Por que a área dos olhos na Ásia Oriental costuma parecer mais puxada? Anatomia, genética e mitos culturais

Anatomia, genética e mal-entendidos culturais sobre a prega epicântica

Muita gente, quando começa a prestar atenção em rostos de pessoas do Japão, da Coreia, da China e de outros países da Ásia Oriental, faz a mesma pergunta: por que a área dos olhos costuma parecer mais puxada do que em outras regiões do mundo? Neste artigo, a gente quer olhar para isso com calma, separando o que é anatomia do que é mito — sem essencialismos e sem generalizar nenhum povo.

Antes de continuar, um aviso importante. Dentro das próprias populações da Ásia Oriental existe uma diversidade enorme de formatos de olho. Algumas pessoas têm a prega epicântica bem marcada, outras têm uma versão leve e outras simplesmente não têm. A mesma prega também aparece no Sudeste Asiático, na Polinésia, em parte da África e em povos indígenas das Américas, inclusive aqui no Brasil. Ou seja: ela é uma variação anatômica humana bastante comum, e não uma “marca registrada” de um único grupo.

A área dos olhos que parece mais puxada

Quem busca uma resposta curta, pode começar por aqui: a peça-chave é a prega epicântica (também chamada de epicanto), uma pequena dobra de pele que cobre o canto interno do olho, junto ao nariz. Em populações de ascendência europeia, esse canto costuma aparecer mais aberto, deixando visível uma parte da conjuntiva. Quando a prega é mais marcada, a impressão visual é de que a área dos olhos fica mais “puxada” — embora o globo ocular em si não seja menor.

Existe um segundo detalhe anatômico que costuma vir junto. A dobra da pálpebra superior, que em muita gente de ascendência europeia aparece alguns milímetros acima da linha dos cílios formando uma pequena prega, em boa parte da população da Ásia Oriental é bem mais sutil ou praticamente inexistente. O olho, por isso, parece mais liso e mais “fechado”. A combinação de prega epicântica mais marcada e dobra superior menos definida é o que cria aquela aparência que, no Brasil, a gente costuma descrever informalmente como “olho puxado”.

E vale reforçar: é uma variação anatômica, não uma posição numa hierarquia. Na Europa também existe a mesma diversidade — tem gente com a dobra da pálpebra bem alta, gente com a dobra mais baixa e até bebês de qualquer etnia que nascem com uma prega epicântica leve, que tende a diminuir com o crescimento do nariz. Quando a gente entende isso, a pergunta muda um pouco de figura.

Cena de arte marcial ou kyudo (tiro com arco) tradicional japonês, como ilustração cultural da diversidade na Ásia Oriental

A “teoria do frio” se sustenta?

A explicação mais popular que aparece em sites, vídeos e até livros didáticos é quase sempre a mesma: a fenda palpebral menor seria uma adaptação ao frio e à luminosidade refletida pela neve nas regiões geladas do norte da Ásia. Em tese, uma abertura menor do olho protegeria da luz intensa e do ar gelado. É uma história simples e elegante. O problema é que, quando a gente olha de perto, ela não bate com vários fatos.

Existem regiões muito frias no mundo — norte da Europa, Sibéria, partes da América do Norte, Patagônia — onde a maior parte da população não tem a prega epicântica mais marcada. Se fosse uma adaptação climática pura, era de se esperar que a característica aparecesse com força em todo lugar onde faz frio do mesmo jeito, e isso simplesmente não acontece. Por outro lado, a prega também aparece em povos indígenas que vivem em regiões quentes, como em partes da Amazônia, da América Central, da Polinésia e da África Central, e também em populações do Sudeste Asiático em clima tropical. Esses casos não combinam com a “teoria do frio”.

Do ponto de vista da genética, o formato dos olhos é um traço complexo, influenciado por vários genes que também se relacionam ao desenvolvimento do osso do crânio e da própria região dos olhos. O que se observa em cada população é resultado de uma combinação de fatores: a história do grupo, o grau de mistura com populações vizinhas, deriva genética e também práticas culturais. O clima pode ter entrado nessa história, mas provavelmente não foi o fator principal, e a chamada “teoria do frio” está longe de ser consenso na academia.

Eu, pessoalmente, sempre achei essa teoria muito sedutora. Ela é fácil de contar, fácil de lembrar e parece responder a pergunta de forma imediata. Quando a gente começa a olhar para a genética da variação humana, no entanto, dá para perceber que as explicações de verdade costumam ser mais cuidadosas e menos “redondinhas” do que isso. E isso não é demérito — é só o preço de falar sério sobre o corpo humano.

Pessoas explorando tendências atuais de beleza e moda sul-coreanas, como exemplo de intercâmbio cultural

No mundo de hoje, com viagens, intercâmbio e cultura pop conectando as populações como nunca — do K-pop aos doramas, dos animes aos filmes coreanos, sem falar de toda a troca entre Brasil e Japão —, a gente também consegue enxergar essa diversidade com mais facilidade. Não é que “um formato de olho esteja sumindo” em lugar nenhum; é que a variação que sempre existiu ficou muito mais visível. Quem mora ou já passou um tempo em Tóquio, Seul, Hong Kong ou Cebu percebe isso na rua, todo dia.

Olhos pretos, castanhos, azuis, verdes, mel, amendoados, redondos, com epicanto mais marcado, sem epicanto: tudo isso convive em quase toda grande cidade do planeta. É a mesma anatomia humana variando — e não uma hierarquia. Se você se interessa por esse tipo de tema, vale explorar nossas reflexões sobre xenofobia e preconceito no Japão e, para um olhar sobre a história da presença japonesa no Brasil, o relato que preparamos sobre o preconceito que japoneses enfrentaram por aqui — em ambos os casos, o cuidado com generalizações é o mesmo.

Agora a pergunta volta para você: em algum momento da sua vida — no Brasil, em uma viagem, conversando com amigos ou vendo algum documentário — você se pegou pensando sobre esse tema? Tem alguma teoria que te faça mais sentido, ou alguma que você sempre achou estranha? Conta nos comentários, a gente adora trocar essa ideia.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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