Hachiko: A história do cão leal

Como um Akita de Shibuya virou símbolo de lealdade no Japão.

Na saída oeste da estação de Shibuya, em Tóquio, uma pequena estátua de bronze recebe todos os dias um fluxo contínuo de gente. Uns deixam uma flor, outros tiram foto ao lado do cachorro, e muita gente marca encontro apenas pelo "Hachiko" — o famoso ponto de encontro que herdou o nome de um Akita de verdade. Hachiko (ハチ公) foi o cachorro que voltou ao mesmo lugar durante quase dez anos, esperando um dono que nunca mais ia descer do trem. A história dele é um dos exemplos mais conhecidos de lealdade entre uma pessoa e um animal, dentro e fora do Japão.

Neste artigo, eu acompanho a vida de Hachiko: do filhote que chegou à casa de um professor em Tóquio até a manhã em que o dono não voltou para casa, e durante os longos anos de espera que vieram depois. Também falo da Universidade de Tóquio, onde o professor Ueno lecionava, da estátua de bronze que virou referência nacional, das duas grandes adaptações para o cinema (1987, no Japão; 2009, nos Estados Unidos) e do impacto cultural que Hachiko ainda deixa em livros didáticos e na cultura pop. Se você quiser se aprofundar na raça, vale dar uma olhada no guia sobre Akita Inu e Shiba Inu.

Akita Inu, a raça japonesa à qual Hachiko pertencia

A história de Hachiko: um Akita entre um professor e a estação

Hachiko nasceu em 1923, na província de Akita, no norte da ilha principal de Honshū. Em 1924, ainda filhote, foi presenteado ao professor Hidesaburō Ueno (上野英三郎, 1872–1925), engenheiro agrônomo da então Universidade Imperial de Tóquio — a atual Universidade de Tóquio. Ueno morava perto da estação de Shibuya e deu ao filhote o nome de "Hachi" (ハチ). Com o tempo, o sufixo honorífico "kō" (公) foi acrescentado, formando o nome pelo qual o mundo inteiro viria a conhecer o cão: "Hachikō" (ハチ公).

Ueno lecionava engenharia agrícola na Faculdade de Agricultura, com foco em saneamento e irrigação rural. É considerado um dos nomes que ajudaram a estruturar a agricultura moderna no Japão. Tinha fama de tratar bem alunos e animais, e a casa dele em Shibuya era frequentada por estudantes e colegas. A escolha por Shibuya não foi por acaso: perto do campus, mas com ar de bairro residencial tranquilo para a época. Casada com Kaya, e sem filhos, a família cuidava de Hachiko quase como um filho, e o levava para passear desde filhote. Hachiko virou parte da paisagem da estação: chegava antes do trem esperado, sentava próximo à saída e ficava ali até o último vagão passar. Os vendedores da praça, os funcionários da bilheteria e os passageiros que cruzavam a plataforma todo dia já sabiam: se o Akita estava ali, Ueno logo apareceria.

21 de maio de 1925: o dia que mudou tudo

Em 21 de maio de 1925, durante uma reunião na universidade, o professor Ueno sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e morreu sem conseguir chegar à estação. Hachiko foi até a saída de Shibuya no horário de sempre e esperou até o último passageiro passar. O dono não veio naquele dia — e nunca mais viria. É a partir dali que começa a parte mais conhecida da história.

Um detalhe que aparece em várias versões, e que vale contar com cuidado: há um relato de que, na noite do velório, Hachiko teria arranhado a porta de vidro da casa até conseguir entrar no cômodo onde o corpo de Ueno estava, e passado a noite ao lado do caixão, recusando-se a sair. A história é muito repetida, mas não há documentação de testemunhas que confirme o episódio com detalhes. Prefiro registrar como um relato tradicional, sem afirmar que aconteceu exatamente assim.

Hachiko, o Akita que esperou o dono na estação de Shibuya por quase dez anos

Quase dez anos na estação: a espera que virou símbolo

Depois da morte de Ueno, Hachiko foi morar com parentes do professor, também em Tóquio. Mas fugiu várias vezes e voltou para a casa antiga em Shibuya. Quando entendeu que o dono não morava mais ali, passou a ir todos os dias direto para a estação, e ficou ali, esperando, dia após dia. Os parentes tentaram levá-lo de volta algumas vezes, mas Hachiko sempre retornava ao mesmo ponto.

A espera se estendeu por quase uma década, atravessando o fim dos anos 1920, a crise econômica e o início dos anos 1930. A praça da estação virou endereço conhecido, e os funcionários da bilheteria, vizinhos e vendedores passaram a deixar comida e água para ele. Hachiko não era mais apenas o cachorro de um professor: era o cachorro de Shibuya.

A história que o Japão passou a conhecer

Hachiko voltou a ser notado por um ex-aluno do professor Ueno, Hirokichi Saito, que pesquisava a raça Akita por acaso. Saito começou a visitar Hachiko na estação, registrou a rotina dele e escreveu uma série de artigos sobre a lealdade daquele cachorro. A história foi publicada em setembro de 1932 no Asahi Shimbun (朝日新聞), um dos principais jornais do Japão, e a partir dali a espera de Hachiko virou notícia nacional.

O caso chamou a atenção de pesquisadores, de leitores comuns e, em pouco tempo, virou exemplo em escolas. Hachiko passou a ser citado em livros didáticos como modelo de fidelidade para crianças japonesas, ao lado de outras histórias de animais notáveis. Foi uma das primeiras vezes em que um cachorro doméstico ganhou espaço na imprensa escrita japonesa como personagem principal.

Em 1929, Hachiko pegou uma sarna forte, que quase o matou. Ficou bastante ferido, magro, com uma das orelhas caídas, em um estado bem ruim. Foi tratado por vizinhos e admiradores, e se recuperou, mas a aparência dele já não era a mesma do filhote robusto que Ueno tinha levado para casa em 1924.

Hachiko mais velho, magro, ainda esperando na estação de Shibuya

8 de março de 1935: o fim em Shibuya

Na noite de 8 de março de 1935, Hachiko morreu, com 11 anos, ainda na praça da estação de Shibuya, onde passou a maior parte da vida adulta. A causa mais aceita é filariose, mas algumas fontes mencionam também AVC e velhice. De qualquer forma, o que fica é o detalhe que mais comove: ele morreu exatamente no lugar onde escolheu esperar.

O corpo de Hachiko foi cremado e as cinzas enterradas no cemitério de Aoyama, ao lado do túmulo do professor Ueno, por vontade dos admiradores que acompanharam a história. Hoje, na estação de Shibuya, é comum ver visitantes parando diante da estátua e fazendo uma pausa antes de seguir para a saída.

A estátua de bronze: 1934, 1944, 1948

A primeira estátua de bronze em homenagem a Hachiko foi inaugurada em 1934, perto da bilheteria de Shibuya, com financiamento de admiradores e do próprio Hirokichi Saito. Foi uma das primeiras estátuas do Japão dedicadas a um cachorro, e até hoje funciona como ponto de encontro oficial da região.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1944, a estátua original foi derretida para a produção de armas, junto com vários outros objetos de metal do país. Nos anos do pós-guerra, o escultor Takeshi Ando, que tinha ajudado a fazer a peça original, se ofereceu para reconstruí-la. Em 1948, a nova versão foi instalada praticamente no mesmo lugar, com a inscrição "忠犬ハチ公" (Chūken Hachikō, o "cachorro leal Hachiko") gravada na base. A peça que está na praça hoje é essa reconstrução de 1948.

Em 2015, na celebração dos 80 anos da primeira versão, foi inaugurada uma segunda escultura de Hachiko ao lado da principal, dessa vez com Hachiko filhote, em referência à primeira vez que ele chegou à estação. Hoje, visitar a estátua virou quase um programa turístico de Tóquio, e o local aparece em qualquer guia de Shibuya que se preze.

Hachiko no cinema: dois filmes que espalharam a história

A história de Hachiko ganhou duas adaptações principais para o cinema, que ajudaram a transformar o Akita de Shibuya em personagem conhecido em todo o mundo. As duas partem do mesmo núcleo, mas tomam direções bem diferentes.

Hachikō Monogatari (1987)

Em 1987, o diretor Seijirō Kōyama lançou "Hachikō Monogatari" (ハチ公物語, "A história de Hachiko"), a adaptação japonesa mais conhecida. É considerado o filme mais fiel à história real, e usa um Akita chamado "Chu" para interpretar o cachorro em diferentes fases da vida. Tatsuya Nakadai vive o professor Ueno, e o roteiro segue a linha do melodrama familiar japonês, com bastante tempo dedicado à rotina entre dono e cachorro. O longa é usado até hoje em escolas japonesas como material complementar sobre lealdade.

Sempre ao Seu Lado (2009)

Em 2009, o diretor Lasse Hallström levou a história para os Estados Unidos com "Hachi: A Dog's Tale", que no Brasil ficou conhecido como "Sempre ao Seu Lado". A adaptação é mais livre: a relação entre professor e cachorro foi mantida, mas o professor virou Parker Wilson, interpretado por Richard Gere, e a história foi transplantada para uma cidade fictícia do interior americano. O elenco canino é formado por três Akitas diferentes, que se revezam em diferentes fases da vida do Hachiko. O filme ajudou a popularizar a raça Akita fora do Japão, e até hoje é citado como porta de entrada para o tema em outros países.

Hachiko e Greyfriars Bobby: um paralelo que vale fazer

Em Edimburgo, na Escócia, existe outra história famosa de cachorro fiel: Greyfriars Bobby, um Skye Terrier que, segundo a tradição local, ficou por 14 anos no túmulo do dono até morrer. As duas histórias viraram símbolo de lealdade canina, e em muitos guias de viagem Hachiko e Bobby aparecem lado a lado como exemplos do mesmo arquétipo.

Vale lembrar que a veracidade histórica de Greyfriars Bobby também é debatida: parte da história pode ter sido exagerada por escritores do século XIX. Por isso, em vez de tratar Hachiko e Bobby como casos comprovados do mesmo fenômeno, eu prefiro registrar como histórias paralelas que, juntas, ajudaram a moldar a imagem do cachorro leal no imaginário ocidental e japonês.

Hachiko hoje: livros, escola e turismo

Quase um século depois da morte, Hachiko continua presente no cotidiano japonês. A história dele aparece em livros didáticos do ensino fundamental, em livros infantis ilustrados e em coletâneas de "modelos de lealdade" usadas em aulas de ética. Em Tóquio, virou mascote informal de Shibuya, e qualquer guia da região cita a estátua como ponto de parada.

Para quem visita o Japão, a estátua de Hachiko virou parada clássica: fica a poucos passos da saída oeste da estação de Shibuya, funciona como ponto de encontro e é quase impossível tirar foto sem algum dos lados sair com o movimento de pedestres da praça. É uma forma simples, e gratuita, de entrar em contato com um pedaço da cultura popular japonesa que não tem nada a ver com anime, eletrônicos ou templos.

Como visitar a estátua de Hachiko em Shibuya

Se você for a Tóquio e quiser conhecer a estátua, é bem simples. A peça fica na saída oeste da estação de Shibuya (Hachikō-guchi, "saída Hachiko"), do lado da famosa Scramble Crossing, no bairro de Shibuya. Não tem cobrança, não precisa de ingresso, e fica disponível 24 horas por dia, embora o lado mais fotogênico seja com luz natural.

  • Como chegar: a linha Yamanote, a linha Saikyō e várias linhas de metrô passam por Shibuya. Quem vem de Harajuku, por exemplo, é só uma estação de Yamanote.
  • Melhor horário: de manhã cedo, antes do rush, é mais fácil de fotografar sem multidão. No fim de tarde, a luz amarela dá um tom mais dramático para a foto.
  • Roteiro de meio dia: combine a estátua com o Shibuya Scramble Square, a loja de discos Tower Records, a passagem pelo santuário Meiji, em Yoyogi, e o Harajuku. Tudo fica perto, dá para fazer a pé.
  • Cuidado: a estátua é pequena, e a multidão em volta é grande. Não suba no pedestal e não jogue objetos em cima. É um ponto turístico, mas é também um memorial, e pede o tipo de respeito que qualquer monumento merece.

Para quem estiver em Odate, vale lembrar que existe um Akita Inu vivo que descende da mesma linhagem da Hachiko, e várias famílias mantêm cães da raça na região. É um dos poucos lugares onde o visitante pode ver, de perto, o tipo físico de cachorro que esperou Ueno por uma década.

Considerações finais: por que essa história ainda gruda

Eu acho que o que faz Hachiko continuar relevante é justamente o que ele não entendia. Cachorro não sabe de promessas, não entende de horários de trem e não faz ideia do que é lealdade no sentido humano. Mas repetia a mesma rotina, no mesmo lugar, por quase dez anos, sem ninguém pedir. Essa repetição muda qualquer pessoa que passa por Shibuya e olha para a estátua de bronze.

Se você chegou até aqui, deixa sua impressão nos comentários: você acha que Hachiko realmente esperava o dono, ou ele repetia a rotina porque era o que sabia fazer? Eu fico em cima do muro, mas confesso que torço pela primeira hipótese.

Kevin Henrique

Sobre o Autor: Kevin Henrique

Especialista com mais de 10 anos de experiência em cultura asiática, com foco no Japão, Coreia, Animes e Jogos. Autodidata, escritor e viajante focado em ensinar japonês, dicas de turismo e curiosidades envolventes e profundas.

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