Já se passou mais de um século desde que os japoneses imigraram para o Brasil, e ao longo dessas décadas a cultura do Japão se entrelaçou à vida brasileira — do vocabulário à culinária, dos festivais às artes. Mesmo assim, a maior parte dos brasileiros ainda conhece a cultura japonesa apenas de relance, presa a estereótipos e generalizações. Em paralelo, parte das próprias comunidades nipo-brasileiras acaba se fechando em círculos internos e abre pouco espaço para o diálogo com a sociedade em geral.
Até mesmo eventos que se anunciam como “de cultura japonesa” frequentemente se desviam do tema, misturando atrações ocidentais que nada têm a ver com o Japão, na busca por público e retorno financeiro.
Isso aconteceu na minha cidade: um evento que se chamava “Cultura Japonesa” estava tomado por RPG medieval, Harry Potter, Star Wars, League of Legends e jogos ocidentais. O mais perto que se chegava do Japão era um anime na TV e uma oficina de origami — e sequer havia japoneses presentes. O próprio organizador chegou a dizer que “essas coisas de cultura japonesa não dão lucro”.
O que esperar, então, de eventos realmente organizados pela comunidade nipo-brasileira? Eu já fui a vários e, na maioria, nem soba, nem lámen, nem udon. O cardápio se repetia — e a sensação era a de estar num espaço pensado para arrecadar, não para celebrar.

Sumário 5
A experiência de um Seinenkai
A ideia de escrever este artigo veio do meu amigo Lucas, que foi membro de uma comunidade kaikan e me enviou um texto enorme descrevendo a experiência que teve lá dentro. Com a autorização dele, compartilho agora essa reflexão.
Eu fico até com um pé atrás de publicar relatos assim, porque as pessoas tendem a levar tudo ao pé da letra. Lembre-se: existem exceções e tudo é relativo — e reconhecemos o esforço genuíno de muita gente envolvida. Não generalize a sua leitura: muitos kaikans fazem um trabalho lindo, e isso será tema de outros artigos. Aqui separamos os textos que destacam os acertos dos que apontam as falhas, e nem todos os kaikans são iguais.
A partir daqui, tudo o que você ler é de autoria do meu amigo Lucas. Esperamos que seja entendido como uma sugestão de melhoria, e não como crítica ofensiva.
Minha experiência frequentando uma associação de cultura japonesa no Brasil, e os eventos de cultura japonesa que pararam no tempo.
Desde a época da imigração japonesa no Brasil, foram criadas diversas entidades de apoio e divulgação da cultura oriental no país, cada uma com suas particularidades e propósitos. Entre todas, os kaikans são, talvez, os mais conhecidos.
Sempre fui muito influenciado e interessado pela cultura do Japão desde criança, e ao longo da vida participei do que pude de eventos culturais e cursos. Até que decidi me engajar de forma mais ativa, entrando em uma associação cultural japonesa.

Antes de começar a frequentar, eu tinha a ideia de que essas entidades promoviam a cultura com uma série de atividades e eventos de pequeno e grande porte, com o apoio dos jovens interessados em participar do desenvolvimento da casa, para que ela continuasse seu caminho no futuro.
Quando comecei a participar de forma mais ativa e a entender o funcionamento da entidade, percebi que a realidade era bem diferente. Os jovens que ali estavam, apesar de acreditarem que estavam contribuindo para o desenvolvimento da casa, acabavam cumprindo tarefas pré-determinadas pela coordenação mais antiga.
Muitas dessas tarefas se resumiam a organizar o salão, cozinhar, entre outras funções que não tinham relação direta com a proposta de promover a cultura japonesa. Com exceção dos origamis produzidos para os eventos, grande parte do que se fazia se parecia mais com uma quermesse do que com uma associação de cultura japonesa.
A maioria dos jovens que frequentam faz parte do Seinenkai — o grupo de jovens da associação, com o papel de auxiliar o kaikan a promover a cultura japonesa e outros valores definidos pelo estatuto elaborado pela presidência do grupo.
Como funciona o kaikan?
O kaikan tem uma diretoria que, junto com a tesouraria, decide o que pode ou não ser feito na entidade. Há representantes de departamentos como karaokê, origami e o Seinenkai — mas este último não tem poder decisório sobre a estrutura da associação, limitando-se a auxiliar nas atividades já definidas pela diretoria.

Para fazer parte de qualquer departamento, paga-se uma mensalidade que não é das mais baratas. Os mais velhos, em geral, pagam a modalidade “sócio familiar”, e todos são incentivados a contribuir financeiramente para manter a entidade — o que não é um problema em si, afinal tudo tem custo. A questão central é: o que o kaikan está fazendo com o dinheiro arrecadado?
Como dito, com exceção do grande evento anual, todo o dinheiro arrecadado é usado para pagar as despesas da entidade; o restante fica aplicado no banco. Milhares de coisas poderiam estar sendo feitas, mas não estão.
O problema dos eventos culturais do Japão
Eventos que, no fim das contas, pararam no tempo. Esse diagnóstico vale para a grande maioria das entidades, com raras exceções, pelos seguintes motivos:
- As apresentações são sempre parecidas;
- O repertório musical gira em torno de um único estilo, o enka, que agrada apenas a uma pequena parcela — em geral, os próprios organizadores;
- As comidas são caras e com pouca variedade (com exceções em São Paulo, pela grande concentração de japoneses);
- Os shows musicais seguem a mesma linha — enka e músicas folclóricas para um público cada vez menor;
- Alguns eventos ainda não aceitam cartão, obrigando as pessoas a andarem com dinheiro em tempos de insegurança.
Alguns festivais tradicionais já estão incluindo K-pop na programação, mas J-pop, nem pensar. Ainda bem que os organizadores dos eventos mais tradicionais não estão transformando seus festivais em “eventos de anime”.

O resultado é um público que vai para comer e ir embora, sem nem entender o que está acontecendo — exatamente o oposto do que se propõe um evento cultural. O público que se interessa genuinamente pela cultura japonesa vem deixando de frequentar, em parte por essa mesma falta de renovação.
Um evento de grande porte deveria ter, no mínimo, uma atração internacional, repertório japonês variado para agradar a diferentes faixas etárias, e espaços com atividades e apresentações sobre o Japão em suas múltiplas facetas. Não é o que se encontra hoje no Brasil.
A administração do kaikan
Mesmo com falhas, esses eventos ainda arrecadam receitas relevantes. Parte desse dinheiro poderia ser revertida em programas de intercâmbio cultural para o Japão — talvez com apoio do consulado —, em sorteios de viagem no fim do ano, em workshops abertos para atrair novos públicos. Mas ninguém parece disposto a ir atrás disso: é mais confortável manter o que já está.
Como o Seinenkai não tem autonomia para mudar a estrutura da associação, sua participação se resume, muitas vezes, a definir o tempero da comida do próximo evento e a cumprir as tarefas atribuídas pela coordenação.

Muitos kaikans ainda controlam suas despesas em cadernos, de forma fragmentada. A comunicação interna também é falha: decisões importantes são tomadas por um pequeno grupo e apenas comunicadas ao resto, sem construção coletiva.
Com esse cenário, muitos jovens acabam se acomodando, executando tarefas sem maior reflexão. Os poucos que tentam propor mudanças esbarram em coordenadores conservadores que repetem o velho lema de “não mexer em time que está ganhando” — uma leitura que, no fim, pode custar a continuidade da própria associação.
Foi por esses e outros motivos pessoais que saí daquele espaço que, um dia, eu esperava transformar. Voltei aos meus estudos da cultura japonesa por conta própria e passei a frequentar apenas os festivais que me interessam.
A cultura japonesa precisa melhorar — e depende de todos
Agora volto a falar em primeira pessoa. Eu percebo que essas comunidades japonesas tendem a se fechar, e até mesmo no Japão as pessoas nem sempre estão familiarizadas com mudanças, permanecendo em sua zona de conforto.
Não sou da região de São Paulo, onde existem milhares de comunidades e grupos sociais japoneses. Moro próximo a Goiânia, onde há apenas um kaikan — e, até hoje, não vi realizarem nada além de eventos com yakisoba e bon-odori. Apesar de Goiânia ter festivais de anime todo mês, só um é de fato de cultura japonesa. O que rolou na minha cidade não ofereceu nenhuma culinária típica além de gyozas, yakisoba e sushi.

Não acho que o problema seja exclusivo das comunidades ou de organizações como os kaikans. Há muitos fatores envolvidos na produção de um evento, e é natural que se foque no que dá retorno ou no que o público já está acostumado a consumir.
O que percebo é que existe, no Brasil, um certo medo de inovar. Vejo milhares de restaurantes de sushi na região de Goiás, mas é raríssimo encontrar um que tente vender outros pratos tradicionais do Japão. Isso ajuda a cristalizar a ideia de que a culinária japonesa se resume a sushi. Quem mora na região de São Paulo tem a sorte de conviver com uma variedade enorme de culinária tradicional.
Espero que quem leia este texto pense em se esforçar um pouco mais para fazer a cultura japonesa ser conhecida de verdade pelos brasileiros. Estamos fazendo a nossa parte pela internet. O número de fãs da cultura japonesa é gigantesco — vale a pena alcançar o máximo de pessoas por meio de programas sociais, eventos abertos e parcerias. Obrigado pela leitura, e agradecemos os compartilhamentos e comentários.
Comunidade
Comentários
0 comentários
Ainda não há comentários publicados neste idioma.
Enviar um comentário