Protagonista que perde os poderes – Qual a origem deste clichê?

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Já percebeu que em muitos animes o personagem principal acaba perdendo os poderes? Você sabia que esse fenômeno pode ter uma origem cultural? Isso mesmo. Em diversos shonens – séries de anime e mangá voltadas para o público adolescente masculino – podemos ver este clichê se concretizar.

Alerta de Spoilers!

Em “Bleach”, num determinado ponto da série, o protagonista Kurosaki Ichigo chega a perder seus poderes de Shinigami, enquanto em “Hunter x Hunter”, o personagem principal Gon perde suas habilidades “Nen” após travar uma árdua batalha contra Neferpitou. Em vários outros animes e mangás, esse padrão pode ser visto, como é o caso de Naruto, em que o protagonista da série perde a Kurama (a raposa de nove caudas).

Afinal de contas, por qual motivo esse padrão se repete tanto nessas histórias?

Neste artigo, tentaremos entender mais acerca desse fenômeno comum na cultura pop. Vamos relembrar, também, momentos marcantes nos animes em que o personagem principal foi destituído de seus poderes e se tornou um ser humano normal.

Protagonista que perde os poderes - qual a origem deste clichê?

Animes em que o protagonista perdeu os poderes

  • Bleach – Kurosaki Ichigo (perde seus poderes espirituais pouco antes do início do arco dos Fullbringers).
  • Hunter x Hunter – Gon Freecs (perde o Nen após a saga de Chimera Ants).
  • Yu Yu Hakusho – Kuwabara (perde seu poder espiritual após o arco do Sensui).

Caso lembre de outros animes em que esse clichê ocorreu, escreva nos comentários.

Origem cultural desse clichê – possíveis influências históricas

Não se sabe ao certo a origem deste clichê. Contudo, é possível aventar algumas hipóteses para o seu surgimento, como a predominância da dicotomia entre o divino e o humano na história e na cultura japonesa, como veremos a seguir.

Acreditava-se no passado que o Imperador Showa (昭和天皇 – しょうわてんのう, showa tennou), por exemplo, possuía poderes espirituais (por ser um descendente direto da Deusa Amaterasu). Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o então Imperador (que se chamava Hirohito) teve de se pronunciar via rádio para que a população passasse a vê-lo como um humano comum, que naquele momento estaria destituído de seus poderes espirituais e necessitava transmitir uma mensagem de cessar-fogo para toda a população. No pós-guerra, os aspectos humanos de Hirohito se intensificaram ainda mais conforme eram divulgados na mídia os seus interesses mais íntimos, como o seu fascínio pela biologia marinha e pelos estudos científicos em laboratórios.

Outra possível influência para o surgimento desse recorrente elemento das histórias ficcionais estaria na mitologia japonesa. Diversas entidades mitológicas e folclóricas, como os yokais e os kami possuem características humanas que reforçam a dicotomia sobrenatural x humano. O Kappa, famosa criatura lendária que habita os rios, perde seus poderes quando a água em cima de sua cabeça é derramada.

Protagonista que perde os poderes - qual a origem deste clichê?

Ainda, os próprios samurais japoneses, que tinham uma aura mística que os rodeava, foram perdendo gradativamente o status lendário que detinham e passaram a integrar a sociedade civil como “pessoas comuns”, sobretudo após a proibição das espadas durante a Era Meiji.

Todas essas referências históricas nos levam a crer que os mangakás tendem a se utilizar de características e momentos marcantes de lendas, contos e guerras para reinterpretar e reutilizar o mito do “poderoso que se torna medíocre” ou do “sobrenatural que se torna humano” em suas histórias. Esse traço cultural é tão marcante que podemos observar quando personagens antes fortíssimos passam a integrar o grupo dos personagens comuns. Em Naruto e em Dragon Ball, personagens considerados poderosos no início da trama são relegados ao papel de meros humanos comuns no final de ambas as séries.

No mito da criação do arquipélago japonês, Izanagi arremessara três pêssegos em direção às bruxas, consequentemente tal ato faz com que percam seus poderes completamente.

Outras inúmeras histórias e contos japoneses possuem esse detalhe como uma característica importante dos seus enredos. O psiquiatra suíço Carl Jung denominava esses padrões repetitivos como ”arquétipos” e acreditava que eram motivados por experiências advindas das mais diversas civilizações ao longo da história da humanidade. Essas experiências se moldam por arquétipos fincados no inconsciente coletivo.

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