouvido モンペ passou a ter um rosto, um tom de voz e um tipo de reunião na cabeça. É por isso que, até hoje, muita gente no Japão cita o dorama quando explica o apelido.
Tóquio: do manual de 2010 aos protocolos de 2025

Aquele manual de 2010 já era um recado: a queixa irracional tinha virado rotina o bastante para virar cartilha. Quinze anos depois, a Diretoria de Educação Metropolitana de Tóquio voltou ao tema com outro tom — menos dica e mais regra de contenção.
Em novembro de 2025 a diretoria apresentou um esboço de protocolo para lidar com responsáveis que pressionam com fala, gesto ou pedido fora da norma social. Uma pesquisa de abril, com cerca de 12 mil docentes de escolas públicas, apontou que cerca de 20% relataram palavras ou condutas questionáveis pelos padrões sociais. Mais de mil desses casos viraram sobrecarga e hora extra.
O desenho da regra é seco, de propósito:
- reunião em dia de semana, depois da aula, até 30 minutos (no máximo uma hora, se a situação pedir).
- conversa presencial ou por telefone gravada, com aviso prévio.
- as duas primeiras reuniões com mais de um funcionário. A terceira com a gestão. A quarta com psicólogo e advogado. Da quinta em diante, o advogado assume.
- xingamento: até cinco funcionários na sala. Se continuar, empresa de segurança. Violência ou recusa de sair, polícia.
A diretoria quer fechar o texto até o fim do ano letivo japonês e começar a aplicar a partir do ano acadêmico de 2026, primeiro nas escolas da Metrópole, depois compartilhando com as prefeituras. A escola deixa de ser um balcão sem hora para acabar.
Eu tive a ideia de escrever este artigo depois de ver o pai da Erina no anime Shokugeki no Souma. Nakiri Azami não é o モンペ da secretaria — é o outro extremo, o que esmaga a filha em casa e trata talento como território. Mesmo assim, continua um retrato clássico de pai monstro. Você já conheceu algum pai assim? A gente lê o recado.
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