Kwichon – traduzido como Retorno ao campo, resume o movimento de pessoas que saem de cidades como Seul, exaustas de aluguel caro, pressão no trabalho e solidão urbana, para tentar uma vida em vilarejos, cercadas de natureza, comunidade e um ritmo mais humano.

Se você curte cultura japonesa e coreana, já viu essa ideia em doramas e animes: alguém largando o escritório na capital para recomeçar numa vila com montanhas ao fundo. A diferença é que, na vida real, o Kwichon envolve números, políticas públicas, decisões financeiras difíceis… e não só pôr do sol bonito.

Neste artigo vamos ver o que é Kwichon, por que ele cresceu, quais os perrengues escondidos e o que isso tudo tem a ver com a forma como você pensa a sua própria vida urbana.

O que é Kwichon – retorno ao campo, na Coreia do Sul?

Em coreano, Kwichon (귀촌) significa “voltar à aldeia”. É usado para falar de quem deixa a cidade e passa a viver em área rural, mesmo que não trabalhe diretamente com agricultura. Quando a mudança envolve virar agricultor de fato, aparece outro termo: Gwinong (귀농), o “retorno à agricultura”.

Hoje, na prática, muita gente usa Kwichon como rótulo geral para qualquer mudança cidade-campo.

Imagine alguém que trabalhava em Seul, de terno, metrô lotado, e de repente passa a morar numa casa térrea, com pouco comércio por perto e uma horta no quintal. Essa pessoa pode:

  • continuar no mesmo emprego, só que 100% remoto;
  • misturar freelas online com um pequeno café local;
  • ou, aí sim, entrar de cabeça na agricultura.

Tudo isso entra no guarda-chuva do Kwichon. Não é um programa único, nem um movimento organizado. É a soma de milhares de decisões individuais, pressionadas pelo mesmo contexto: cidades caras, cansativas e uma sensação crescente de que “não dá para viver assim para sempre”.

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Por que tanta gente quer sair da cidade e ir para o campo?

O Kwichon não nasceu de um modismo “natureba”. Ele veio de problemas bem concretos.

O primeiro é o custo de vida nas maiores cidades da Coreia. Seul aparece regularmente entre os mercados imobiliários mais caros do mundo. Comprar um apartamento decente virou algo quase inacessível para muita gente jovem, mesmo com estudo e emprego estável. A comparação é inevitável: com o preço de um cubículo na capital, às vezes dá para ter uma casa maior, com terreno, numa cidade pequena.

Ao mesmo tempo, existe o peso da cultura de trabalho. A expressão “Hell Joseon” virou símbolo da sensação de sufoco: jornada longa, hierarquia rígida, competição brutal, pouco sono e pouco tempo livre. Não é à toa que uma parte da juventude começa a olhar para vilas rurais como alternativa de sobrevivência emocional.

Vale citar também que a Coreia do Sul tem um dos índices de suicídio mais alto do mundo, bem maior que o Japão que teve essa fama na década de 90. Esse fato mostra o quão estressante pode ser a cultura do trabalho na Coreia.

Depois da pandemia, isso acelerou. O trabalho remoto abriu uma brecha: se tudo acontece na tela, por que ficar preso à capital? Esse pensamento ajudou a transformar “sonho de ir para o interior” em plano concreto para muita gente.

Tem também um motivo silencioso, mas forte: propósito. A impressão de estar vivendo só para pagar contas, sem construir algo que faça sentido, empurra várias pessoas a buscar outra narrativa de vida. Kwichon, nessa hora, aparece como símbolo de recomeço – menos consumo, mais tempo, mais contato com coisas simples.

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Quem está fazendo Kwichon hoje?

Durante muito tempo, quando alguém falava em Kwichon, a imagem era quase automática: um casal na faixa dos 50 ou 60 anos, vendendo o apartamento em Seul para comprar uma casa com terreno, plantando frutas ou hortaliças para complementar a renda. Esse perfil continua forte, mas já não está sozinho.

Nos últimos anos, começa a aparecer um outro rosto: jovens adultos que não querem esperar a aposentadoria para mudar de vida. Reportagens turísticas e matérias de tendências na Coreia mostram que “vida rural” virou estilo de vida desejado por parte da geração mais nova, especialmente como escape do custo de moradia e da pressão mental da capital.

Muitos desses jovens não vão com a ideia de “virar fazendeiro tradicional”. Eles abrem cafeterias, pequenas pousadas, ateliês, espaços comunitários, fazem conteúdo digital com cenário rural, ou trabalham como nômades digitais, usando o campo como base.

Também há os “experimentadores”: pessoas que passam fins de semana, férias ou alguns meses em vilarejos para testar a rotina. Uma matéria recente sobre a “Don’t Worry Village”, por exemplo, mostra um grupo de jovens que saiu de Seul para montar uma comunidade rural voltada a convivência e apoio mútuo, ainda tateando modelos de renda estável.

Ou seja: o Kwichon virou palco onde convivem aposentados, famílias com crianças pequenas, jovens que querem empreender, artistas, freelancers e gente em transição. Nem todos ficam para sempre, mas o fluxo já muda a paisagem de muitas aldeias.

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Quais são os desafios reais da vida no campo?

Aqui entra a parte que quase nunca aparece em dorama.

Trabalho e dinheiro não viram problema “só porque o lugar é bonito”

Quem se muda para viver da terra descobre rápido que agricultura exige investimento, conhecimento técnico e tempo. Não é só plantar e esperar vender na feira. Os primeiros anos costumam ter renda baixa e instável, e nem todo mundo consegue aguentar esse período de adaptação.

Mesmo para quem mantém um emprego remoto, aparecem obstáculos práticos: internet rural com instabilidade, clima que afeta energia, dificuldade de separar vida pessoal e profissional quando tudo acontece na mesma casa. A fantasia de trabalhar o dia todo olhando o arrozal existe… mas não todos os dias.

Além disso, a Coreia continua muito centralizada em torno de Seul. Entre 2015 e 2021, cerca de 78% da migração interna de jovens foi no sentido de outras regiões para a área metropolitana da capital. Em outros palavras: enquanto alguns saem da cidade, a maré principal ainda vai na direção oposta. Isso significa menos empregos qualificados e oportunidades no interior, o que complica a vida de quem tenta ficar por lá.

Comunidade, solidão e choque cultural

Outro desafio forte é social. A pessoa que sai da cidade leva consigo amigos, família, hábitos de lazer, referências culturais. No vilarejo, tudo isso muda.

Logo no início, muita gente sente solidão. As relações em comunidades pequenas são profundas, mas levam tempo. Os moradores já se conhecem há décadas, têm histórias em comum, regras não ditas. Quem chega agora precisa aprender o ritmo local, participar de festas comunitárias, ajudar em eventos, ouvir boatos, ser visto não só como visitante, mas como alguém que pretende ficar.

Há também diferenças de valores. Ideias de sustentabilidade, minimalismo ou empreendedorismo digital podem soar estranhas para parte da população mais velha. Da mesma forma, quem vem da cidade pode estranhar o jeito direto, o controle social forte ou a curiosidade intensa dos vizinhos.

E não dá para esquecer o básico: hospitais mais distantes, escolas limitadas, menos transporte público, menos opções de lazer. Para algumas pessoas, isso é paz. Para outras, é claustrofobia.

O que o Kwichon tem a ver com o Japão – e com você?

Se você acompanha o Japão, talvez tenha lembrado de dois termos muito parecidos: U-turn e I-turn. No contexto japonês, U-turn é quando alguém volta da grande cidade para a terra natal; I-turn é quando a pessoa, nascida numa cidade grande, se muda para uma área rural onde nunca viveu antes.

Assim como a Coreia, o Japão enfrenta vilas envelhecidas, casas vazias e um esforço constante de revitalização rural. Existem feiras de emprego específicas para quem quer fazer U-turn ou I-turn, projetos de turismo para apresentar vilarejos a moradores de Tóquio, e políticas de incentivo à migração interna.

Na Coreia, algo semelhante acontece dentro de uma agenda maior de descentralização e desenvolvimento equilibrado: relatórios da OCDE analisam justamente como o governo tenta fortalecer regiões fora da capital, incluindo esforços ligados a migração e revitalização rural.

Tudo isso levanta uma pergunta importante para qualquer fã de cultura japonesa ou coreana que olha para esses movimentos com brilho nos olhos: o que exatamente te atrai nessa ideia de “retorno ao campo”?

É o cenário? O silêncio? A possibilidade de uma comunidade menor? Ou a chance de viver de um jeito que faça mais sentido do que sua rotina atual?

O que o Kwichon pode ensinar para sua própria vida?

Não importa se você vive em São Paulo, Lisboa, Cidade do México ou outra metrópole qualquer: o Kwichon funciona quase como um espelho. Ele mostra o que acontece quando uma parte da sociedade decide que o modelo padrão de sucesso não funciona mais.

Se a gente traduzir isso para o nível individual, dá para tirar algumas lições bem práticas:

  • Teste a vida que você idealiza. Antes de sonhar em largar tudo, experimente ficar um tempo maior em cidade pequena ou área rural. Viver algumas semanas é muito diferente de passar um fim de semana turístico.
  • Faça as contas com brutal honestidade. Quanto você precisa ganhar para viver fora da capital? De onde viria essa renda? Quanto tempo aguentaria uma fase de adaptação com dinheiro menor?
  • Pense em comunidade tanto quanto em paisagem. A vista da janela importa, mas não segura ninguém sozinho. Pergunte-se: com quem você vai conversar, trabalhar, cooperar, dividir problemas e vitórias?
  • Não copie a história de ninguém. Os casos de sucesso de Kwichon e de U-turn/I-turn são inspiradores, mas cada pessoa tem contexto financeiro, emocional e familiar diferente. Use essas histórias como referência, não como receita.

No fim, o Kwichon – retorno ao campo – não é um convite automático para você se mudar amanhã para um vilarejo coreano. Ele é um lembrete incômodo: a forma como você vive hoje foi escolhida ou simplesmente herdada?

Se essa pergunta te incomoda, ótimo. Isso significa que você está vivo, pensando, questionando. A partir daí, você não precisa mudar de continente nem plantar arroz para fazer um “Kwichon pessoal”. Talvez o seu começo esteja em algo bem menor: reduzir um pouco o ritmo, reorganizar o trabalho, aproximar-se de uma comunidade real, ou até planejar, com calma e pé no chão, um futuro longe da vida urbana como ela é hoje.

E aí, sendo bem honesto com você mesmo: como seria, de forma concreta, o seu cenário ideal fora da cidade grande – e qual seria o primeiro passo (pequeno mesmo) que você teria coragem de dar nessa direção?

Kevin Henrique

Kevin Henrique

Experte für asiatische Kultur mit über 10 Jahren Erfahrung, mit Fokus auf Japan, Korea, Anime und Gaming. Autodidaktischer Autor und Reisender, der sich dem Unterrichten von Japanisch, dem Teilen von Reisetipps und der Erforschung tiefgründiger, faszinierender Besonderheiten widmet.

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